Pagª 23 - EDIÇAO NºXLV , I NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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O Imaginário no Texto Angolano

Por Manuel Fragata de Morais

(Ver Notas Biográficas)

Quando me veio a ideia de elaborar a presente antologia, de imediato se me colocou a grandeza e delicadeza da tarefa face à vasta gama de escritores nacionais, e sobre o que eu poderia antever como imaginário, fantástico, real e ou irreal, entre muitas outras perspectivas, numa sociedade em que as fronteiras entre o mundo visível e aquele invisível sempre estiveram tão intimamente ligadas.

Face à oralidade das sociedades africanas, da qual Angola não teria como escapar, este universo de ambiguidade não poderia deixar de ter residência visível nas diversas obras dos escritores angolanos que, ao longo dos séculos XIX e XX, foram férteis na produção de textos em que diversos mundos se interligavam com acontecimentos estranhos, acontecimentos que com muita frequência fugiam ao entendimento de serem ou não reais perante a percepção do aceitável e ou do credível.

Oscar Ribas, um dos mais conceituados nomes da etnografia nacional, nascido em 1909 e já falecido, autor de vasta obra em que recolheu a extremamente valiosa literatura oral africana na zona de Luanda, afirmara que os contos ordinariamente reflectem aspectos da vida real. Neles figuram as mais variadas personagens: homens, animais, monstros, divindades, almas. Se por vezes, a acção decorre entre elementos da mesma espécie, outras no entanto desenrolam-se misteriosamente, numa participação de seres diferentes.

Confrontei-me, deste modo, com a questão do fantástico, algo que não pode ser explicado via racionalidade, e com as possibilidades do verosímil versus o inverosímil, o real e o sonho, o natural e o sobrenatural. O que procurar, o que e como inserir? Seria o fantástico, o estranho, o maravilhoso e a fantasia contidos na panóplia de obras de escritores angolanos a mesma coisa? Quedar-me-ia unicamente com o texto, vamos chamá-lo por contraposição adulto, ou igualmente com o tradicional, o juvenil e o infantil? Na oralidade africana, contar, o sunguilar, é parte intrínseca da vida.

É às noites, sob o agasalhar dos fogos, que as tradições, os usos e costumes são propagados de geração em geração, através dos contos, das estórias, das adivinhas, dos provérbios. Contar, relatar, gravar na memória colectiva é uma das acções mais antigas da história da humanidade, reflectidas em testemunho nas grutas espalhadas pelo mundo inteiro.

Acho que me preocupei mais com os aspectos do estranho, do maravilhoso, talvez mesmo até do insólito, na recolha que levei a cabo, deixando o fantástico maioritariamente para a literatura tradicional e para a literatura infantil, narrativas em que o narrador ou o escritor mais se preocupa com a mensagem, com a valorização moral e com um fim que transmita uma postura considerada de funcional na sociedade.

Tzvetan Todorov, um filósofo e linguista búlgaro desde 1963 a viver em Paris, no seu livro «Introdução à Literatura Fantástica», estabelece normas a respeito do fantástico na literatura, diferenciando entre o fantástico, o estranho e o maravilhoso. Segundo ele, em um mundo que é o nosso, que conhecemos (infira-se ocidental e moderno), sem diabos, sílfides, nem vampiros se produz um acontecimento impossível de explicar pelas leis desse mesmo mundo familiar. Quem percebe o acontecimento deve optar por uma das duas soluções possíveis: ou se trata de uma ilusão dos sentidos, de um produto de imaginação, e as leis do mundo seguem sendo o que são, ou o acontecimento se produziu realmente, é parte integrante da realidade, e então essa realidade está regida por leis que desconhecemos…

O fantástico ocupa o tempo dessa incerteza. Assim que se escolhe uma das duas respostas, deixa-se o terreno do fantástico para entrar em um género vizinho: o estranho ou o maravilhoso. O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural.

Não irei referir nesta apresentação o que me levou a incluir um e não outro escritor, até porque a linha divisória não me permitiu estabelecer fronteiras entre o estranho, o maravilhoso sempre existindo um subgénero transitivo entre eles.

Segundo Todorov, seja como for, não é possível excluir de uma análise do fantástico, o maravilhoso e o estranho, géneros aos quais se sobrepõe. Acho que os contos e os excertos de textos mais largos que me serviram de base, englobam-se largamente no objectivo a que me propus.

Fragata de Morais
Coordenador

 

 

FABRICIANO
Eleições

 

BENEDITO FRANCO

As leis são feitas e impostas pela classe dominante, conforme seus interesses, para os dominados obedecerem-nas e as seguirem.

Quando eu menino em Fabriciano - nem distrito era de Antonio Dias, MG - no tempo das eleições, as únicas propagandas eram numerosas células entregues nas casas e jogadas na rua - praticamente só uma rua existia - impressas, em sua maioria, em papel jornal.

Hoje, as propagandas chegam às raias do absurdo, atormentando-nos o ano inteiro, com nosso rico dinheirinho sendo queimado, dia e noite, sem dó e nem piedade. Existe político honesto?... Não concordo. Se existisse, não concordaria com esse absurdo...

Uma falta de compostura, de ética e de patriotismo. Uma aspiral sem fim de cinismo, corrupção e despudor...

Na campanha, espalhavam-se células eleitorais, com os nomes dos candidatos – algumas vezes com o do partido – na minha inocência, matutava o porquê de o adulto dar tanta importância àquele fato. Os meninos íamos colecionando número máximo daqueles papeizinhos...

A votação consistia em colocar as cédulas, o eleitor levava-as de casa, dentro de um envelope comum e enfiava-o no buraco da urna de madeira.

Anos mais tarde, os eleitores recebiam os envelopes timbrados na hora da votação. Papai era mesário.

As primeiras eleições, vistas por mim em Fabriciano, para Prefeito – lembro-me da do Doca Pires e do Candinho – foram de democracia total.

Durante a campanha, os candidatos xingavam um ao outro, mas após o resultado, saíram juntos comemorando – o Doca ganhou.

Em Ferros, as eleições eram ferrenhas. O Social, time de futebol de Fabriciano, teve um grande goleiro ferrense - foi morto, por motivos políticos, numa briga de rua numa das eleições em Ferros.

Uma vez que as eleições em Bom Jesus do Galho chegaram à violência sem limites, chamaram o Exército, que acampou nas imediações da cidade, debaixo de um eucaliptal – dizia-se que numa manhã apareceu um soldado morto.

Resultado: o Exército abandonou a cidade. Foi o acontecido no Vietnam com o exército dos americanos – como não conheciam o terreno, quem nascia no Vietnam era vietnamita, mas quem morria era americano!...no Iraque acontece o mesmo...

O Presidente

No internato, era eu pouco simpático ao Diretor, Padre Marcos Gabiroba. De quando em vez ele bradava:- «O Benedito só não esquece a cabeça onde esteve porque ela está segura pelo pescoço».

Na década de 60, o Tribunal Eleitoral nomeou-me mesário – o Presidente.

Entusiasmado, trabalhei todo o dia, mas às três horas da tarde lembrei-me que deveria almoçar...

Um médico amigo de infância foi o último a votar. E eu já de prontidão para lacrar a urna, pois em todos os relógios dos presentes marcavam cinco horas quando meu amigo entrou na cabine.

Como Presidente, cabia a mim levar a urna ao Fórum.

Urna lacrada, peguei-a, chamei os soldados e íamos saindo quando... me lembrei de que não havia votado. Voltei, rasgamos o lacre, votei, todos os mesários assinaram um papel em branco e o colamos na fenda da urna, lacrando-a novamente.

... Nunca mais me chamaram para fazer parte da mesa de votação.

BENEDITO CELSO A. FRANCO

 

Gangorra da Liberdade

Por Haroldo P. Barboza

 

 

 

 

Não tenho vergonha de revelar

Já fui pisado por cavalo bravo

Hoje, reciclado, estou na sela

Liberto, eu grito: sou ex-cravo!



Pensei ter subido na vida

Saindo das lamas profundas

Mas o destino só permite

Que eu carregue moles bundas.