Pagª 50 - EDIÇAO NºXLII
, II NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
A Gestualidade não Linguística (Continuação) Por Daniel Teixeira (Ver inicio)
É o caso da dança das abelhas, por exemplo, em que, referindo-se um conjunto de comportamentos destes insectos, que, pela sua utilização e repetição em circunstâncias bem determinadas, ou em circunstâncias que a mente humana relaciona com o circunstancialismo desses momentos, se acaba por atribuir a esses comportamentos um significado linguístico.
Existe, na verdade, em todo o ser humano, a vontade de interpretar os fenómenos
da natureza e de racionalizar os mesmos, o que é uma atitude louvável, desde que
se tenha consciência disso mesmo, ou seja, que se interpreta e se atribui o
título de linguagem a acontecimentos que, no nosso entender, aparecem como sendo
linguagem.
No caso concreto da dança das abelhas calcula-se que a repetição (a mera
repetição, refira-se) em circunstâncias igualmente repetidas, constituem
manifestações de linguagem nas abelhas. Para mais, afirma-se, a atitude das
abelhas tem por fito «informar» as suas companheiras de colmeia do local onde
existe bom e belo pólen.
Acresce ainda que estes insectos têm um sentido de orientação extraordinário,
não falhando nunca a sua colmeia mesmo que à volta da mesma existam cinquenta
precisamente iguais. Iguais para nós...acrescentemos, tanto as colmeias como as
abelhas, pois também não se sabe se, de facto, as abelhas acertam a 100% na sua
colmeia uma vez que todas elas - as abelhas - são iguais ( para nós,
igualmente).
Assim, tanto no comportamento dos animais como no comportamento dos homens, por
maior que seja a nossa boa vontade, dificilmente poderemos considerar que existe
uma manifestação linguística quer nos hábitos dos animais quer nas manifestações
involuntárias dos homens.
Que exista até, nalguns casos, um significado avaliado como específico para uma
determinada atitude ou comportamento do homem ou do animal em geral, e que esse
significado avaliado como específico tenha um destinatário ( receptor ) faz -nos
apenas chegar ao ponto em que admitimos a existência de «comunicação», mas não
nos faz chegar ao ponto de admitirmos a existência de linguagem.
A linguagem é, a nosso ver, incontestavelmente, um processo cognitivo que apenas
pode ser exercido pelos seres dotados de inteligência, como é o caso único ( até
agora ) do ser humano. A confusão que existe, ao atribuir-se por vezes o termo
linguagem à dança das abelhas, por exemplo, ou a qualquer manifestação não
linguística da actividade do homem, tem a ver com a não distinção entre leis
físicas e leis humanas.
A abelha, age da forma que age, volteando o manancial de flores ou orientando-se
pelo sol e pelos ventos para alcançar a sua (?) colmeia porque de outra forma
não pode proceder.
Trata-se de uma lei física (da natureza) que a impele ao comportamento referido
e à qual ela não pode fugir. Para fugir a essa lei teria de pensar, ou de poder
pensar, noutra possibilidade - neste caso para chegar à sua colmeia - e essa
possibilidade de escolha está-lhe vedada.
O homem, quando falante voluntário, tem perante si variadíssimas opções de
linguagem. Quando procede segundo leis da física (leis da natureza) através de
interjeições, gestos reflexos, etc., procede como a abelha, ou seja, não pode
fugir a essa forma de proceder.
Para que tal tenha lugar necessário se torna que o mesmo pense, ou seja, que o
mesmo filtre cognitivamente as suas interjeições ou gestos (e que possa fazê-lo,
como é claro).
Assim, nalguns casos, o filtro pensante que é o cérebro humano, pode exercer uma
função inibidora e/ou transformadora desses comportamentos naturais, tornando-os
formas de linguagem quando de tal se trata. Portanto, e mais uma vez, a
linguagem na sua real acepção é pensada, racionalizada.
A palavra ou o gesto involuntário é isso mesmo: decorre ou tem lugar independentemente da vontade e do pensamento do homem.
10.ª edição da Festa do Cinema Francês

Sob o signo de Agnès Varda
Agnès Varda, de 81 anos, é a realizadora convidada da sessão de abertura da festa, em Lisboa, no dia 7 de Outubro, no Cinema São Jorge. Na ocasião, será dado início a um ciclo com todas as suas curtas-metragens e a uma retrospectiva de longas-metragens, na Cinemateca Portuguesa. Outros realizadores estarão presentes nas várias sessões da Festa do Cinema Francês, como Agnès Jaoui, Jan Kounen, Jean-Paul Lilienfeld, Rémi Bezançon, Josiane Balasko e Ilan Duran-Cohen.
Organizada pelo Instituto Franco-Português sob a égide da Embaixada de França,
esta 10ª edição é um marco simbólico, uma consagração, o testemunho do crescente
sucesso que o festival tem vindo a ter junto do público.
Mas este sucesso, devemo-lo, também, ao apoio e confiança renovados dos nossos
parceiros, num contexto no entanto difícil para o mecenato artístico e, por
isso, lhes expresso, aqui, os meus mais sinceros agradecimentos.
Entre 7 de Outubro e 10 de Novembro de 2009, o cinema francês estará em festa
nas cidades de Lisboa, Almada, Porto, Guimarães, Faro e Coimbra.
Espectadores curiosos, cinéfilos atentos, amadores de filmes
policiais, de dramas ou de comédias, a secção principal de filmes em antestreia
oferecerá a oportunidade de descobrir as obras mais recentes da produção
francesa.
Numerosos artistas famosos irão participar nesta grande festa. Assim, poderão
ser apreciados, entre outros, os últimos
filmes de Agnès Jaoui (Parlez-moi de la pluie), Josiane Balasko (Cliente),
Robert Guédiguian (L’Armée du crime), Costa-Gavras (Eden à l’ouest), Claude
Chabrol (Bellamy) e Jean-Paul Lilienfeld (La Journée de la jupe) ou, ainda, de
Rémi Besançon (Le premier jour du reste de ta vie).
Por outro lado, poderão ser descobertos jovens autores como Maïwenn (Le Bal des
actrices) ou Ilan Duran Cohen (Le Plaisir de chanter). A 10ª Festa do Cinema
Francês fará do público de amanhã uma das suas prioridades. A Festinha
apresentará uma selecção de filmes de animação, com particular destaque para
Astérix e Obélix, esses irredutíveis gauleses, que festejam, já, os seus 50
anos.
Este 10ª aniversário também será assinalado pela presença de uma convidada
excepcional: Agnès Varda, a quem decidimos prestar uma homenagem sem
precedentes. Assim, o público poderá descobrir, não apenas um florilégio dos
seus filmes na Cinemateca Portuguesa, como também uma selecção de
curtas-metragens no Instituto Franco-Português, em Lisboa, e as suas últimas
instalações de vídeo no magnífico Museu de Serralves, no Porto.
A secção Os César da Festa permitirá rever, de entre os 245 filmes apresentados
nas edições anteriores no nosso festival,
aqueles cuja qualidade foi distinguida com o César e unanimemente aplaudida pelo
público.
E, porque acreditar em novos talentos os ajuda a despontar, uma secção especial
Primeiras Obras, Grandes Filmes prestará homenagem ao trabalho realizado pela
Fondation Groupama Gan pour le Cinéma, que, todos os anos, contribui para que
surjam primeiros filmes, indo à descoberta de novos cineastas e revelando-os ao
público.
A última edição do Festival de Cannes foi marcada pela apresentação do filme de
Pedro Costa, Ne change rien, sobre a actriz e cantora Jeanne Balibar. Teremos o
prazer de vos fazer descobrir esta obra, em exclusividade, e na presença do
realizador e da própria actriz. A esta sessão especial, seguir-se-á um concerto
de Jeanne Balibar, a quem também será dedicada uma retrospectiva na Cinemateca
Portuguesa.
Haverá cinema, claro está, mas, também, música, com a participação de artistas
como os Moriarty e Jane Birkin, que virão apresentar as suas últimas criações
neste ambiente festivo. Esta 10ª edição anuncia-se rica de eventos e deixa
augurar belos encontros de qualidade: desejo-vos a todos um excelente festival!
Denis Delbourg
Embaixador de França em Portugal