Pagª 29 - EDIÇAO NºXLII , II NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Contos da Horta Comunitária 713 Norte, com 103 espécies de ervas medicinais e ornamentais e 19 espécies de animais silvestres livres, na área pública em frente ao Bloco B residencial da 713 Norte - Brasília.

Por Sandra Fayad

NAMORO COM A NATUREZA

 

Naquela manhã acordei com o sol invadindo timidamente as frestas da janela. Ergui as lâminas sobrepostas das persianas, abri os vidros para arejar o quarto e cumprimentei a natureza que, silenciosa aqui barulhenta ali, fazia sua festa costumeira:
- Bom dia, crianças!

Minha família já se acostumou com esse modo de falar. Contam para meus amigos que eu classifico as plantas e os animais como crianças, meninas, meninos.

Dali da janela, fui fazendo a vistoria diária, automaticamente. Meu olhar se deteve em dois baldes grandes cheios de terra colocados na frente dos canteiros de capuchinha.

Visita de uma escola à Horta Comunitária

Curiosa, desci para conferir as novidades. Além dos baldes, havia várias mudas de carqueja, cavalinha, alecrim e outras três de uma espécie que não consegui identificar de imediato. Apanhei um punhado de terra e fui soltando-o devagar para conferir a sua qualidade.
- Oh lá, lá! É muito boa!

Procurei algum bilhete ou identificação. Nada! Apanhei a chave da caixinha dos correios e a abri. Encontrei apenas alguns trocados que correspondiam ao valor de uma mudinha retirada do jirau.

«Alguém usou o auto-serviço oferecido à Comunidade. Certamente que não se trata da mesma pessoa, mas de algum apressado que também não se identificou» - pensei.

E normal acontecer isto quando os visitantes já estão atrasados para o trabalho ou escola.

Preparei as covas e plantei as novas habitantes da Horta Comunitária, na esperança que o doador aparecesse para receber os agradecimentos. Nenhum sinal. Então fiz uma quadrinha ao benfeitor e enviei por e-mail aos cento e cinqüenta e três amigos da Horta cadastrados:

Talvez nem estejas te dando conta
Do teu namoro com a natureza....
A flora, a fauna - e eu aqui na ponta -
A ti aplaudimos pela delicadeza.

 

AUTO DE OUTONO

Sandra Fayad

Similar à dança sensual de uma odalisca,
Folhas bailam como um véu mulçumano.
Silenciosas, movimentam-se maduras,
E vão pousar discretas sobre o real trono,
Pintado de marrom com verdes ranhuras.

Descem empurradas pelo vento leve.
Solitárias ou em pequenos grupos,
Vão criando caramelos colchões de neve,
Leito móvel que estala sob os pés descalços
Da poesia, que a tudo assiste e descreve.

Tons pastéis são molduras do cenário
Pincelado por ipês roxos, abacates, amoras,
Que surgem como quem sai do armário
Á noite, surpreendendo as auroras,
Cada dia, com seu novo vestuário.

Instala-se e cumpre à risca o seu papel.
Irreversível, segue o ritmo da ventania.
Depois marcha para o deserto, a tropel.
Vai enxugar a voz do cantor ao meio-dia
E ralar a mão do escultor, com seu cinzel.

Dará por fim boas vindas ao forasteiro,
Reverenciando-lhe a chegada com chapéu
E retira-se, entregando o comando inteiro,
A quem dominará a cena como menestrel.

http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/

 

 

 

 


Continuação - CARNAVAL - Manuel Fragata de Morais -  (Ver Inicio)

Riram, fizeram amor, tomaram banho e foram para a cozinha. Comeram, foram para o quarto, fizeram amor e dormiram até à meia-noite.

Após os longos e monótonos anos dos carnavais da vitória, a tendência da pequena burguesia urbana foi recuperar os tempos perdidos na imolação cultural socialista. Deste modo, lançou-se avidamente nas festas privadas de arromba, com a mesma ligeireza de roupas e preconceitos.

O que era bom para o Brasil também o era para Angola, ou há telenovela para todos ou a moral que se dane. Todavia, no desfile principal do Carnaval, na Marginal, essa pequena burguesia não ousava copiar o país irmão.
A Marginal continuava a ser para o pé descalço.

Helder e Margarida saíram de casa por volta da primeira hora da madrugada, recuperados e prontos para a segunda noitada.

Procuraram por uns amigos e compartilharam a mesa. Viram chegar Milocas, mascarada de motocicleta, e o Fausto, mascarado de grávida, conhecido nos círculos da fofoca pelo Pila de Elefante, sendo desnecessárias mais explicações.

«Olhem, pensei que viria mascarado de bomba de gasolina.», disse Margarida, indicando com os olhos, «até condiria com ela.»
«Bomba de gasolina?»
«Se é verdade o que dizem, bastava-lhe por a mangueira ao ombro e voilá!...»

«Oh não, Margarida! Ainda é muito cedo para esse tipo de laracha...», disse Helder, entre os risos dos outros. O recinto ia-se enchendo e conforme as amizades, assim eram juntadas as mesas.

Numa delas, encontravam-se o Choco, a Mandioca, que mantinham um caso secreto só para eles, a Cebola, o Jindungo, pronto reunidos pelo par Sal e Oleo de Palma, num arrojado arranjo mascarado.

Por fim chegou sozinha a que geralmente era a vida da festa, Água, mascarada pura e cristalina.

Por volta das quatro da manhã, a famosa Banda Viramilha não tinha acordes a medir. Os foliões esfalfaram-se primeiramente com as kizombas e afins, depois com os zuks para desengonçar, e após uns trocados que envolveram passo dobles, merengues, tchá-tchá-tchás, voltaram aos agitados ritmos africanos, rendendo-se, agora, serenos, aos melódicos anos sessenta.

A bebida fluía generosa, e os olhares cúmplices dos casos clandestinos e os dos em busca de novas hostilidades, mordiscavam o espaço de ponta a ponta.

Pelas diversas mesas, numerosas senhoras encalhadas, zurziam suas viperinas línguas em recompensados ajustes de contas.

A Lucinda, disfarçada apropriadamente de galinha, só lhe faltava cacarejar. Quando deu pelo Tonecas em compenetrado ziguezague, a vir em sua direcção, levantou-se lesta e afogueada, salvara a honra. Este, quem nem a vira, e que tirara o azimute ao bar, para lá continuou imperturbado.
Na mesa maior, do Choco e da Mandioca algo se passava, as vozes estavam alteradas, e apreendia-se que não só pela bebida.

«Se tornas a fazer isso, rebento-te as fussas!...», desafiava Choco, descontrolado.
«Mas o que fiz?», retorquiu Jindungo, picante.
«Vi muito bem, estás aí por debaixo da mesa a empernar com a Mandioca, só que desta vez enganastes-te e a perna foi a minha.»
«Como ousas sugerir uma coisa dessas?», sentiu-se Mandioca ofendida, não era uma qualquer.

«Tem razão, tem razão, não há gente incivilizada nesta mesa!», disse Cebola, para acirrar.
«Calma, haja calma, estamos aqui para brincar e dançar.», tentou apaziguar Sal.
«E quem falou contigo, cara de amargura?», logo ripostou Choco.
«Não admito que fales assim com a minha mulher!», gritou Oleo de Palma.

«Tens a certeza que ela é tua mulher?», contra atacou Mandioca, sentindo que valera a pena vir.
Meia hora depois, como a discussão continuava, cada vez mais acalorada, a Banda Viramilha parou de tocar por se sentir desrespeitada.
As atenções convergiram então para a mesa dos desavindos, agora que, com público, passaram a vias de facto.
Choco foi fisicamente atacado por Jindungo e Sal, que sem mais lhe retiraram a dikanza e o saco de tinta.

Os associados da Associação Chá de Abacate e os penetras, bateram palmas, afinal o floor show começara. Era com espectáculos desta magnitude que se arrecadavam as cotas e se ganhava renome nacional.

Agua, que há muito fervia, deu-lhe uma cozedura como manda a lei, enquanto Mandioca, cortada de dor aos pedaços, a ele se aconchegou que, viril e assumido, a abraçou em seus tentáculos. Cebola ainda tentou interceder mas igualmente sucumbiu, em rodelas de lágrimas.

O público não sabia o que fazer. Uns, solicitavam à Banda Viramilha que entoasse o hino nacional, talvez assim se conseguisse compostura, pois a refrega parecia querer generalizar-se, mas logo se gerou maior confusão porque a maioria advogava que o hino não era suficientemente representativo.

Por fim, tão engalfinhados se encontravam, que os mirones só viam porções de Mandioca sobrepostas às de Choco e de Cebola.

Oleo de Palma, borrifado por Jindungo e por Sal, cobria-os por cima, numa zanga que parecia, agora, cozinhar a fogo brando. Já sem forças para lutar mais, Agua atirou-se a eles como se para dar molho à briga e tudo apaziguar.

E assim acabou aquela segunda noite de Carnaval, com a Banda Viramilha a tocar o hino nacional e os associados da Associação Chá de Abacate a gritarem felizes como nunca:
«Mas que grande kibeba!»..

Nota: Kibeba é um prato feito de choco. mandioca, óleo de palma,etc.
Jindungu (plural de ndungu) é que no Brasil se chama de pimenta, em Moçambique de piri-piri, no México chili,etc.

In «Jindunguices» Prémio Literário Sagrada Esperança 1999  

http://literaturafragatademorais.blogspot.com/