Pagª 27 - EDIÇAO NºXLV , I NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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SE EU PUDESSE... GOSTARIA DE LHE DIZER!

CONTO Por Liliana Josué


Olá, boa tarde. Tenho todo o prazer, em mais uma vez, me encontrar a dialogar consigo. Como tem passado durante este período em que não nos vimos? Tudo bem? Fico muito satisfeita .

Mas ... , desculpe o atrevimento, tenho a sensação de que as suas palavras não correspondem inteiramente ao que lhe adivinho no espírito. Impressão minha? Talvez. No entanto, esse baixar de olhos resignados ... já para não falar da levíssima sombra de tristeza que vislumbro no seu rosto ... , nada querem dizer?. E essa curta frase de quase imperceptível melancólico sabor?. Está certo, não insisto, se quer que acredite faço-lhe a vontade. Mas é mesmo só para se sentir mais tranquilo.

Sim, não esqueci, o que lhe interessa é desbravar o meu eu, não o seu. Acho um pouco injusto mas não tenho alternativa.
Comigo, está tudo bem.
Como? ... Não acredita?... Porquê?.
Claro, já me conhece. Consegue ver o que não digo. Eu sinto o mesmo em relação a si. Pronto, não se zangue, resigno-me a falar exclusivamente de mim.

Sabe, existem coisas que, se eu pudesse, gostaria de lhe dizer.
Eu sei, não necessita recordar-me constantemente de este espaço existir para se poder falar de tudo, mas nem sempre é fácil abrir a minha caixinha intima. Compreenda, sinto-me devassada, não pelo que já foi dito, mas sobre o que ainda não falei.
Sim, é verdade, tenho todo o direito de me calar, também não é novidade, mas se pudesse ... .
Dir-lhe-ia que, em muitas alturas, quase o amaldiçoo. Vamos, não faça essa cara de surpresa. Creio estar a entender-me muito bem. Eu não disse mas você sabe. Pronto, convenceu-me, eu continuo. Amaldiçoo-o porque estou em desvantagem, conhece tudo, ou quase, sobre mim e, em contrapartida, o que possuo a seu respeito? Nada.

Sim, faz parte do jogo, mas esta situação satura. Já não me encontro na posição de alguém, a quem o mundo foge debaixo dos pés e necessita urgentemente de socorro. A minha ânsia de ajuda agora é outra.
Responda-me sem rodeios. Quem é você? .

Então... vamos permanecer aqui eternamente a olharmo-nos como dois gladiadores?.
Óptimo, também já lhe cresce uma pontinha de raiva! Não, não baixe os olhos, compreendo-o perfeitamente. Sente, neste momento, uma imensurável indignação relativamente a mim. Compreende-me melhor agora? .

Desculpe ter desempenhado este papel tão ingrato. Não o fiz pelo simples prazer de ser má, apenas lhe quis dar a saborear o amargo que tantas vezes se instala em mim. Não pelo paralelo da situação mas pelo oposto. Você sabe tudo, eu não sei nada. Aqui não existe incoerência ou falta de lógica, existe sim um enorme sentimento de impotência. Terei de ficar sempre do lado de fora.

Já reparou que ainda não o tratei por amigo?. Certamente entendeu porquê!.
Não posso apelidá-lo assim, se bem que o desejasse do mais fundo do meu coração.
Para que uma amizade seja real tem de se basear na reciprocidade. Dar e receber. Não, não estou a ser injusta. E é de inquestionável evidência o quanto me ajudou, mas eu não fui contemplada com a graça da retribuição. No entanto, pode estar certo, você será Alguém que permanecerá eternamente comigo.

Ficou admirado? É normal, mas eu explico melhor.
A raiva sentida é sublimada por outro sentimento ainda mais forte. Não o vou definir porque não posso, apenas isto: Sinto que parte de mim lhe pertence.
Vou revelar-lhe outros pequenos segredos: Ao final do dia, quando me deito, dou as boas-noites aos meus pais e a si também. Um gesto simpático, não concorda?.

Outras vezes é o desespero. A sua imagem está de tal modo presente a ponto de não me deixar conciliar o sono. Então, são voltas e mais voltas na cama e nada de adormecer. Nessas alturas, confesso, chego a amaldiçoá-lo e, entre dentes balbucio:

Tomara que durmas tão mal quanto eu .

Não me leve a mal, eu sei que não tem culpa mas o ser humano é assim mesmo; tem tanto de terno como de cruel.
Agora reparo, noto-lhe uma expressão estranha no rosto! Sente-se chocado?. Não se esqueça: «Aqui pode dizer-se tudo».

 

 

Ah! finalmente os seus lábios desenharam um sorriso. Ainda bem, começava a sentir o ambiente pesado. E capaz de me fazer acreditar não se ter sentido um pouco lisonjeado? Não me tome por presunçosa, sei perfeitamente não ser uma beldade e muito menos jovem, mas toda agente gosta de ser gostado.

Digo-lhe ainda mais, você tornou-se uma espécie padrão e quem não lhe obedece desaponta-me. Tem de admitir ser embaraçoso, com a agravante de não saber praticamente nada a seu respeito.

Vivo no mundo das hipóteses mas, estou em crer, muitas delas se integrarem num contexto real. Tenho, como certo, pertencer você à categoria dos íntegros. Vejo-o a acreditar em si próprio, ter certezas irrefutáveis, e que para as alcançar ponderou muito. Mas não exagere, ponderar em excesso pode tornar-se obsessivo levando-o inevitavelmente ao desespero. Por vezes, um pouco de irreverência torna-se saudável.

Desculpe, não sei se me estou a tornar maçadora. Quer que pare...? Não...? Então vou continuar!.
Vejo-o abrigando sentimentos nobres. Amigo do seu amigo, jamais apunhalando pelas costas. Acima de tudo encaro-o como um puro, flutuando numa sensibilidade áurea. Considero-o um ser superior.

Peço perdão pela minha franqueza, sei poder estar a colocá-lo numa situação difícil e, por favor, não torça tanto as mãos. Como é que sei? Então... já cá venho há algum tempo. Não as vejo, encontram-se sobre as suas pernas, por baixo da mesa, tenho razão, não é verdade?. Está bem, não responda.
Vou seguir por outro caminho ainda mais perigoso; o físico.

Já não é uma criança, deverá ser mais velho que eu, mas tem ainda muito encanto. Volto a focar as suas mãos, são lindas, magras, de dedos compridos; o seu gesticular é mágico. Adoro vê-las falar.

O seu rosto também é apelativo: nota-se que se esforça imenso no intuito de não deixar transparecer as suas emoções. Mas, em determinadas alturas, é traído por aquele ruborzinho que tão bem lhe assenta. Sabe, torna-o mais humano, menos inatingível.

Admiro igualmente o seu cabelo: farto, elegantemente comprido, raiado de graciosos fios brancos. Emolduram-lhe voluptuosamente as faces. No entanto, manifesto o meu desapontamento quando o corta. Sinto não ter respeitado a minha devoção em relação a ele. Agora já sabe, por isso lhe peço, não o corte, mantenha-o sempre assim. Se me contrariar zango-me.

Para exacerbar a minha satisfação óptica, você é um homem alto e magro. O que posso eu fazer? Tento não reparar mas é impossível. Tenho mesmo uma confissão a fazer-lhe: Por alguma vezes dei comigo a não prestar qualquer atenção ao que me estava a dizer. Em contrapartida observava, de forma muito discreta, a sua fisionomia.

Pronto, não se irrite, não estou com isto a dizer tê-lo posto a falar para o vazio, foram só momentos curtos, e tive mais ganho que perca.
Agora reparo, falei tanto a ponto de me sentir cansada. Dê-me apenas um minuto de silêncio, necessito descansar.

Disse-lhe tudo o que podia, neste momento o meu estado emocional encontra-se entre o aliviado e o constrangido. Tem de reconhecer que fui corajosa, mais do que isso, fui audaz, até mesmo atrevida.

Peço mil perdões, demorei-o imenso. Porque não me mandou calar? O senhor não dispõe de todo o tempo para me ouvir. Ai não há problema? Ainda bem.

Então só para terminar: E capaz de catalogar o nosso relacionamento? Não se esqueça de, em certa altura, me ter confrontado com uma opção que eu deveria tomar. Pois a minha resposta é esta. Não sei.

E porque terei de ser apenas eu a optar? Vá, desça do pedestal e façamo-lo em conjunto.

Lembre-se, a vantagem encontra-se do seu lado. E nem tente convencer-me de que estou errada. Sabe, o excesso de rigor embota o espírito.
Não lhe peço um favor sugiro comunhão. Para si é igualmente frutuoso optar. Até pode chegar à conclusão, ser mais conveniente não voltar a conversar comigo.

Está no seu pleno direito. Prefiro isso à falta de coragem. Tenho perfeita consciência de que jamais me magoaria intencionalmente e, nunca pela minha cabeça passou qualquer ideia de cobardia da sua parte.

Como já lhe disse ainda à pouco, para mim, é um homem integro. Aquela falta de coragem a que me referi reflecte apenas o desejo inconfessado de não me prejudicar.
Gosto de si, gosto de estar consigo, e quando fico sem o ver morro de saudade.

Pelo amor de Deus não core. Para isso basto eu.
Sabe, não vou optar por nada, o assunto vai decorrer naturalmente. Se tivesse de o fazer, provavelmente impunha-se uma atitude drástica. Não está fora de hipótese mas por enquanto ainda não. Preciso de si.
Agora peço-lhe: Não diga nada. Sinto-me tão despida. Agradeço-lhe que ,em silêncio, me auxilie a cobrir a minha nudez.

Disse-lhe muitas coisas, não sei se gostou ou não. Provavelmente nunca o virei a saber ..., ou será que consigo adivinhar?.
Deixo-o com esta questão em suspenso porque: Se eu pudesse... gostaria de lho dizer.

Liliana Josué