Pagª 7 - EDIÇAO NºXLII , II NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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Poemas de Patrícia Neme

Num país como o nosso, pode-se comemorar o dia da criança?

PAI NOSSO

- porque há crianças... -


Pai nosso, Pai de toda a criançada,
estás longe no céu, por qual razão?
Te assusta tanta vida aniquilada,
Te agride ver a infância sem ter pão?

Do céu, ouves a mãe desempregada,
que implora por Tua Graça e Compaixão,
pra que a família seja alimentada
e os filhos tenham teto e educação?

Escutas a menina que é estuprada,
gritando de terror, dor, solidão?
E o jovem, cuja vida é ameaçada,
pra que seja, do tráfico, avião?

Tens visto que há criança escravizada
e, por salário, só ganha um tostão?
E aquela, que a chuva deixa assustada,
pois teme vá ao chão seu barracão?

Pai nosso, tanta coisa está errada...
Falta respeito, falta proteção...
Deixa, um pouquinho só, Tua morada,
vem cá, os filhos Teus estão sem chão!


Soneto da Saudade

O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.

Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...
A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...

O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.

Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!


O que é o amor

Talvez brisa sutil, cujo toque acalanta
o botão a florir, em promessa de vida...
Ou será minuano, que, hostil, aquebranta
a palmeira que, em prece, se eleva, incontida?

Arrebenta, revira, destroça, desplanta...
Há de ser vendaval, em loucura homicida?
Ou, bem mais, tempestade, que o peito agiganta
e desperta o queimor da paixão reprimida?

Ah, o amor! Explicá-lo é tarefa impossível...
As lembranças sussurram baixinho: é factível...
Tomo lápis, papel, e me entrego ao labor.

Um silêncio... Saudade... Uma lua tão cheia...
E o poeta que, errante, em minh´alma vagueia,
um soneto plangente começa a compor!

 

 

 

Poesia de Mário Matta e Silva

CITADINO MUNDO

Por baixo a marina
num enredar
de mastros
emaranhar
de velas e bandeiras
proas, popas bailadeiras
iates de bojos listrados
coloridos debotados
cabinas, motores, lemes e lastros
por navegar.

Mais a cima o rumor
desmedido e profundo
do movimento constante
entre braços de aço
ferro e betão armado
maciço e rotundo
em faixas paralelas
atirando o fragor
dos comboios que se cruzam
nos carris assentes lado a lado
e dos carros, noutro tabuleiro
em sentidos opostos, ronco compassado.

Tudo reproduz movimento
do instante, do agora, do dia
dando a vida à vida dos sons e das imagens
num compasso de exausta sinfonia
que nos percorre
(enquanto se não morre)
em citadino mundo de viagens.

Lisboa , 19. 08. 2008


NOSTALGIA

Sinto voarem meus pensamentos
em velocidade cruzeiro, sem paragens
como se fossem livres aragens
a arrastarem ventos.

Destemidos mas exauridos
no desabrigo dos espantos
os pensamentos trazem prantos
um tanto desabridos.

Cavadas e enegrecidas
quase tumulares, negras grutas
as nostalgias gritam, abruptas
quais almas deprimidas.

O rugir da vaga que na praia morre
e se faz ouvir sem avisar
é feito de um frémito breve, um escorregar
de lágrima que escorre.

O pranto, como áspero trovejar
vem de rompante, meio escondido
no sorriso a custo conseguido
em mal disfarçar.

Nostalgias que vão e que regressam
em transfiguradas comoções
e na frouxidão dos corações
se arremessam.