Pagª 19 - EDIÇAO NºXLV
, I NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poemas de Ilona Bastos

O Mundo é enorme
Diz quem sabe
Que o mundo é pequeno
E cada dia menor será…
Será?
.
Então, porque se afunda o navio
No mar tumultuoso, à vista de terra,
Da multidão que nos rochedos
Em lancinante choro se agita,
Desesperados, os náufragos
De estendidas mãos ao temporal
Implorando a vida e recebendo a morte?
.
Diz quem sabe
Que o mundo é pequeno
E cada dia menor será…
Será?
.
Então, porque se enrodilha o pobre
Nas pedras nuas da calçada,
Entre andrajosos farrapos escondido,
Em alucinantes visões perdido,
Confuso, cego, imundo,
Em surdo ou murmurado apelo
Pedindo o pão e recebendo a fome?
.
Diz quem sabe
Que o mundo é pequeno
E cada dia menor será…
Será?
.
Então, porque se encerra o meu vizinho
No ritual inócuo da educação,
Sorri polido, em lacónico acenar,
Se afasta, célere, chave na mão,
A afundar-se no cárcere fundo
Da sua crescente, imparável, amargura,
Querendo ternura e recebendo solidão?
.
Diz quem sabe
Que o mundo é pequeno
E cada dia menor será…
Será?
.
Então, porque choram aqueles dois seres
Lado a lado deitados sobre a mesma cama,
Isolados, de lágrimas encharcados,
Em soluços perpétuos, silenciosos,
Impotentes, incapazes de ultrapassar
A inexpugnável muralha que os separa,
Desejando amor e recebendo nada?
.
Diz quem sabe
Que o mundo é pequeno
E cada dia menor será…
Será?
.
Não sei como possa ser,
Se nem eu própria
Dentro de mim me encontro
Por vezes…
....
Lisboa, 6 de Outubro de 2004
.
A propósito (ou não) do poema Mundo Grande de Carlos Drummond de
Andrade.
O FOGO E O VENTO
O vento desta noite
Foi crepitar horrendo
E as rajadas labaredas
.
Os ruídos na escuridão
Foram gemidos sussurrados
Na ventania, e sirenes
E o fumo novelos rosados
Pelas chamas iluminados
Terror para o céu expelido
E pelo vento expandido
Sobre esta terra espalhando
Densa capa de terror
.
A nova golfada do vento
Soam medonhos, rufentos
De zinco os telhados feitos
.
Bolas de fogo disparam
Quais mísseis incendiários
Que altas copas inflamaram
Rubras flores do vendaval
Molhadas, em mato escondidas
Em recatado luzir, libertinas
Que cedo retomam ardores
Quando sopradas renascem
Em indomáveis fulgores
.
De um lado o vento e o fogo
E do outro, a humana dimensão
Forte tornada na desdita
.
Pois o fogo desta noite
Foi vendaval do inferno
E as chamas ruído insano
Em cuja luta mortal
O homem venceu, no dom
Que Deus lhe dá de ser tenaz
Na guerra ao demónio que é sagaz
E que ao espreitar-nos
Fora e dentro é maldição
Lisboa, 6 de Julho de 2004
Da Terrinha VI - O tio Poste...
por Se Gyn
Eu e o amigo Batata partimos para uma pescaria à tardinha, no ribeirão dos Moleques, nuns poços abaixo do rancho do Santo. Levamos, é claro, uma dúzia de garrafas de cerveja, pra ir matando o tempo.
Como havíamos esquecido de levar as iscas adequadas (minhocas e pedaços
de lambaris), usamos o que havia à mão, o salame que havíamos levado pra
tira gosto.
Mas, não demorou, e Batata começou a fisgar uns piauzinhos, enquanto eu
procurava um poço, mais abaixo. Mas, ele estava jogando os peixes que
fisgava na grama do barranco, se esquecendo da renca de gatos que
adotaram a área do rancho para morada. Logo, os bichanos estavam de
barriga inchada.
Eu, que estava mais abaixo, achei um poço bom de lobós e, fui fisgando
os peixes e, guardando, pro frito.
Passado um tempo, Batata começou a me chamar pra ir embora. Então,
voltei ao rancho e, acendemos os matacões de óleo queimado pra iluminar
o lugar.
Com o luar batendo na vegetação próxima ao rancho e, o sossego do lugar,
decidimos tomar mais duas cervejas, antes de ir embora. Mas, o assunto
foi ficando bom, e as duas se transformaram em doze...
Quando pegamos o caminho de volta pra cidade, já eram vinte horas.
Na curva da entrada do Jardim da Vitória, me distraí, quando vi na área
da casa em frente, o meu tio Pedro, a quem ainda não havia conseguido
avistar, desde que cheguei de férias. De repente, senti um puxão no
volante, e ouvi Batata falando alto:
«Ei! Tá doido - do jeito que ia, o carro ia subir na calçada lá na
frente, seu doido!...»
E eu só consegui responder: «Rapaz, me distraí. E que vi o tio Pedro em
casa, que eu queria encontrar...»
Batata atalhou enérgico: «...Do jeito que o carro ia, voce ia encontrar
era o tio Poste!»
Passado o susto e um tempinho, começamos a rir da coisa.
Grupo Instrumental: Um Método de Ensino.
Por
Marcelo Torca
A música proporciona vários caminhos, são vários estilos musicais existentes, a formação musical também possui os seus próprios caminhos, onde depende de quem e como será repassada esta formação.
A eficiência de um método de ensino musical depende da maneira como é ensinado ao aprendiz, depende da identificação dos problemas e as propostas para a resolução dos mesmos, assim, não é possível ter um método único, mas um conjunto de métodos que dependendo da situação e dos objetivos a serem cumpridos, satisfarão as necessidades.
Este método tem a proposta de suprir necessidades de leitura de notas, leitura rítmica, treino em conjunto, leitura de cifras, criação básica de arranjos.
Um músico é ao mesmo tempo intérprete, arranjador e compositor, além de tocar aquilo que está escrito, também é preciso estar preparado para criar arranjos musicais, fazer mudanças na harmonia sem alterar a música interpretada.
A parte de composição exige um pouco mais de conhecimento, mas é possível com poucas aulas de música, começar a fazer exercícios de composição.
E é importante o intérprete aprender a ler a partitura com as notas, assim como a leitura da música através das cifras, este desenvolvimento é importante para não tornar o curso musical maçante.
A Coleção Grupo Instrumental Método traz vários livros eletrônicos com explicação teórica e partituras sobre música, onde é possível desenvolver a aprendizagem musical para: flauta-doce soprano e contralto; escaleta; bandolim; cavaquinho; violão; guitarra; viola caipira; baixo elétrico; acordeão; teclado; piano; bateria.
No livro Aula de Música Grupo Instrumental é dada as informações básicas de teoria e a leitura de notas na pauta, possui trinta exercícios que devem ser feitos gradativamente, juntamente deve ser estudado o livro Primeiro Passos e Músicas e Canções onde há a leitura através das cifras.
E é fundamental realizar a repetição, assim como estudar em parcelas, a cada dia aprende-se um pouco, e no final de um mês ou dois meses os resultado irão aparecer.
Várias músicas da Coleção Grupo Instrumental Método possuem gravação, isso faz com que o aprendizado seja mais eficiente, pois é necessário ter um som fixo e correto para acompanhar, para desenvolver o ritmo e a velocidade necessária para fazer a troca de notas ou cifras.
O entendimento da partitura é progressivo, as principais dificuldades no início da aprendizagem musical refere-se ao desenvolvimento da coordenação motora e a leitura da partitura, seja esta através de notas ou de cifras.
Os livros Livro Musical, Arranjos Musicais e Curso de Música possuem mais teoria e explicação de como tocar as notas no instrumento musical escolhido, além de alguns exercícios propostos e atividades com jogos de música, já os livros Músicas e Canções e Aula de Música Grupo Instrumental II possuem várias partituras, incluindo cifras em Músicas e Canções, tendo gravações disponíveis e possibilitando um estudo mais aprofundado.
O cuidado de não sobrecarregar os estudos se faz necessário, escolhas são fundamentais, o roteiro das músicas a serem estudadas e como expor o aprendizado irá fazer a diferença, a melhor finalização de um trabalho musical é realizar ensaios periódicos e apresentações musicais periódicas, pois a concretização de um evento musical faz criar soluções de aplicação do conhecimento adquirido, quem toca em público, mesmo que seja bem pequeno, adquire experiência e segurança na aplicação do conhecimento aprendido.
Também entende ser preciso escolher um repertório, este não pode ser grande e tem de ser possível de ser executado num curto período de estudo.
Este método possibilita ter aulas individuais e treinar com uma gravação, ou fazer ensaios em grupo, promovendo ensaios semanais para fixar bem a parte estudada.
O bom desenvolvimento de um ensaio depende da aplicação individual e da evolução dos ensaios do conjunto, a tolerância entre os integrantes do grupo e a persistência de manter um trabalho, mesmo quando os resultados não são imediatos, faz com que haja um crescimento e amadurecimento e consequentemente produzindo resultados positivos.
A função deste método é de ajudar a resolver alguns problemas e mostrar um caminho para iniciar a aprendizagem musical, podendo formar até conjuntos.
O equilíbrio na música é um quesito constante, as atividades dos livros deste método fornecem conhecimento para caminhar neste sentido, mas a prática é responsável pela finalização do projeto, somente quando se toca é que pode concluir e dizer como a música executada está, se há necessidades de aperfeiçoar algum trecho, alterar o andamento da música ou a intensidade de cada instrumento musical dentro de um conjunto musical.
Marcelo Torca (Ver biografia do autor)
Poesia de Antônio Carlos Affonso dos Santos ACAS
Memórias
Nos tempos de eu menino,
Nas noites de São João,
Lembro estrondos e rojões,
Fogueiras, comidas, rezas,
Cantorias, risos, balões.
No meio dos festejos,
Mandando em todo mundo,
Impunha os meus desejos,
Pois eu era o dono do mundo:
Meu pai, e a dona Guidinha,
Sabendo que eu era levado,
Me chamavam na cozinha,
Pra comer um bom-bocado.
As vezes eu não agüentava,
E dormia, a sono solto,
Até no colo de papai;
E não ouvia vozes nem risos,
Daquele povo satisfeito,
Eu sequer ouvia um «ai»,
E acordava no meu leito.
Perguntava onde estariam,
As pessoas que dançavam,
Aonde estariam as mesas,
Cadê as pessoas que riam,
Ao pé da fogueiras acesas?.
Estavam todas dormindo,
Imaginava num segundo,
Lá fora brasas reluzindo,
Dormindo estava o mundo!
Com treze anos de idade,
Deixei de ver tal festejo,
Porquê adormeci no tempo,
Sem sonhos, e sem desejo,
Por mais que eu quisesse,
Adormecia sem um beijo.
Daquele tempo, que eu trago,
Na memória, as vozes e risos.
Várias vozes se calaram:
-O irmão Osvaldo,
-A irmã Táta,
-Cadê a avó Biluca,
-Dona Guidinha,
-Seu Joaquim,
-Onde estão todos eles?.
Como diria Bandeira
Em versos que estou lendo
Sol tão claro lá fora,
Sol claro!; é a aurora?
Descubro, como que vendo,
Que estão todos dormindo,
E minha vida anoitecendo.
Lá fora, brasas reluzindo,
Cá dentro a saudade doendo,
-Ei São João! Cadê meu povo?,
-Que caminhos percorreram?
-Será que vou ficar só de novo?,
-Será que todos já morreram?
E ele me responde num segundo,
-Seu povo está dormindo, mas unido,
E te guardando junto com os anjos,
Que mandaram te dizer no ouvido,
Que dormindo está o mundo!.