Pagª 23 - EDIÇAO NºXLII
, II NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Prémio «Sagrada Esperança» para Fragata de Morais

«Jindunguices» do escritor angolano Fragata de Morais, obteve, em Outubro de 1999, o prestigiado prémio literário «Sagrada Esperança».
O júri
premiou Fragata de Morais pela «originalidade, linguagem correcta, leveza de
estilo, brevidade, forte sentido de humor, linguagem coloquial e crítica social
que reflecte a vida quotidiana de Luanda».
Refira-se que o prémio, no valor de 5 mil dólares, é patrocinado pelo Instituto
Camões - Centro Cultural Português em Luanda, o Banco Totta & Açores e o
Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD) A obra foi editada pelo INALD.
O Prémio Sagrada Esperança, destina-se a todos os escritores angolanos, com
obras inéditas, abrangendo diversas áreas da literatura como a prosa, poesia,
romance, drama, novela, conto e crónica. O prémio, foi instituído em finais da
década de 70, e visa homenagear o poeta e primeiro presidente do país, António
Agostinho Neto, e visa também incentivar e promover os valores literários
inerentes à produção e reprodução do imaginário artístico das comunidades
socioculturais que constituem o povo angolano e a sua identidade cultural.
A cerimónia de entrega do prémio deste ano teve lugar a 17 de Setembro de 2009, dia do Herói Nacional.
António Agostinho Neto nasceu em Icolo e Bengo, a 17 de Setembro de 1922 e faleceu na Ex - União Soviética a 10 de Setembro de 1979. Foi o médico angolano, formado na Universidade de Lisboa, que em 1975 se tornou o primeiro presidente de Angola até 1979.
CARNAVAL
Cristina abriu a porta do quarto e ao entrar, despencou em rodopio por um longo túnel, numa queda infindável. Quando, angustiada, e ainda enfiada nas sensações do sonho despertou, e sentiu um corpo felpudo deitado a seu lado na cama, gritou de terror.
Momentos depois, apaziguada e com a escuridão do quarto fluindo sobre si,
recordou a farra de arromba da véspera, a da primeira noite do carnaval, em que
ela e o esposo tinham ido mascarados de felpudos coelhos tropicais.
Um sucesso.
Cristina usara um reduzido biquini amarelo sobre sua luzidia pele negra. Nos seios, redondos e atraentes e sobre os quais descendia em franjas, num pretenso rasgo de pudor, a máscara de uma felpuda cabeça de uma coelhinha, uma surpreendente camuflagem de várias tintas fosforescentes.
Ele, menos ousado, acima do calção bicolor cobrira-se com o traje do roedor, artisticamente esburacado à frente e nas costas, para ventilação. Calçava sapatilhas velhas e diferentes.
Regressados a casa às dez das manhã, mais bebidos do que não, Helder nem se dera
ao trabalho de retirar o traje de mascarado.
Ainda dormiam, cerca das sete da noite, o ar condicionado ligado a todo o vapor.
Reconfortada e sonolenta, voltou ao sonho onde foi recebida à porta de entrada
por um senhor trajado de papel castanho de embrulho, mascarado de convite, e no
qual se podia ler:
A Associação Chá de Abacate tem o prazer de convidar Vossa Excelência Helder e Cristina da Costa para as festas do Carnaval, que se celebrarão no Restaurante Mãozinhas no Bolso, na Ilha de Cabo, com início às 23.00 horas.
Venham mascarados e tragam a comida e bebidas, havendo, todavia, serviço de bar
e cozinha para quem queira. Só custo 100 dólares por casal, para os três dias.
Reserve já a sua mesa.
Levou-a para uma mesa, onde já se encontrava Helder, em animada conversa com uma
senhora mascarada de cebola cor púrpura.
Mal a viu, O marido levantou-se e dançaram o tango que a Banda Viramilha tocava
magistralmente.
Sem mais nem quê, Helder foi-lhe atabalhoadamente arrancado dos braços por uma
pândega mascarada de mandioca meio descascada, com quem dançou, tropeçando a
cada passo.
A campainha da porta soou estrídula e insistente. Helder acordou sobressaltado,
com Cristina agarrada a seu braço, sacudindo-o freneticamente. Surpresa, acordou
e para ele olhou absorta.
«Mas que sonho estranho!...», disse por fim.
«Parece que estavam a tocar à porta», respondeu Helder.
«Que toquem, não me vou levantar»
Olham para o relógio e admiram-se com a tardio da hora.
«Isto é que foi dormir», espreguiçou-se Cristina.
«Pudera, depois da noitada de ontem. Nem sei se tenho energias para mais logo».
«Olha, vamos tomar um matabicho - almoço reforçado, preparamo-nos nas calmas e
lá para a meia noite arrancamos.», sugeriu a esposa.
«Mas não vou mascarado de coelho, aquela porcaria é quente que se farta.»
«Mascara-te de pirata. Pões calções, aquela blusa parte - os -cornos às riscas
vermelhas e um lenço na cabeça. Eu pinto-te.»
«Boa ideia, e tu? Ontem foste a sensação, para não dizer a tesão, da festa.»
«Hoje vou mascarada da croquete!»
«De croquete?!...»
«Estou a brincar, vou-me mascarar simples, uma mini saia, um tope e uma pequena
máscara, aquela com óculos, nariz grande e bigode.»
Manuel Fragata de Morais

Notas Biográficas
Manuel Fragata de Morais, nasceu no Uíge, em Angola, em 1941. É diplomata de
carreira com a categoria de Embaixador (Aposentado). Dos vários cargos que
ocupou, destacam-se os de Director de Gabinete da Ministra dos Petróleos,
Conselheiro e Secretário Geral da Conselho Nacional de Comunicação Social,
Presidente da Comissão Directiva da União dos Escritores Angolanos e
Vice-Ministro da Educação e Cultura, no Governo de Unidade e Reconciliação
Nacional.
Seus primeiros escritos apareceram na década de sessenta em Paris, onde
igualmente frequentou a Universidade Internacional do Teatro, na qual trabalhou
com André Louis Perinetti e Victor Garcia.
«Fora jurado amor à primeira vista. Ninguém duvidava, ao ouvir Malaquias
<Gordo>, contar, com paixão, a estória do seu matrimónio, que engorda há quinze
anos. Conhecera a então futura esposa num dos programas matinais de culinária,
que a T.V.I (Televisão de Inkuna) quinzenalmente apresentava naqueles anos idos.
A fama do bom garfo, aliada ao facto de ser dono do mais famoso restaurante de
luxo de Katola, levara a que convidassem a presidir ao júri do concurso.
Aos concorrentes era atribuído um valioso prémio, com base na receita mais
original, no prato melhor confeccionado perante as inquiridoras câmaras
televisivas, e nas parcas chamadas telefónicas recebidas no programa, sobretudo
de aborrecidas donas de casa querendo dar palpites gastronómicos. Embasbacado,
mesmerizado no jeito e trajeitos culinários das mãos da fada Serafina Coquillage
(assim se escrevera), entrou em acelerada órbita amorosa quando ela, sem querer,
acariciou castamente o corpo engordurado do coelho...»
In Inkuna – Minha Terra - Página 107.
Na Holanda, a convite do STAUT da Academia de Artes Dramáticas daquele país da União Europeia, escreveu, realizou e encenou seus trabalhos pioneiros de teatro infantil, que levaram o nome genérico de «Gupia» .
Os mesmos foram apresentados no Holland Festival e no Berlin Kinder Und Jugendtheater, em 1971. No seu próprio grupo teatral, The Frist Company, realizou, encenou e actuou em «The Indian Wants the Bronx» de Israel Horowitz, «Fando e Lis» de Arrabal, bem como «The Hole», «Agonies» e «Sketches», todos da sua autoria.
«As duas jovens caminhavam em passos curtos, bamboleando as ancas insinuantes.
Trajavam saias colantes curtas e tópes bem decotados, revelando meia barriga
onde os bem feitos umbigos tanto prefatizavam chuvas e tempestades quanto
bonanças infindas, dependendo.
As tranças longas, algumas acastanhadas, realçavam a graça africana. Não teriam
mais de dezasseis anos e encaminhavam – se para a marginal da baia de katola, a
caminho da Ilha, alegres e vaidosas. Lá, no clube dos franceses, situado numa
casa vistosa, Jean Pierre, com oitos meses de Inkuna, descrevia a Luc, recém
chegado, as belezas da terra, e como com meia dúzia de dólares poderia usufruir
do bom e do melhor das jovens de Katola.
Ele que esperasse, dali a pouco dir–lhe–ia se era mentira ou verdade. Marcara
encontro com a Xandinha e a Milocas, esta última, pensava não ter mais que
quinze anos, reservada para ele. «Menos de quinze anos?», perguntou Luc
incrédulo, «Mas é uma criança, posso ir para a cadeia!».
«Isso é na nossa terra. Aqui nada disso conta, o escrúpulo não existe, já verás.
Quando formos à boite, logo compreenderás. A economia é de guerra, meu velho,
como dizem os nativos. O que interessa é teres o dinheiro», respondeu Jean
Pierre, veterano destas campanhas africanas.
«Economia de guerra com tanto carro novo que vejo nas ruas?», pretendeu saber
Luc. «De guerra para uns, os ricos. De miséria para a maioria. Há coisas que se
passam em Katola que nunca vi em lugar algum. Recordas - te quando fomos para o
Rwanda? De como todos fugiam do país por causa da guerra? Pois em Inkuna passa –
se o contrário, todos fogem por cá por causa da guerra!», respondeu Jean Pierre,
sem brincar...
In Inkuna – Minha Terra
Em 1972 – 75, frequentou a Nederlandse Film Akademie, produzindo para a
televisão holandesa, documentários sobre Angola em 1974, bem como em 1975. Seus
contos e poemas foram publicados em revistas e jornais holandeses, estando
incluídos em duas antologias, uma de escritores angolanos e outra de escritores
de língua portuguesa. É cronista do Jornal de Angola, membro da União dos
Jornalistas de Angola, membro da União dos Escritores Angolanos e Vice –
Ministro da Educação e Cultura.
Sobre a sua obra Inkuna – Minha Terra, lançada em 1997, o conceituado escritor
Angolano, Henrique Abranches, diz o seguinte:
«Esta pequena obra do escritor Fragata de Morais constitui para mim uma leitura penosa de onde sai deprimido, não porque eu não conhecesse que a verdade está por trás de muitas das suas estórias, como todos nos que não andamos a dormir conhecemos tão bem. Mas ele soube ser doloroso por vezes ousadamente controverso, quase provocatório. A coragem que passa nalguns dos seus contos, como «Jogo de Xadrez», ou as «Amizades», tem traça de um combatente , de alguém que não quer ser derrotado, porque não acha justo, e embora não saiba triunfar, soube ver e sofrer com o que viu ( Martinha), é um bom exemplo, entregando ao leitor a batata quente...