Pagª 50 - EDIÇAO NºXLIX , I NUMERO  DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Florbela e Marco Aurélio

Por Daniel Teixeira

Sobre Marco Aurélio e Florbela teremos de nos socorrer de uma longa citação vindo a incluir alguns aspectos que desvendam o tipo de relacionamento directo e subjectivo de Florbela com seu irmão:
Começa assim a introdução à publicação póstuma do livro «As máscaras do destino», publicado em 1932 e dedicado «A meu querido irmão, ao meu querido morto»:

«Vários grãos de areia, destinados a ser queimados, espalharam-se sobre o mesmo altar. Um caiu mais cedo, outro mais tarde; que lhes importa?» (Marco Aurélio)

A edição a que tivemos acesso, dos Pensamentos de Marco Aurélio, no seu Livro IV, versículo 15 diz: «Vês aí numerosos grãos de incenso sobre o mesmo altar. Um cai primeiro, o outro a seguir, nada disso tem importância.»

As diferenças encontradas na citação devem-se em grande parte ao facto de Marco Aurélio ter escrito em grego sendo assim os seus textos objecto de várias interpretações sobre a forma de traduzir. Contudo, na versão apresentada por Florbela, cuja edição se desconhece, estão contidas algumas afirmações (que não estando na outra versão que possuímos) nos levam a pensar que se tratou de um tradutor conhecedor da filosofia estóica porquanto o termo «espalhados» no que se refere aos grãos de incenso reflecte a «simpatia universal» estóica que Marco Aurélio refere como sendo o «nó sagrado» que liga todas as coisas e, segundo o qual, todos os seres concorrem para a harmonia do próprio mundo (o que se subentende na ordenação temporal); a mistura total reflecte esta concertação providencial de um mundo em que o homem é apenas uma parte.

O problema que se coloca neste texto de Marco Aurélio (e de acordo com a filosofia estóica) não é o facto da sucessão no tempo (neste caso da queda de cada um dos grãos de incenso) mas sim o facto de que ambos são para queimar e são queimados, sendo portanto indiferente a dilação temporal.

Justo é que façamos esta reflexão prévia ao desenvolvimento que a própria Florbela Espanca faz sobre o texto de Marco Aurélio na medida em que nos parece claro (neste seu primeiro livro em prosa) que a sua intenção, ainda que não muito claramente declarada, é a de diluir essa temporalidade entre a morte acontecida de Apeles e a sua própria morte. Contudo, e neste passo, acho que não se aplica qualquer ideação suicida da parte de Florbela Espanca, mas sim de uma interiorização da sua própria mortalidade.

Por isso, entremos no desenvolvimento que Florbela faz:

«Sobre uma pedra tumular ficaria bem esta sentença do mais poeta dos sábios, mas nada de firme, nada de eterno se pode gravar nas ondas, e são elas a pedra do seu túmulo.

(De notar que Apeles, irmão de Florbela, morreu num acidente em que o avião que tripulava caiu no rio Tejo, daí a referência às ondas).

O grão de incenso que, sobre o altar, caiu mais cedo, ardeu mais cedo; foi apenas um grão de incenso entre o número infinito dos que hão-de cair e arder, entre a imensidade doutros que já caíram, que já arderam; e o infinito desapego, o desesperante abandono, a imensa renúncia do símbolo faz tombar num gesto de resignação as minhas mãos crispadas, tapa-me a boca que quereria gritar, abafa-me os soluços e as blasfémias na ansiosa expectativa do momento em que outro grão de incenso há-de cair e arder…

«Um caiu mais cedo, outro mais tarde; que lhes importa?»

Importa aqui acrescentar mais alguns pontos que nos servem sempre para encontrar pontos de convergência com as palavras de Florbela Espanca ditas neste caso em particular mas espalhadas pela sua poesia e pela sua prosa, ainda que consideremos abusiva uma interpretação reservada ou exclusiva do fogo visto neste plano em Florbela.

O tema «fogo» não implica necessariamente suplício ou dor. Os elementos da cosmologia (Física para os Estóicos), interligam-se com o próprio ser do humano e dos outros seres, uma vez que se trata de uma visão palingenésica do todo (múltiplo) e em que Deus e a Natureza se identificam à partida numa mesma unidade.

O elemento fogo (que tem princípio activo na Física estóica tal como o ar) participa em dois processos em que é elemento importante: num processo é elemento perecível mas animado de uma perpétua transmutação e é (conjuntamente com o ar) «donde provém em primeiro lugar tudo o que nasce e aquilo a que finalmente tudo se reduz» e por outro lado produz uma conflagração global e universal onde todas as coisas são transformadas em fogo.

Mas essa conflagração não trata da destruição do universo (do fim do mundo, pelo menos de uma forma «finalizante», falando correntemente) mas sim da sua regeneração onde tudo volta a ser alma e divinizado. Há, por consequência, um eterno retorno dos seres e dos acontecimentos:

«Haverá de novo um Sócrates e um Platão (…) e esta restauração não se produzirá apenas uma vez mas muitas; ou, para ser mais preciso, todas as coisas serão restauradas eternamente». (Nemésios).

Parece-nos evidente que esta crença Estóica, por muito contestável que possa ser, se aproxima em muito de muitas crenças que referem quer a reencarnação nas suas diversas matizes quer a ressurreição.

Existe ainda um outro conceito do fogo, que é aquele fogo «perecível», destituído de qualidades artísticas, tal como é definido pelos estóicos, que é o «nosso» corrente fogo de utilização corrente que com o outro fogo apenas parece ter uma afinidade terminológica.

Aliás, o estoicismo tem sido analisado mais a fundo nos últimos tempos, sobretudo após a rejeição que Nietzsche fez das doutrinas platónicas. Para este filósofo a filosofia perdeu muito com a entrada de Sócrates / Platão em cena e lamenta este autor que, para além dele, muito pouco tenha ficado da cultura pré-socrática (como se sabe existe uma dualidade socrática e pré-socrática em Platão / Sócrates) e que, na sua ideia aquilo que ficou, em textos quantitativamente e qualitativamente relevantes tenha sido preferencialmente o Epicurismo e o Estoicismo que ele mesmo também rejeita.

Um dos últimos vultos relevantes do Estoicismo foi precisamente Marco Aurélio que Florbela cita, embora Montaigne à frente referido tenha sido considerado como tal (ou influenciado pelos estóicos) e mesmo posteriormente Pascal.

Contudo o que interessa para o caso é que a morte, sobretudo tão bem documentada em Marco Aurélio, é vista com o distanciamento próprio de quem sabe que sendo ela inevitável não é, por isso, relevante para o cúmulo das preocupações humanas em busca do Supremo Bem ou da sua fusão noutra forma com a Natureza da qual faz parte integrante assim como Deus ou os deuses.

Para o estóico a morte não é o fim de nada, porque para além desse nosso imaginário «nada» as coisas continuam e repetem-se ao longo dos tempos. Foram apontadas semelhanças entre o estoicismo e alguns aspectos da cultura religiosa judaico-cristã apontando-se, para além de outras razões, o facto de o estoicismo ter sido uma «religião» de elites enquanto que o cristianismo terá sido (e é) uma religião para todos (por muito discutível que seja o seu elitismo selectivo que aliás Kierkegaard analisa ao extremo na sua teoria da identidade).

A morte não é, nem esperada nem desejada, porque, para os estóicos tudo se passa numa relação de necessidade harmoniosa: não existe fatalismo, no sentido redutor, mas sim consciência de que ela tem de acontecer.

A familiaridade de Marco Aurélio com a morte é extrema e neste aspecto a relação com o Epicurismo também existe ainda que de forma contraditada: para estes trata-se de «viver o dia», carpe diem, para os estóicos a inevitabilidade da morte nada apressa ou atrasa porque ela lhes é simplesmente indiferente.

A paixão, sempre tão presente em Florbela (será que está mesmo?!) é vista numa perspectiva intelectualista…o homem pode ter paixões (e tem-nas) mas por incapacidade ou impossibilidade de compreender a razão dominante que leva, ou deve levar, à sabedoria que, por sua vez, é o topo da pirâmide da filosofia estóica, uma ataraxia que se encontra presente em muitas religiões ditas contemplativas (Budismo, por exemplo).

Neste aspecto é seguida uma linha de raciocínio que parte do nascimento: ter paixões é semelhante a ser criança, o que para os estóicos é um símbolo da fragilidade perante as boas opções. A tensão existente entre o ser apaixonado (ou com paixão) e o ser que sabe optar racionalmente, e a razão é muitas vezes identificada como sendo ela também o cúmulo da sabedoria quando atingida na sua plenitude, é, tal como na cultura judaico – cristã, um factor comparativo que impele para a boa opção, basta, para este caso, ler os Dez Mandamentos quanto ao seu espírito delimitador entre o bem e o mal, que no caso estóico são as boas ou as más opções.

 

 

 


E o problema optativo é importante (e ainda bem que o temos vindo a repetir) porquanto o «excedente» de liberdade que existe para o homem, no sistema estóico, é extremamente reduzido, mas tal como todas as outras coisas, considerado suficiente e fazendo parte da harmonia universal. O indivíduo, no meio de todos os determinismos que o envolvem, tem o livre arbítrio de optar entre duas ou mais situações. Como exemplo: como não pode evitar que chova, resta-lhe evitar a chuva o que pode parecer extremamente simples mas é adequado como exemplo do espírito estóico.

A frente veremos noutro autor, (Cioran que nos apoiará em Florbela) que a «fuga» a este cerrado determinismo se encontra na libertação das paixões, ou seja, segundo os princípios estóicos, num regresso à infância intelectual. De notar que a opinião é nossa, os estóicos conviviam – e convivem – bem com este determinismo, que não tem nada de fatalismo no sentido persecutório, e convivem bem com ele porque segundo as suas concepções de Deus e do Mundo são simultaneamente determinantes e determinados.

Após a sua morte, o indivíduo é (em tempo indeterminado) re - trazido à vida com base naquilo que foi a sua vida anterior. A opção de escolher outra coisa é-lhe colocada, mas, (e estes sistemas nem sempre primam pela lógica mas sim pelo significado que pretendem imprimir) ele, nesse momento, esquece-se de optar, neste caso por coisa diferente, pelo que, por isso, «haverá um outro Sócrates, etc.».

Esta dissertação sobre o estoicismo pretende fazer realçar em Florbela o período em que é possível falar-se da morte sem que isso implique a ideia do seu suicídio (que é uma das pechas histórico – florbelianas que é sempre de referir). A morte como companheira, em Florbela, não é sempre, a morte desejada.

E mesmo quando isso acontece, há períodos em que ela aparece metaforicamente como desejada mas não o é: é apenas uma análise mais profunda do valor da vida e da morte sem que se lhe atrele necessariamente qualquer consequência.

Mas vejamos logo abaixo algumas considerações sobre Cioran e de Cioran para ficarmos com uma ideia mais aprofundada sobre esta questão, ou seja, sobre a validade (em termos vivenciais actuantes) das palavras de Florbela sobre a morte na sua poesia.

Diz Cioran: «(…) Só tenho vontade de escrever num estado explosivo, na excitação ou na crispação, num estupor transformado em frenesim, num clima de ajuste de contas em que as invectivas substituem as bofetadas e os golpes. (...) Escrevo para não passar ao acto, para evitar uma crise.

A expressão é alívio, desforra indirecta daquele que não consegue digerir uma vergonha e que se revolta em palavras contra os seus semelhantes e contra si mesmo. A indignação é menos um gesto moral que literário, é mesmo a mola da inspiração. E a sabedoria? É justamente o oposto. O sábio em nós arruína todos os nossos élans, é o sabotador que nos enfraquece e nos paralisa, que espreita em nós o louco para dominá-lo e comprometê-lo, para desonrá-lo.(…)»

(Nota: Ver o conflito entre a paixão e a sabedoria nos estóicos acrescentando-se agora que a paixão também é interpretada como sendo loucura na filosofia estóica).

«(…)A inspiração? Um desequilíbrio súbito, volúpia inominável de se afirmar ou de se destruir. Não escrevi uma única linha na minha temperatura normal. (...) Escrever é uma provocação, uma visão infelizmente falsa da realidade, que nos coloca acima do que existe e do que nos parece existir.

Competir com Deus, ultrapassá-lo mesmo apenas pela força da linguagem, esta é a proeza do escritor, espécime ambíguo, dilacerado e enfatuado que, livre da sua condição natural, se entregou a uma vertigem magnífica, sempre desconcertante, algumas vezes odiosa. (…)»

Mais tarde, a legítima e orgulhosa aspiração atinge um verdadeiro auge. Então (Florbela) encontra suprema expressão no soneto «Mais Alto», que, não sendo dos seus mais perfeitos, é espantoso pelo que, de relance, ilumina de versos fuzilando como relâmpagos de génio:

Mais alto, sim! Mais alto, mais além
Do sonho, onde morar a dor da vida,
Até sair de mim! Ser a Perdida,
A que não se encontra………………

Mais alto, sim! Mais alto! Onde couber
O mal da vida dentro dos meus braços,
Dos meus divinos braços de Mulher!

Foi Jorge de Sena quem chamou a atenção para este soneto, ousando dizer o que não creio tivesse Florbela ousado sonhar: que impossível nos é lê-lo sem evocar Aquela que o mundo Cristão venera como suprema idealização da Mulher. (Nota de D.T. O pudico Régio poderia ter escrito Virgem Maria…)

«Não crendo, porém, que conscientemente houvesse Florbela ousado sonhar tal aproximação, bem se poderá crer haver ela irrompido das profundezas do seu subconsciente (…)». In José Régio, Estudo Crítico sobre Florbela Espanca.

«Ainda em Cioran: (…) Nada mais miserável do que a palavra, e no entanto, é através dela que atingimos sensações de felicidade, uma dilatação última em que estamos completamente sós, sem o menor sentimento de opressão. O supremo alcançado pelo vocábulo, pelo próprio símbolo da fragilidade!

Pode-se alcançá-lo também, curiosamente, através da ironia, com a condição de que esta, levando ao extremo sua obra de demolição, cause arrepios de um deus às avessas. As palavras como agente de um êxtase invertido... Tudo o que é realmente intenso participa do paraíso e do inferno, com a diferença de que o primeiro só podemos entrevê-lo, enquanto o segundo temos a sorte de percebê-lo e, mais ainda, de senti-lo.

Existe uma vantagem ainda mais notável de que o escritor tem o monopólio: a de se livrar de seus perigos. Sem a faculdade de encher as páginas me pergunto o que eu viria a ser. Escrever é desfazer-se de seus remorsos e rancores, vomitar seus segredos. O escritor é um desequilibrado que utiliza essas ficções que são as palavras para se curar. Quantas angústias, quantas crises sinistras venci graças a esses remédios insubstanciais! (…)»

Nota de D.T. Temos vindo a referir o efeito terapêutico da poesia e do acto de poetar em Florbela, daí que tenhamos inscrito a sua poesia longe do campo da exterioridade, nomeadamente quando fizemos referência à alteridade em Florbela como sendo um processo intimista.

«(…) A questão do desapego conduz Cioran ao ponto crucial da existência: o suicídio. Poder dispor absolutamente de si mesmo e recusar-se: existe dom mais misterioso? A consolação pelo suicídio possível amplia infinitamente esta morada onde sufocamos. A ideia de nos destruir, a multiplicidade de meios para consegui-lo, (1) sua facilidade e proximidade nos alegram e nos assustam; pois não há nada mais simples e mais terrível do que o acto pelo qual decidimos irrevogavelmente sobre nós mesmos. (…) Ele próprio conclui, categórico, que só existe pela vontade de deixar de existir.(2) (…)»

De reparar que Montaigne fala neste aspecto da diversidade de meios para morrer e da unidade de um só meio para nascer.

De reparar aqui que Cioran ao pregar a vontade de chegar ao fim, como motor da vida, a toma pela negativa, como parece evidente, mas dentro desta vivência há toda uma procura de aperfeiçoamento ou de busca «de uma razão ou saber» com o qual se confronta no acto da criação da escrita. A palavra, por sua vez, na sua significação como vacuidade, vamos encontrá-la em toda a Florbela…e nos estóicos, que pregam uma lógica do acto, ou seja, uma lógica fenomenológica.

(In «Escrevo para me aliviar» Confissão Resumida, páginas 123 e 124; em «Exercícios de Admiração», de E. M. Cioran)

Nota de D.T. No entanto Cioran não se suicidou e faleceu com mais de oitenta anos.

Com este texto pretendemos apenas reforçar uma tese que temos vindo desenhando ao longo de um conjunto de textos sobre Florbela Espanca. O suicídio de Florbela não resultou da sua poesia nem a sua poesia é resultado da sua ideação suicidária. Um facto e outro são absolutamente independentes…

Daniel Teixeira