Pagª 19 - EDIÇAO NºXLIX
, I NUMERO DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poemas de Ilona Bastos

BAILADOS DE GAIVOTAS
Ao som de La Primavera,
o branco planado das gaivotas
estampado contra o azul do céu!
Um bailado majestoso de voos
singulares, aos pares, em volteados,
aproximando-se, sobrevoando-me,
cruzando-se em diferentes planos,
surgindo em inesperadas alturas
aos círculos, em rodas, elipses,
afastando-se na direcção do mar!
Com a Viúva Alegre de Lehár
valsam agora sobre o miradouro
com suavidade magistral!
Alongam-se elegantes junto à praia,
partem em alegres incursões
pelo areal ou entre os edifícios,
elevam-se, dispersam-se, aventureiras,
alcançam os veleiros ao largo.
Chamando, quase cantarolando,
retornam, em grupo, aos rochedos!
Bailam as gaivotas sobre as arribas.
Grandiosas, inspiradas, cheias de vida,
bailam as gaivotas, embriagadas de azul!
Praia da Rocha, 22 de Julho de 2007
A ESTA HORA NAO CHILREIAM OS PASSAROS
A esta hora não chilreiam os pássaros.
Só o rumor brando, ocioso, lento,
Do vento a brincar com a folhagem
Num bafo quente e preguiçoso…
Depois o silêncio…
Logo seguido dos ruídos próprios do calor:
O ressoar a mar nos automóveis ao longe,
O rebolar de uma folha de papel amarfanhada,
Quase a nossos pés, perseguindo-nos,
O cantar escondido de uma cigarra,
A inesperada e singular linha de melodia
De uma ave, o arfar sedento do cão
Cansado, encalorado, a puxar sempre,
Cegamente guiado por invisível trilho…
Pincelado de lilás, um jacarandá à sombra -
Verdes, rendilhados, frescos os seus ramos
Em súbitos arroubos de dança na aragem!
Os outros, ao torrar do sol, silenciosos
Na cor e no som, desertos de ramagens nuas.
Novamente o silêncio…
Neste silêncio de Verão existe, contudo, poesia
Imanente nos mínimos detalhes,
Como o dos pneus em estalidos mansos
Quase familiares, a avançarem
Seguros e previsíveis sobre o empedrado,
E o seu estrepitar num afastar-se calmo,
Confiante, voluntarioso, acelerante
Com destino a paragens longínquas,
Rochas e praia, espumar de ondas,
Vistas de sonho, planícies sem fim…
E aqui, comigo, este descobrir atento dos sons
Sobre o silêncio denso, o arfar do cão,
O bater seco dos passos no asfalto,
A busca desse portal para a distância,
Doces venturas, revelações espantosas,
Num cenário enigmático de Verão,
Nesta precisa e surpreendente hora
Em que não chilreiam os pássaros…
13-07-2007
POEMA UM
1.
diz o mestre ao discípulo:
reúne a cor na sua expressão
máxima e juntai-a de luz branca
só assim as aves serão
mais do que pontos negros
na copa dos dedos
2.
as crianças fogem. e do seu
cálice retomará o espírito
a sua longa caminhada
3.
fácil é a palavra que se
incendeia quando dita;
difícil o poema que dança
no colo de um vulcão
eu digo: chamaremos as mulheres e invocaremos o sacro império do corpo. não
existe
pedra maior (ou mais bela) do que aquela onde dioniso se esconde, o deus
entre os
homens, a pedra ante a gélida raíz dos antepassados. formaremos uma roda e
imitaremos o som de todos os animais. todo o poema é proibido: só a origem,
a
hierofania do ritual e da pele contra pele.
responde-me se ouvires os pássaros, ou se do teu interior a voz é de guerra,
um
silvo constante, o boum das palavras grandes, das palavras santificadas pelo
uso,
mesmo que o uso seja o apanágio da noite - aquela noite que não pertence a
ninguém,
é apenas nossa e da paisagem que nos cerca:
uma casa,
a ribanceira entre as casas,
um abrigo onde o pastor se alimenta,
o caminho milenar por entre as águas do rio,
um trovão é apenas isso: uma voz sobre o alentejo,
um rumor que rompe o guadiana e nos sobra de pele
e de versos entre os relâmpagos.
sei que tudo sobra, mas a casa é só minha.
carrego uma nuvem às costas
como se dependesse de mim
permanecer no silêncio
naquele silêncio
que não se quer rígido
esquecendo-se do propósito de
existir e de alimentar o fogo
sossega-me ver uma casa ao
longe, adormecida no ceptro
de terra abandonada
uma casa caiada de branco, todas
as casas o são, mesmo que os olhos
roubem a realidade
e deus a ignore.
a memória verga todas as coisas,
mesmo o silencioso movimento
da não-existência.
tudo é ilusório.
a casa abraça
a ferrugem dos corpos caiados
de gestos. os dedos movimentam-se
numa sinfonia de trevas
jorge vicente