Pagª 18 - EDIÇAO NºXLV , I NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

 

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Coluna

     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

          ACAS, o Caipira Urbano.



Melindres da imprensa


FESTA NO BREJO

O preá mandô dizê,
Que tão tudo cunvidado,
Pro batizado da preazinha,
Na mansão dos alagado,
Eu vô contá pra vanceis,
Este «causo» bem contado:

- Veio bicho de tudo canto,
Uns a pé, otros a nado,
Teve festa a noite intêra,
Com um coral bem trenado...

- I chegô o tatu canastra,
Que veio tudo equipado,
Com as carça de bombacha,
I o casco bem lustrado,
Trazeno sua sanfona,
Pra tocar uns bom «dobrado»,
(Tem noventa e oito baixo,
Cada quár mais afinado...),

- Chegô u tatu galinha,
Com ele veio embolado,
Um casár de tatu bola,
I um de gambá maiado,
Um tatu peba e a raposa,
Esta, cum guará do lado,
(Ela parecia bem feliz,
Cum seu novo namorado!),
Viero tuda as lontra,
I as capivara do banhado
Veio um casár de anta,
Fazeno beiço, enciumado,
Na festa num veio a onça;
Porquê bebeu um bocado,
-(É que o preá precavido,
Protegeu os convidado,
Mandano pinga pra onça:
-Ela gostô do presente,
E bebeu demasiado!),
O urubu-rei chegô,
Cum a comitiva ao lado;
O campêro co'a viola,
Já tomô quentão, quinado,
Quis dançá co'a jacutinga,
Foi um quiprocó danado.

- O pinhé e o gavião,
Já ficaro infezado,
Déro tapa no campêro,
Que ficô mudo, calado,
A raposa i o guará,
(Que chegô bem invocado),
Insultaro tudo mundo,
Brigaro cum o veado,
Os jacaré se estranharo,
E derrubaro o tabrado,
Onde tava o canastra,
I o campêro, já mamado,
Eis apanharo tanto,
Ficaro escalabrado,
Rasgaro sua sanfona,
Batero nos convidado,
Dero nó na sucuri,
Amarraro ela no tabrado,
A pinga rolava sôrta,
Tudo mundo embriagado,
A preá co'a preazinha,
Iscondida no teiado,
Implorava pro macaco,
Não batê mais nos coitado,
Pois o canastra i o campêro,
Estavam bem machucado,
Quem é d'água, pulô n'água,
Para não sê arrebentado,
O pobre preá gritava,
Mas num era escuitado,
Mandô tudo mundo imbora,
Só ficaro os mais chegado...

- Só então chegô o padre,
Pra fazê u batizado!.

 

Poema de Maria Petronilho

 

Antemanhã



Gotas
germinam
na pedra nua
irisada
Água acesa
pérolas da lua
transparente gládio
fio de ternura
tremeluzente
fita de espuma
entre cinza e prata
entrelaçada
esperto
regaço
desfeito
aonde deito
a minha vida
ora chispa
ora causa
germe
que me
refaz
nacarada
água terna
na aurora
ressurgida

 

                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)

A imprensa brasileira já sofreu mais do que o suficiente durante a ditadura militar. O retorno à liberdade se tornou um bem ainda mais valioso dado que, na maioria das vezes, apenas damos conta de um bem quando o perdemos. A liberdade da imprensa é fundamental para o fortalecimento de povos e nações democráticos. Mas não se trata, no entanto, de uma liberdade incondicional, um direito sem deveres, liberdade gratuita. A liberdade implica responsabilidade. E, portanto, também deveres.

Não se pode aceitar, por conseguinte, que a imprensa, por ser livre, se dê direitos acima dos estabelecidos pela ordem legal e moral. Primeiro: qual é o papel, qual a responsabilidade, qual a missão da imprensa?

Ela é um atividade apenas lucrativa ou um serviço social às comunidades? Os interesses empresariais de um veículo de comunicação podem se colocar acima da responsabilidade de informar e, portanto, de formar?

Quem são, hoje, os verdadeiros formadores de opinião, já que parte da grande imprensa brasileira se rebelou, ainda outra vez, contra o Presidente Lula por este advertir quanto à realidade e a «pauta dos editores»?

Comunicação é o ponto de vista apenas do emissor ou é a correlação entre emissor e receptor:? Ou seja: o leitor, o ouvinte, o telespectador são passivos ou ativos na comunicação?

A imprensa brasileira – a quem o Brasil deve grandes conquistas na consolidação de direitos e da própria liberdade do povo – não pode ter melindres de diva com faniquitos quando contestada, discutida ou confrontada. Ela não é vestal intocável.

Pois não mais se pode negar que, nas últimas décadas, o papel da imprensa começou a se transformar dada a cumplicidade nem sempre legítima com grupos de poder.

Temos, hoje, verdadeiros impérios empresariais na área de comunicação, defendendo valores que nem sempre são os do povo e da nação, das comunidades e dos municípios.

Ora, na grande discussão ideológica, filosófica e econômica a respeito do papel do Estado, as divergências são tantas quantos forem os interesses em jogo. Se se defende a economia de mercado ou a filosofia neoliberal já fracassada, há interesses que se entrechocam com a busca de uma distribuição de riqueza mais justa e decente.

A imprensa aceitou ser parte desse jogo e, portanto, vai-se colocando como uma instituição que abriu mão de sua pretendida imparcialidade. Pois imparcialidade não existe e isso não minimiza e nem deslustra o papel da imprensa, desde que ela assuma a sua posição e definição ideológica com clareza e honestidade.

No Brasil, hoje, agências de notícias se tornaram os verdadeiros fornecedores da informação, inclusive nas redações de jornais, até nos pequeninos municípios. Logo, a notícia mostra sempre uma face e uma origem, quase sempre, como era nos gramofones antigos, «a voz do dono».

A informação se tornou hegemônica. Quando Lula fala que a verdadeira fonte da notícia está no povo, ele tem absoluta razão e, de minha parte – e como jornalista veteraníssimo – creio ter alguns testemunhos a dar.

O mais importante deles, inclusive surpreendente para mim mesmo, foi quando, como proprietário e diretor de O DIARIO, inverti um dos esquemas habituais de reportagem, pautadas pelo editor.

Acontecera que, honrado a participar de discussões sobre os caminhos da imprensa, promovidos pela CNBB e pelo CELAM, fui movido a maiores reflexões após muitos estudos, congressos, debates, reuniões.

Já se falava, na década de 1980, dos efeitos ainda preliminares da internet, da comunicação eletrônica. E do novo papel da imprensa, que deveria se tornar mais investigativo, mais opinativo, com a informação sendo mais rápida, para não dizer que fulminante e imediata.

A minha primeira decisão, em O DIARIO, foi deixar de pautar a reportagem, permitindo que o povo se manifestasse em vez de o repórter dar sua opinião.

Criei os Murais do Povo, nos quais as comunidades escreviam bilhetes, deixavam reclamações, pediam providências. A surpresa foi impactante. Num bairro onde, por exemplo, o repórter – com sua visão pessoal de mundo – via como necessidades vitais o serviço de água ou de esgoto, educação, a população dava prioridade absoluta à falta de condução e de um telefone público.

Eram as prioridades vitais. E, a partir das constatações, as reportagens se foram tornando mais vivas, mais autênticas, mais legítimas. Adotamos, então, o lema que fora proposta pela CNBB: «ser voz dos que não têm voz».

O novo fenômeno na imprensa já está sendo o dos jornais de bairros, das rádios e tevês comunitárias. Os grandes veículos empresariais caminham, cada vez mais, para ser fortes meios publicitários e, cada vez menos, meios jornalísticos.

O inverso começa a acontecer e Lula tem razão: o povo começa a pautar a imprensa e, assim, tornando-se, ele próprio, povo, o principal formador de opinião. A grande imprensa está incorrendo num erro falta: ela fala para si mesma e para seus iguais.

Quando se sabe que a média da tiragem dos grandes jornais não chega mais a 400 mil exemplares diários em edição nacional, pode concluir que jornais e revistas, no papel, estão atingindo um público alvo que, na verdade, já tem opinião formada.

Bom dia.

Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.


Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.

Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».

Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.