Pagª 4 - EDIÇAO NºXLV , I NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Dois Poemas

Por  Denise Severgnini

Sentindo a morte de perto

Há um beijo que não dei, mas já é tarde
O destinatário partiu faz muito tempo...
Há aquela flor que não reguei... Sem alarde,
Dou-lhe a líquida fonte de vida... Contratempo
Há em mim, aquela dor que não cultivei...
Há no firmamento, A Força Maior,
Que agnóstica, inconsiderada, quase eu repudiei...
Visita-me espectro das sombras... De amor,
Busco roupagem... A disfarçar as mazelas que experimento
De passagem marcada à estação terminal... Repenso!
Escrevo ,eu trabalho, leio estudo,... Pra quê?...Nem minto!
Há ainda lavrado em meu peito aquele verso denso...
Não exaurido, nem sentenciado... Que sem querer eu sinto!
Tenho tempo... Dou-me o tempo... Apesar do desalento
Andejo de mãos dadas com o Criador... Sobrevivendo!
Meu jazigo aguarda-me, mas não agora!Entendendo,
Que há a expectativa do mal, mas a finalização do bem
Vou indo... Escrevendo... Chorando... Com ELE... Até o além!


A Poetisa Fenecida

Expirado o momento d’inspiração
Carnífice martírio de letras soltas
Mal diagramadas numa expiação
Em plúmbeo veludo, já envoltas
Traçam ritos da vate tão exaurida
Harpejam fúnebres árias... Riem
Do seu não ser expresso em vida
Letras malfadadas sobrevivem...

Poetisa serpenteia na soturnidade
Diáfanas vestes encobrem a agonia
Sem sua lira, não há prosperidade
Nem como poder falar de idolatria
Epopéias do desencanto desfraldam
Bandeiras que sacolejam escuridão
Perecidas almas a ela circunavegam
Impingindo um tanto de aliviação...

Não há conforto na palavra oblíqua
Um ego sorumbático nada produz
Nem mesmo um cura a ele se adéqua
Pois ela não se ajoelha ante uma cruz
Sucumbiram quimeras, versos alados
Desalento unânime na incerta essência
Tranquiliza na lápide, ossos cansados
Como epitáfio: Poetisa por excelência!

 

 

 

Histórias da Vida Real

 

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

 

 

UMA MULATA MUITO ESPERTA

Muitos animais sempre serviram de companheiros, amigos e prestadores de serviços aos seus amos, os homens. O cachorro é um excelente guarda, o boi ara a terra e trabalha no engenho. O cavalo e o burro servem para montaria e para outras atividades.

O popular muar, conhecido por burro, de burro ele não tem nada. Uma das características interessantes que observo no citado animal, é que o mesmo, quando a serviço em lugares montanhosos, carregando pesados balaios ele não sobe em linha reta qualquer terreno íngreme. Ele alonga o percurso e sobe em zigue-zague. Quando está muito cansado com a carga, ele empaca até sentir-se descansado.

No Brasil, eqüinos e muares ainda são usados pelas Forças armadas, Marinha e principalmente Exército. Em alguns pontos da rota marítima, na costa brasileira onde estão os faróis de orientação para navegação, o animal é usado para transporte de material para uso diário do Farol.

Em um destes faróis da Costa Catarinense, devido ao terreno ser acidentado, o trabalho do animal é muito necessário e constante. Num desses lugares havia em tempos passados, uma mula que recebeu o nome de Mulata.

O suprimento para os funcionários, equipamentos e material do farol, é da responsabilidade da Capitania dos Portos daquela abrangência. Com o passar do tempo a dita Mulata começou a dar o golpe, como um soldado esperto que dá aquele jeitinho para fugir do trabalho.

O pedido de suprimento era feito através da radiotelegrafia. Com tudo pronto, a lancha fazia a viagem exclusiva para aquele farol.

A guarnição se preparava, pois sabia a hora da chegada da lancha. Quando iam pegar a mula para para atrelar os equipamentos, ela se escondia. Os marinheiros saiam todos para procur’a-la. Pois ela se escondia em um lugar de difícil acesso, com capão de vegetação de altura média e embrenhava-se no meio de espinheiros de impossível acesso para os homens.

Este movimento repetiu-se por várias vezes, até que chegou a vez do homem fazer-se de mais esperto do que a mulata. O pedido era feito, confirmada a viagem, a Mulata ficava presa a noite toda em seus aposentos até que chegasse a hora da chegada da lancha.

Um detalhe muito importante é de que não era só a lancha da capitania que ia até a Ilha do farol. Outras lanchas por ali passavam, mas a Mulata só fugia quando era a lancha da capitania.

Fizeram o teste com outros tipos de lancha e a Mulata ignorava. Numa coisa a Mulata levou vantagem durante muito tempo: o ruído produzido pelo motor ã distãncia, ela ouvia muito antes dos marinheiros. E aí se escapava para o mato.

Como nas Forças Armadas brasileiras os militares se aposentam por tempo de serviço, os animais serviçais tem o mesmo direito. Só que eles permanecem nos locais onde prestaram serviços, recebendo alimentação, vacinas, exames veterinários e liberdade geral e irrestrita.

Já a substituta da Mulata não teve a mesma sorte. Foi dada ordem de prisão ao animal, para que não aprendesse o golpe de sua antecessora.