Pagª 40 - EDIÇAO NºXLV
, I NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Porque é que os animais não têm linguagem?
Por
Daniel Teixeira
David Hume diz-nos que é porque o animal não pensa, ou seja, não raciocina. Mas
as palavras de David Hume levam-nos igualmente à aceitação da ideia de que,
algumas atitudes ou palavras do homem não são também linguagem. Senão vejamos:
«É impossível que a inferência do animal possa basear-se em algum processo de
argumentação ou raciocínio, pelo qual ele conclua que eventos semelhantes devem
seguir-se a objectos semelhantes e que o curso da natureza será sempre regular
nas suas operações.» - diz Hume.
Não será seguramente esse o caso, mas o facto do comportamento animal ser
rotineiro, mesmo que não resultando de complexos processos de raciocínio não nos
leva a nós a partir do princípio de que o animal irracional entende a natureza
como sendo regular nas suas operações?
Por isso porque fala Hume deste aspecto e
não de outro, como por exemplo, perguntar-se se o animal tem capacidade
suficiente para «entender» uma natureza mutável?
Até porque a questão tem o seu quê de subjectivo: será, que na visão (na forma
de ver) do animal ele «entende» que a chuva ou o sol são constantes da natureza?
E quem diz chuva e sol pode dizer todo um outro conjunto de factores: os
incêndios, as derrocadas, a queda de uma árvore, etc.
«Por conseguinte, os animais não são guiados pelo raciocínio nas suas
inferências, nem o são as crianças - diz ainda Hume - nem o é também a
generalidade dos homens nas suas acções e conclusões ordinárias.
E é unicamente
o costume que impele os animais, de cada objecto que impressiona os seus
sentidos, a inferir o seu usual concomitante, e leva a sua imaginação, desde o
aparecimento de um, a conceber o outro, da maneira peculiar que denominamos de
crença (belief).
Aqui entramos num campo mais complexo que é o da crença: ora a crença é um
conceito solidificado e em certo sentido é uma inferência. Não se pode acreditar
numa coisa, ou que uma coisa vai ter lugar, sem se ter catalogado o seu
antecedente lógico: ou seja a uma dada causa segue-se um dado efeito.
Afinal o
costume não será isso mesmo, ou seja, uma repetição continuada de factos que nos
leva a criar uma ideia de que perante dadas condições é (na nossa visão mais
reflectida) se segue um dado evento. Troveja é provável que chova; o céu está
negro é provável que chova, mas tudo isso se sabe pela constância de raciocínios
construídos antes.
Em seguida Hume debruça-se sobre a diferença entre o homem e o animal, neste
plano da inferência , para chegar à conclusão que o animal (e alguns homens) não
têm a mesma capacidade de outros homens para acederem ao raciocínio e ao
raciocínio complexo, no qual inclui a fala, a educação - das paixões, dos
partidos, etc. - e a cultura através dos livros e da conversação.
As
constatações de Hume, ainda que discutíveis em termos de priorização e de
valores continentes, não deixam, contudo, de nos oferecer uma imagem daquilo que
é, de facto, a realidade.
Se é um facto que nem todos os homens têm capacidade (ou disponibilidade
psicológica e sociológica) para acederem aos diversos graus de raciocínio
referidos por Hume, também nos parece certo que essa é uma questão
circunstancial, ou seja, uma situação que está ligada à condição humana e não
uma questão estrutural, ou seja, uma situação que esteja ligada à natureza /
estrutura humana.
Para Hume, também no campo dos instintos, a situação dos animais (e de alguns
homens mais do que outros) a diferenciação se proporciona : « (...) Mas, embora
os animais aprendam da observação muitas partes do seu conhecimento, há
igualmente muitas partes dele que recebem da mão original da natureza ; estas
excedem em muito o quinhão da capacidade que possuem nas ocasiões ordinárias e
nas quais pouco ou nada melhoram, com a mais longa prática e experiência. A elas
damos o nome de instintos e prestam-se muito à admiração como algo de
extraordinário e inexplicável por todas as disquisições do humano entendimento.
Mas, o nosso espanto talvez cesse ou diminua, ao pensarmos que o próprio
raciocínio experimental, que possuímos em comum com os animais e de que depende
a inteira conduta da vida, nada é senão uma espécie de instinto ou poder
mecânico, que actua em nós e nos é desconhecido ; e, nas suas operações
principais, não é dirigido por quaisquer relações ou comparações de ideias, como
o são os objectos peculiares das nossas faculdades intelectuais.
Embora o instinto seja diferente, é, apesar de tudo, ainda um instinto, que ensina um homem a evitar o fogo, tanto como aquele que ensina a uma ave, com tal exactidão, a arte de incubação e a inteira economia e ordem do cuidado dos filhotes».
Interessaria aqui intercalar uma observação minha: É necessário ter em
consideração que David Hume é um dos mais importantes representantes do
empirismo (inglês - neste caso) e que a sua tese se orienta sobretudo no sentido
de demonstrar que a experiência proporciona conhecimento (e todo o
conhecimento), pelo menos o basilar, que, depois de inserido na razão (filtrado,
podíamos afirmar) acaba por emancipar o homem do reino dos sentidos (instintos,
etc.).
A superação, ou sublimação em linguagem psicológica, através da razão, das
instituições primárias (instintos e sensações) é um dos objectivos do homem,
segundo Hume, que conjuntamente com Locke se colocam na posição antagónica à dos
humanistas franceses (Rosseau, etc.) partindo do princípio que o homem é
fundamentalmente mau (porque começa pelas instituições primárias que são os
instintos e as sensações) e que é a vivência em sociedade que o melhora, ou que
o faz evoluir e alterar / substituir os seus fundamentos através da aquisição de
um quantitativo de razão sublimante.
Os humanistas franceses foram os incentivadores do mito do bom selvagem, ou
seja, afirmaram que, inversamente, o homem é fundamentalmente bom, que nasce
igual e permanece igual. Aliás é este o conteúdo primeiro da Declaração
Universal dos Direitos do Homem nesta concepção inspirada «todos os homens
nascem e permanecem iguais». Assim, é a sociedade que os torna menos bons, ou
maus, ou seja, que os faz regredir, quando eles advêm menos bons ou maus.
A relação destas duas concepções com o tema que estamos desenvolvendo, para além
de esclarecer alguns pontos que devem ser de conhecimento prévio para uma boa
análise de Hume, esclarece-nos quanto a um ponto: enquanto que os humanistas
defendiam a potencialidade de todos os homens desde o seu nascimento (e, logo, a
potencialidade para aceder à linguagem), Hume e os empiristas inclinavam-se para
a ideia de um processo evolutivo que fazia tábua rasa do adquirido
originalmente, ou que, pelo menos, pregava a necessidade dessa aquisição
original ser transformada racionalmente.
O que temos defendido até aqui não invalida a aceitação de Rosseau e dos
humanistas franceses (pensamos que todo o homem tem potencialidades para
atingir, neste caso, a capacidade de linguagem) mas também não deixa de aceitar
os aspectos defendidos por Hume. Parece-nos um facto que, embora a
potencialidade exista em abstracto - perspectiva humanista - que essa mesma
potencialidade deve ser objecto de educação / intervenção social (perspectiva
empirista).
No que se refere expressamente à linguagem, através destas citações de Hume
ficamos sem dúvida nenhuma de que tanto o instinto como o costume (derivado da
sensibilidade experimental) não são, por um lado, elementos fornecedores ou
componentes do raciocínio enquanto tal. E esta exclusão de parte é importante.
Daí que os animais não tenham aquilo que se considera uma linguagem, tal como
algumas atitudes do homem não constituem linguagem. Porque são reguladas por um
poder mecânico, ou seja, um poder não reflectido ou premeditado conforme já
dissemos atrás. Assim: a linguagem gestual , como forma de linguagem que é, não
deve ser confundida com a «linguagem» espontânea dos gestos resultantes da
experiência ordinário e dos instintos.
Por outro lado, e servindo-me ainda de Hume (como poderia ter utilizado outros
filósofos também) ao estabelecer que a linguagem gestual é aquela parte da
gestualidade que é racionalizada, estabeleço simultaneamente que o impedimento
de «A» ou «B» para utilizar a oralidade ou a linguagem mais utilizada, não tem
lugar como resultado de uma falha de capacidade raciocínio. As limitações da
linguagem gestual - bem menos perfeita que a linguagem escrita ou falada - têm a
ver com factores de ordem cultural e de ordem física e dos correspondentes
limitantes do treino linguístico social.
Cantinho dos animais sozinhos

Cadelinha encontrada nas Sesmarias
Esta cadelinha de porte mini apareceu na quinta feira dia 8 de Outubro no
quintal de uma casa nas Sesmarias. Não se sabe se conseguiu entrar pelo portão
saltando a rede do portão ou se alguém a colocou lá dentro. É muito meiguinha e
doce. Aproximadamente 8 meses.
Não tem chip nem coleira. Será entregue a quem provar ser o seu dono.
Contactos: 962 985 399
Little dog found in Sesmarias
This little female dog was found on someone's garden, in Sesmarias. Maybe she
jumped through the front gate or maybe someone placed her there. She is really
sweet and gentle; around 8 months old.
She has no microchip nor collar. She will be given to whoever proves to be
her master.
Please contact: 962 985 399