Pagª 34 - EDIÇAO NºXLV
, I NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
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Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
MADAME BOVARY, DE GUSTAVE FLAUBERT
Por
Arlete Deretti Fernandes
No livro de Italo Calvino, Por Que Ler os Clássicos? (Cia das Letras, 1994),o autor oferece várias definições do que é um clássico. Numa das propostas, cita o seguinte:
«Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.»
Calvino também diz que um livro adquire tal adjetivação quando temos a
sensação de que já o conhecemos de tanto ouvirmos a seu respeito, embora se
revele inédito quando realizamos nossa própria leitura.
Madame Bovary, de Gustave Flaubert (1821-1880), é um clássico da literatura
que tem se perpetuado no tempo e se popularizado por meio de edições mais
baratas e de ótima qualidade gráfica.
A palavra «clássico» pode lembrar-nos a Antiguidade e a herança cultural.
Podemos chamar de clássico «o que segue cânones preestabelecidos»; assim
como também aquelas obras «cujo valor foi posto à prova pelo tempo».
. Um clássico é atemporal, pois mesmo datado no mais remoto dos séculos,
ainda assim pode transmitir mensagens que através dos tempos ainda condiz
com uma realidade social.
Muitas obras chegaram ao posto de «clássicas» justamente porque questionaram
estruturas, pensamentos e comportamentos de um período. Alguns clássicos
podem provocar um desconforto nos leitores; que se justifica pelo caráter
polêmico do texto.
Ao escrever Madame de Bovary, em meados da década de 1850, Flaubert sequer
imaginava que este livro poderia consagrá-lo enquanto autor.
Publicou alguns dos seus textos ainda na juventude – muitos inspirados pelo
amor platônico por Elisa Schlesinger, onze anos mais velha e casada – mas
com eles não conquistou a notoriedade.
Entre suas obras estão Memórias de um Louco (1838), Novembro (1842) e
Educação Sentimental (escrita em duas versões: em 1845 e 1869;
respectivamente).
De acordo com a biografia do autor, as produções de Flaubert sempre foram
motivadas por paixões. Por ser um romântico inveterado, expressava seus
próprios sentimentos por meio de seus personagens, não fugindo à regra
daqueles que também sofriam do «mal do século». Extravasava sua
subjetividade ao transferir suas expectativas, anseios e dores para
histórias apaixonantes.
O mesmo aconteceu com o célebre Madame Bovary. O escritor teria se inspirado
no romance que viveu com Louise Collet, casada e mãe de uma adolescente.
Muitos afirmam que esta foi a verdadeira protagonista da história.
Flaubert, entretanto, despistou, afirmando naquela época: «Madame Bovary sou
eu». O fato é que tanto Collet quanto Ema Bovary foram mulheres à frente do
seu tempo.
Na época em que as mulheres ainda estavam proibidas de expressar sentimentos
e desejos, desconheciam a participação política, e eram criadas e educadas
para serem apenas esposas, mães e donas-de-casa; Ema Bovary seguiu na
contramão.
Frustrada no casamento, a protagonista escamoteava a realidade por meio da
leitura de romances.
No fragmento abaixo, o narrador de Madame Bovary refere-se ä personagem que dá o título ao romance:
«...em segredo emprestava as mais crescidas algum romance que levava sempre no bolso do avental, e do qual ela própria devorava capítulos inteiros nas horas vagas. Era só amores, amantes, damas perseguidas que desmaiavam em pavilhões solitários, postilhòes assassinados nas estações de muda, cavalos rebentados em todas as páginas, florestas sombrias, perturbações do coração, juramentos, soluços, lágrimas e beijos, barquinhos ao luar, rouxinóis no arvoredo, cavaleiros bravos como leões e mansos como cordeiros, virtuosos como já não há, sempre bem postos e chorando como chafarizes.
Durante seis meses, aos quinze anos, Ema sujou as mãos no pó dos velhos gabinetes de leitura. Mais tarde, com Walter Scott, apaixonou-se por coisas históricas, sonhou com armários, salas de guarda e menestréis.
Quisera viver nalgum velho solar, como aquelas castelãs de corpetes compridos que, sob peitoril e o queixo na mão, a espera de ver surgir no extremo horizonte algum cavaleiro de pluma branca, galopando num cavalo preto».
O enredo – divido em três partes – se desenvolve quando a sonhadora dona-de-casa trai o marido em busca da própria felicidade; inadmissível para os rígidos padrões do século XIX.
Flaubert dedicou-se ainda à finalização de outras obras, mas não conseguiu
disfarçar o tédio e a solidão que sentia. Em 1870, com a eclosão da guerra
franco-prussiana, ele ansiou pelo «fim do mundo», como se este fosse o
passaporte para libertá-lo daquela vida melancólica.
O fato é que os ataques epiléticos que o acompanhavam desde a juventude se
tornaram cada vez mais constantes; seus familiares já estavam mortos e só
lhe restara a companhia de uma sobrinha e do romancista Emile Zola. Em 1880,
aos 58 anos, Gustave Flaubert faleceu.
Madame Bovary é um romance que resultou num escândalo ao ser publicado em 1857. Quando o livro foi lançado, houve na França um grande interesse pelo romance, pois levou seu autor a julgamento, tal o realismo com que escrevera .
Ele foi levado aos tribunais, onde utilizou a famosa frase «Emma Bovary
c'est moi» (Emma Bovary sou eu) para se defender das acusações.
Acusado de ofensa à moral e à religião, num processo contra o autor e também
contra Laurent Pichat, diretor da revista Revue de Paris, em que a história
foi publicada pela primeira vez, em episódios e com alguns pequenos cortes.
A Sexta Corte Correcional do Tribunal do Sena absolveu Flaubert, mas o mesmo
procedimento não foi adotado pelos críticos puritanos da época, que não
perdoaram o autor pelo tratamento cru que ele tinha dado, no romance, ao
tema do adultério, pela crítica ao clero e à burguesia.

Madame Bovary é com certeza um dos mais belos romances de lingua francesa,
ou porque não dizer, um dos mais belos e bem elaborados romances da história
literária.
A narrativa parte de uma experiência de Flaubert, médico de profissão,
escritor por vocação que estando em Rouen, perto de Paris, toma conhecimento
do suicídio de uma jovem senhora, que depois de ter levado o marido à ruina
ingere arsénico e falece.
Flaubert esteve durante oito anos pesquisando a vida desta senhora e como
requer o romance realista, em posse de dados muito próximos da realidade
escreve o romance, que lhe custou um processo por ultraje à moral do qual se
livrou alegando ter escrito o livro como forma de mostrar qual deve ser o
fim de uma mulher adúltera.
O livro narra a história de Ema Bovary, esposa do médico Charles Bovary, um
homem fracassado e medíocre que desperta na mulher todos os sentimentos
contrários aquilo a que havia idealizado durante a mocidade.
Ema fora criada em um convento e por não apresentar sinais verdadeiros de
que tivesse vocação para ser freira volta à casa do pai e ali vive uma vida
pacata no campo, lendo os romances românticos idealizados de Walter Scott.
Charles fora desde menino tímido e sem iniciativa, tendo um pai omisso fora
sempre controlado pela mãe e acaba por tornar-se médico. A mãe então
indica-lhe uma viúva de posses com quem o rapaz se casa e vive uma vida
morna de sentimentos.
Certa ocasião o pai de Ema quebra a perna e então Charles vai prestar
atendimento ao pai da jovem, ocasião esta em que acabam se conhecendo.
Posteriormente as visitas à casa de Ema se intensificam em virtude da saúde
seu pai. Logo Charles fica viúvo e daí ás núpcias é um curto intervalo de
tempo.
Ao casar a moça sente que ascenderá socialmente, que viverá a vida dos
salões, em contato com os nobres, mas logo entra num estado de profunda
nostalgia ao perceber que o casamento se constitui de uma vida monótona,
cercada dos afazeres do lar.
O casal então decide mudar-se para Roeun e quando isto ocorre Ema está
grávida de Berthe. Instalando-se na nova cidade, Charles de certa forma
ameaça com sua presença o farmacêutico Romais que executa as funções de
médico no local.
Surge entre as duas famílias um clima de inveja, que não se deixa
transparecer totalmente.
Ema conhece Leon , um jovem com quem trava amizade e um amor platônico, no
entanto logo o rapaz se dirige a Paris para estudar Direito o que
desencadeia na Senhora Bovary uma incrível sensação de solidão que é
superada pelo aparecimento de Rodolfo, fidalgo decaído que vive de
aparências com quem Ema vive um intenso caso de amor e com quem planeja
fugir.
No entanto, na data marcada, Rodolfo lhe envia um bilhete alegando que não
iria levá-la para o seu próprio bem. A jovem Senhora então entra em crise de
depressão profunda, tempo em que se recolhe a religiosidade e se dedica ao
marido.
Com a volta de Leon de Paris, Ema novamente se lança às suas aventuras
amorosas e perde todos os limites do bom senso, envolvendo-se cada vez mais
em dívidas. Assina muitas notas promissórias, dominada pelo consumismo e
pela personalidade ansiosa que a conduz finalmente ao fundo do poço.
Sem saída para as dívidas e tendo perdido mais uma vez o amante, ela resolve
tomar arsénico. Depois de um período agonizante ela morre.
Charles não suporta a ausência da esposa e acaba morrendo de ataque cardíaco
fulminante, na condição mais degradante que um ser humano é capaz de
alcançar.
Berthe depois da morte da tia com quem ficara após a morte dos pais, vai
trabalhar em uma tecelegem como operária e assim se dá o desfecho da trágica
história da Senhora Bovary.