Pagª 35 - EDIÇAO NºXLV , I NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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ONDE JUDAS PERDEU AS BOTAS

Crónica por José Pedreira da Cruz

Naquela época minha terra não passava de um vilarejo contendo umas oitenta casinhas perdidas no meio do nada, e eu era muito pequeno, mais ainda me lembro perfeitamente de um episódio vivenciado por lá.

Havia no ar um zum zum zum de que o mundo iria se acabar na passagem da noite daquela segunda-feira, 20 de julho de 53, dia de Santo Aurélio, mas não sei ao certo de que fonte partiu tão desastroso boato espalhado aterrorizadamente pelas beatas do lugar.

Uma agitação apoderou-se descontroladamente de todos. Era um entra e sai de casa em casa com profundos lamentos; um beija - beija aos murmúrios envolvidos a abraços calorosos; uma choradeira infindável embalada por abundantes lágrimas em meio a uma tristeza funérea relacionada ao tão badalado fim do mundo, onde eu lá também chorei.

As pessoas acreditavam piamente em tudo que ouviam, isso em razão de morarmos num lugar distante das civilidades dos jornais, dos rádios e das tevês. Nós ainda não existíamos nem mesmo no mapa mundi e éramos obrigados a crer em tudo e em todos, principalmente no que o vigário dizia. Ah seu vigário, o homem mais sábio de lá!

Este usava de seus espaços litúrgicos para só falar da morte e da salvação, parecia que não tinha outro assunto a ensinar, e isso aguçava mais ainda o medo na cabeça das beatas.

Muitas pessoas que lá passavam diziam que nunca mais pisariam ali, onde o Judas perdeu as botas (não sei ao certo o significado dessa alusão),(1) mas era assim que diziam.

Minha mãe - beata fervorosa - também movida pelas pregações se agarrava a um terço e não parava de rezar e de implorar que morrêssemos em paz. O interessante é que não havia guerra por lá e a única guerra era a da labuta pela sobrevivência das secas impiedosas, parecia que estávamos à espera de um ataque de um inimigo invisível, mas... será por quê teríamos que morrer? Quem nos mataria naquela noite? Eu gemia de medo.

O dia 20 de julho de 53 foi longo e a noite não era bem esperada por ninguém, era nela que a morte viria.

« .... saibam, caríssimos irmãos, eu aprendi que a força da natureza é implacavelmente impiedosa e dela ninguém escapa. Vocês verão, nessa segunda-feira, a olho nu, a Lua sumir e as trevas descerem sobre todos», foi como disse pausadamente o seu vigário para sua assídua platéia de beatas e rezadeiras que nem mesmo piscavam os olhos.

Com esse discurso o vigário falava sobre um simples eclipse lunar total, mas as beatas interpretaram a seus modos e espalharam que o mundo acabaria naquela noite.

Quem iria duvidar delas? Ninguém! Elas praticavam a catequese, limpavam a igreja e ensinavam os cânticos. Eram, pois, confiáveis.

A noite finalmente chegou e todos corriam para fora de casa para olhar a Lua Cheia que no céu brilhava como um diamante. Mas de repente uma sombra foi se apoderando dela e logo o céu escureceu tal como seu vigário proferiu. Seria o fim?

Todos correram amedrontados para dentro de suas casas e se trancaram à luz de candeeiros, e as orações se tornaram mais fervorosas, e assim o dia amanheceu.

Amanheceu brilhoso como um outro dia qualquer do Sertão, e a seca permaneceu flagelando a carne e os ânimos daquele povo sôfrego sobrevivente de um apocalipse antecipado.

E a seguir, todos os vizinhos concomitantemente se indagavam:
- Você Viu? Você ainda está vivo?

E tudo virou gozação.

(minhas reminiscências)
São Paulo, 09/10/2009


(1) Nota Redacção : Na opinião de Mário Prata, escritor e roteirista mineiro, a expressão «onde judas perdeu as botas» significa simplesmente um lugar distante e inacessível, e sua origem é explicada da seguinte maneira:

«depois de trair Jesus e receber 30 dinheiros, Judas caiu em depressão e culpa, vindo a se suicidar, enforcando-se numa árvore. Acontece que ele se matou sem as botas. E os 30 dinheiros não foram encontrados com ele.

Logo os soldados partiram em busca das botas de Judas, onde, provavelmente, estaria o dinheiro.

A história é omissa daí para frente. Nunca saberemos se acharam ou não as botas e o dinheiro. Mas a expressão atravessou vinte séculos.

(2)- Onde Judas descalçou as botas - reporta-se a um lugar desagradável, longínquo e inóspito. Esta expressão apresenta várias estruturas com a mesma carga semântica. Em Tieta do Agreste, Jorge Amado registra: o cu do mundo (p. 116), cafundó de Judas (p.71), cafundó do Judas (p. 497). Pereira (op. cit., p. 63), para a mesma expressão, encontra na obra de Drummond: cafundó de Judas, onde Judas perdeu as botas, calcanhar do Judas, onde o vento fez a curva, para lá de caixa - prego, no fim do mundo, onde o diabo perdeu as esporas, no cu de Judas.

Mota (op. cit., p. 335) registra nos confins do Judas, no oco do mundo. Perestelo (apud Mota) registra no cu de Judas. Magalhães Jr. ([s/d.]: 236) elenca onde Judas perdeu as botas, Prá lá de caixa-prego, nos calcanhares de Judas. Pereira (apud Andrade op. cit) justificando o valor semântico da expressão com o nome Judas diz: “sendo Judas um personagem malquisto não se pode imaginar que tenha escolhido em seu mais profundo desespero um lugar bonito e agradável pa se enforcar”. (PEREIRA, op. cit., p. 173)

Jorge Amado, no romance analisado, cita ainda a expressão cu do mundo no sentido de uma cidade sem desenvolvimento, atrasada culturalmente, como nos mostra a passagem: Agreste não é São Paulo, é o cu do mundo parou no século passado. Aqui ou bem se é moça cabaçuda ou rapariga de porta aberta. (AMADO, op. cit., p. 206).

 

 

SKIPYE - MEU ATUAL COMPANHEIRO

Conto / Crónica Por Sandra Fayad

Skipye é um boxer de um ano e um mês de idade. Veio para nossa casa como os outros cães que já não nos fazem companhia, porque morreram ou desapareceram.

Os meninos o ganharam de presente de um amigo, quando estava com apenas dois meses de idade. Como sempre, para conseguirem permissão para adotá-lo, juraram que iriam cuidar dele direitinho.

Notei que, desta vez, «seguraram as pontas» por mais dois meses, o que representa um recorde na dedicação à tarefa de cuidar de animais.

No início da convivência, foi hospedado no quarto de estudos das crianças, com travesseiro, cobertor, vasilhinhas para as refeições, bloco de controle de alimentação, cartão de vacinas, fortificantes, brinquedinhos de plástico.

Fizeram até uma escala para a coleta dos detritos e a limpeza dos aposentos do «filho». Tygo, designado «o pai» e Mary, «a mãe», nomearam os próprios pais «avós» do pequeno bibelô.

Mas o menos engraçado de tudo isso, foi a comunicação que recebi:
- Vovó, você agora é a «Bisavó» do Skipye.

Mimaram tanto o cãozinho que ele quase virou gente (mimada). Transformaram-no em um garoto voluntarioso e exigente. Para variar, depois da lua-de-mel relativamente duradoura, bateu o cansaço (natural) nas crianças.

- Chega de sermos bonzinhos. Já deu trabalho demais - pensaram e disseram. Doaram-me o cão, sem plano de saúde ou pensão alimentícia. A «avó» pagou o primeiro saco de ração, para demonstrar boa vontade e nunca mais se falou sobre isso.

Passei a ser a única provedora e responsável, inclusive pela educação básica do meu novo hóspede permanente e primeiro «bisneto». Como não tenho muito jeito para essas coisas, contratei um amestrador, que durante dois meses, três vezes por semana, «comeu» meu dinheirinho para ensinar o Skipye a «sentar» e «ficar». Nada mais.

Certa vez, passando por uma livraria no Shopping, encontrei o livro «Adestramento Inteligente» de autoria de Alexandre Rossi. Comecei a folheá-lo e descobri que o pouco que o amestrador transmitira ao cãozinho estava minuciosa e didaticamente descrito ali.

Comprei o livro e tirei o «adolescente» da escola. Como ainda não editaram uma Lei punindo quem deixa descendentes canídeos fora da sala de aula, me dei bem e o meu bolso agradeceu.

Comecei então a fazer o curso para tornar-me professora de cães. Alguns conceitos básicos já foram passados com eficiência para o aluno. Outros ainda estão sendo trabalhados. A relação afetiva e a comunicação encontram-se bem mais desenvolvidas.

Skipye mora na varanda da casa, que tem 40 metros de área. Construímos um cercado com espaço de dois metros quadrados, para limitar sua movimentação ao receber visitas em casa ou em outras atividades, nas quais sua presença pode atrapalhar, como fazer a limpeza da varanda e das janelas, abrir o portão principal para a saída de veículos.

A convivência entre nós tem sido cada dia mais fácil, parte devido ao amadurecimento do meu companheiro, que agora é um rapazinho menos agitado. Parece que, resolvidos os problemas de adaptação ao ambiente e de dentição, Skipye se concentra em compreender se está agradando ou desagradando e a reclamar, em algumas ocasiões, seus direitos adquiridos ou suas pretensões, às vezes audaciosas, com latidos estridentes.

A varanda onde ele mora é também garagem. Quando retorno para casa de carro, a qualquer hora do dia ou da noite, ele instintivamente se posiciona em estado de alerta para receber-me. Abro o portão eletrônico por onde sai sistematicamente.

Coloca-se atrás do carro e vem acompanhando-o até o completo estacionamento. Depois vai para o lado da porta do motorista para receber-me. Acho maravilhosa essa sua preocupação em escoltar-me.

Quando recebo visitas, ele se desloca voluntariamente para dentro do canil, deita-se e fica quietinho durante todo o tempo, até que a visita saia. Mas, depois disso, reclama se continuar preso.

Outro dia aconteceu um fato engraçado, que vou relatar-lhes a seguir. Entrei em casa e fui almoçar com a família. De repente, ouvimos meu celular tocando.

Minha filha levantou-se e saiu para procurá-lo pela casa, em vão. Percebendo que o som vinha da varanda, seguiu naquela direção e deparou-se com uma cena muito engraçada.
- Venham ver, gritou a Taty.

Saímos todos em disparada e caímos na risada com o que presenciamos. O celular encontrava-se no chão tocando, todo estraçalhado, diante do olhar assustador do Skipye, que se encontrava a um metro de distância, amedrontado e, ao mesmo tempo, em posição de alerta, como se estivesse diante de um ET.

Ao passar por ali, deixei o aparelho cair sem perceber e ele, vendo aquele objeto gostoso de mastigar, pusera-se a degustá-lo, quando o aparelho começou a tocar insistentemente. Por sorte, já estava mesmo bem velhinho e a companhia telefônica, ao tomar conhecimento do fato, presenteou-me com outro bem mais moderno.

Bem, amigos leitores, por enquanto é só isto que tenho para contar sobre o meu companheiro Skipye.

Espero poder diverti-los com novas aventuras interessantes. Se vocês quiserem enviar-me suas histórias sobre animais, será um prazer recebê-las.

Comprometo-me a preservar-lhes os direitos autorais. Obrigada.

http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/

05/05/2007
Última alteração:08/05/2007