Pagª 18 - EDIÇAO NºXLII
, II NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Coluna
Antônio Carlos Affonso dos Santos.
ACAS, o Caipira Urbano.
Por uma cidade cordial

Ipês do Acas e a Aldeia Kaiowà
Para quem não acompanhou, informo que um texto meu, o
«Ipês», foi
lido numa classe de alfabetização da aldeia Kaiowá, de uma escola de
Evangelização pertencente ao município de Dourados, MS - Brasil.
A Professora Maria Goretti, leu meu texto para os curumins e cunhas (meninos e
meninas). Para o terceiro ano primário, mandou fazer um trabalho a respeito; com
dissertações e desenhos.
As crianças indígenas leram o texto e os passaram também aos seus pais. O texto
desta «carta» é uma homenagem em agradecimento que faço a estes brasileirinhos,
para os quais nunca fiz nada.
Agora estou recompensado; e orgulhoso! Pela primeira vez mostro os desenhos que
me foram enviados pela Professora Maria Goretti; as fotos de seus desenhos são
inéditas e agora, via Raizonline, vai percorrer o mundo; ainda que lusófono.
Se puderem ajuda-los, ainda que com orações, peço que o façam. Temos esta dívida
com estes brasileiros mais autênticos.
Alguns dos textos e de alguns desenhos feitos pelos indiozinhos do Mato Grosso- Brasil, sobre meu texto «Ipês»
O ipê é uma árvore que dá uma flor tão bonita, tem de toda cor: tem ipê amarelo
e tem verde, verde eu nunca vi mais eu tenho certeza que tem... Tem azul, roxo e
branco. O ipê ele serve para quê? Madeira, tabua, piso, por isso todos acham que
ele é bom. (Jaderson).
N.A.: não recebi o desenho que ele fez!
-«O ipê estava triste porque não dava flor... Um dia apareceu uns passarinhos muito bonito, sentou um passarinho branco no ipê, sentou verde no ipê, sentou amarelo e chegou a primavera, ai deu flor nos ipês, e os ipês ficaram alegres...ai Jesus deu as flores para os ipês, Jesus é fiel para o ipê». (Elizeu) -

Desenho feito pelo Elizeu - Curumim Terena / Guarani da Aldeia Kaiowà
-«O ipê amarelinho é muito bonitinho. Eu amo o ipê, todos os ipês são bonitinhos, todos da nossa sala amam os ipês, o ipê é uma flor amarelinha e todos querem o ipê amarelinho». (Kelly)

Desenho feito pela Kelly - Cunhã Terena da Aldeia Kaiowà
-«O ipê é maravilhoso e faz muito sucesso, agorinha pouco três pessoas querendo
que nós desenhasse, elas junto com o ipê. Elas são: D. Margarida e a Zuleide e a
Nilva. Ele é muito bonito e lindo». (Josyele)
N.A.: não recebi o desenho que ele fez!

Desenho feito pelo João Gabriel - Curumim Terena da Aldeia Kaiowà

Desenho feito pela Cunhã Maiza - Terena / Guarani da Aldeia Kaiowà

Desenho feito pelo Curumim Euller - Terena - da Aldeia Kaiowà

Desenho feito pelo Curumim Rysyly - Kadiwéu / Kaiowà - da Aldeia Kaiowà
Corolário:
Caros amigos do Raizonline: que mais posso dizer diante dessa comunhão visceral
realizada?
- Será que quando as «bandeiras», grupos de portugueses e brasileiros, se
aventuravam em meio à selva matogrossense, pensaram que um dia eles ainda
tentassem ser amistosos?
Que mais posso dizer? Vocês têm algo a dizer? Palavras, que me jorram aos
borbulhões, me faltam diante de tanta magia!!!!!!!!!!!
- Abenção Professora Maria Goretti!
Há uma lenda que conta a origem do ipê. Ela diz o seguinte:
«Naqueles tempos, o inverno estava nos seus últimos dias e todas as árvores da floresta estavam começando a florescer. Somente os ipês continuavam sem flores.
Os ipês, cada vez mais se entristeciam com aquela situação. Eles eram os únicos
que não tinham nem flores nem frutos.
Então, os amarelos canários da terra, percebendo a tristeza dos ipês, resolveram
fazer seus ninhos somente nos galhos de um dos ipês.
E ninhais também foram feitos pelas araras vermelhas e azuis e os sanhaços em
outro; as garças brancas em outro, as siaciras em outro, e num outro ipê menos
imponente, foram os periquitos, jandaias, maritacas e papagaios.
Os ipês ficaram muito felizes e resolveram pedir à Providência Divina que lhes
dessem flores, como forma de agradecimento aos canários da terra e a todos os
outros pássaros da floresta, pela alegria que tinham levado a eles.
No dia seguinte, dizem; sob o mais belo céu azul que aqueles sertões já
conheceram, os ipês floresceram em várias cores.
Cada um dos ipês se vestiu nas cores e matizes dos pássaros que os havia adotado.
Quando tudo isso aconteceu, dizem, era agosto. E assim, desde então, os ipês têm
florescidos em agosto.
Agora, a cada agosto, um vento frio sopra desde os sertões do Brasil: é a
Providência Divina anunciando que ainda mais uma vez os ipês florescerão,
cumprindo a aliança entre Deus e a Natureza.
As cores dos ipês são, portanto, expressão de um milagre do amor de Deus pela natureza e pelos seres que vivem na Terra».
Passado o impacto da escolha do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, lá estamos, os brasileiros, com a responsabilidade de tomar consciência do que seja um país olímpico. Pois é disso que se trata, do espírito olímpico, o mesmo que inspirou os jogos desde a Antiguidade.
Na realidade, não se trata apenas de jogos, nem, também, apenas de competições esportivas. Trata-se de uma mentalidade que o espírito olímpico impõe, a começar do seu significado: Olimpo, a morada dos deuses; olímpico, no sentido também de majestoso, de divino.
De nada adiantará, portanto, criarmos condições materiais ótimas, estruturas arrojadas se, ao mesmo tempo, não nos deixarmos dominar por esse espírito civilizatório onde a cordialidade, a confraternização, a solidariedade são questões fundamentais, ainda que em árduas competições e disputas.
Uma das vantagens que o Rio de Janeiro e o Brasil tiveram na escolha do Comitê Internacional se apoiou na magnificência da natureza e no temperamento acolhedor e generoso do povo brasileiro, não apenas dos cariocas.
Foi como se nos lembrassem, novamente, da teoria – que, como masoquistas, tentamos destruir – do «homem cordial», de Sérgio Buarque de Hollanda.
O brasileiro é cordial, com uma vocação encantadora para o convívio, a solidariedade, a confraternização. A violência e os desencontros que temos vivido nas últimas décadas têm que ser creditadas, também, à imposição de uma mentalidade mercantilista que pretendeu soterrar os valores do espírito humano, transformando o homem nesse lobo do próprio homem.
Piracicaba precisa perceber que, também aqui, entramos em um novo contexto. Não será apenas o Rio de Janeiro o centro e o alvo dessas transformações. Será o Brasil como um todo, numa interligação emocional, espiritual e afetiva que a todos nos envolve.
Piracicaba tem uma história de cordialidade, de civilidade que vem sendo esquecida e atropelada, num tempo em que se dá mais importância à abertura de ruas e avenidas para carros, do que para a educação, a saúde, a convivência de um povo.
O Brasil começa, desde agora, a se transformar num país olímpico. E isso diz respeito a todos nós, na imensidão de nosso território, na diversidade profunda de nossas diferenças culturais. Uma cidade olímpica tem, antes de mais nada, valores morais e espirituais que a norteiem.
Estamos diante da maior oportunidade de nossa história para dar – a crianças, adolescentes, jovens – modelos mais nobres de vida, de comportamento e de mundo. Não haverá mais espaço para o feio, para o ruim, para o jeitinho, para a malandragem.
Um país olímpico exige almas olímpicas, não apenas estádios, estruturas materiais ou organização. Crianças, adolescentes, jovens têm o direito de saber que há caminhos mais dignos do que os da simples materialidade de valores.
Os esportes fazem parte do belo das sociedades humanas. O belo, as artes e os esportes constroem o novo homem.
Piracicaba tem que ser, conscientemente, parte desse país olímpico em que nos transformamos desde o dia 2 de outubro.
Bom dia.
Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.
Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA
A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.
Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.
O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».
Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.
A menina e o Vento
Conto
de Maria Petronilho
Não me perguntem porque terei abandonado a rua que sempre pisava e me entranhei nos terrenos baldios cheios de latas e poças, sacos de plástico em tiras como bandeiras de nações despedaçadas.
Andava a custo, por causa dos obstáculos e dos cheiros nauseabundos.
Impelia-me uma espécie de ânsia que dentro do peito gritava, uma voz que
ciciava ao meu ouvido.
- Anda! Vem cavalgar comigo! – Voz nítida, concreta, próxima, feita de sons
cujas notas soavam fora e dentro da minha cabeça.
Olhei em redor, mas nada vi de estranho e no horizonte, ninguém!
- Anda! Vem cavalgar comigo!
Como estava sozinha, arrisquei:
- Mas quem és tu?! E onde estás?
- Sou o Vento, bradou ele numa voz muito alta.
Dei um pulo:
- Ora essa! O Vento chia, não fala, repliquei, mas sem convicção pois nunca
tinha falado com o vento, apenas sabia do som que fazia passando e era
inusitado que respondesse, que dialogasse... fosse em que língua fosse.
- O Vento tem muitas vozes, disse-me, como se me adivinhasse... na verdade a
sua voz soava dentro e fora de mim, em uníssono.
- Dizem que o Vento canta nas folhas, nos pingos de água... atrevi-me a
dizer.
- Pois canta! E assobia nos caules de erva.
- Está bem, mas nunca se disse que o Vento falasse!
- No entanto estás a falar comigo, disse ele rindo.
Eu também ri, porque o riso contagia mesmo se não sabemos do que rimos.
Nós ríamos sabendo que era de nós mesmos e de nos estarmos descobrindo.
- Porque me convidaste a cavalgar contigo se não te vejo, perguntei?
De repente as minhas saias rodopiaram, o meu cabelo levantou-se e vi que o
chão ia ficando cada vez mais longe.
- Sentes-me, apesar de não me veres?
- Sinto, respondi eu incrédula, mas sem medo nenhum como se me pegassem ao
colo.
À volta, tudo sereno. Parecia que o vento resolvera marcar encontro só
comigo.
- E porque me levantaste do chão?
- Porque te convidei a viajar comigo e não me acreditaste!
- Como havia de acreditar-te?! Não te vejo, não tens dorso, já foi difícil
perceber que falavas quanto mais que me convidavas para um passeio!
- Conheces-me desde sempre e ousas dizer que sou mentiroso?! Muitas vezes te
convidei para passeios mas tu parecias nem dar conta, só olhavas o lugar
onde punhas os pés!
- E agora vejo o que pisava, confessei envergonhada... mas onde me levas?
- Aonde sonhares ir!
- Como hei-de sonhar, se não durmo?!
- Não é preciso dormir para sonhar! Os melhores sonhos são os da vigília,
pois trazem aos teus olhos o que mais anseias mas não te atrevias a olhar.
Os sonhos estão sempre contigo.
Fiquei um pouco a pensar nisto. Senti um novelo de todas as cores
desenrolar-se diante de mim e disse-lhe:
- São muitos sonhos e não sei qual escolha!
- Escuta-os, também têm voz!
- Hummm... pois será, mas diz-me: vou vaguear por aí como bruxa sem
vassoura?
Ele riu muito alto
- Es mesmo distraída! Porque não te aconchegas nas minhas asas e passaremos
por onde quisermos, pois se me apetece sou brisa; se me aborreço, tempestade
e se os meus companheiros me desafiam quando brincamos nas escadarias do
céu, desato a correr e sou furacão...
- Isso é muito mau porque partes tudo, já viste?!
- Vejo depois, quando olho para trás... mas como querias que me divertisse
se desde antes do tempo rodopio à volta da Terra, e cada vez me dão menos
importância?!
- E que acontecerá quando chegar o fim deste meu sonho?
- Acharás outro e depois outro e outro.... quando te acostumares a viajar
comigo, verás que não existe limite algum, pois o teu pensamento não tem
princípio nem fim... como eu não tenho!
- Já sei aonde quero ir.... mas é muito longe, disse eu baixinho.
- Não existe longe para o vento, que te disse eu?!
E o vento ia ficar zangado mas olhou-me por cima do ombro, viu-me os olhos
embaciados e eu já agarrada com confiança nas suas penas transparentes,
determinada...
Acalmando, perguntou
- Desculpa, sou impetuoso... onde queres ir primeiro?
- .... a um lugar que existiu há muito, muito tempo...
- O Vento não conhece o tempo, gritou!
- Ao colo de minha mãe!