Pagª 18 - EDIÇAO NºXLIX , I NUMERO  DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

 

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Coluna

     
      Antônio Carlos Affonso dos Santos.

          ACAS, o Caipira Urbano.



Melindres da imprensa


O Jogo da Fazenda Tatuca

Certa vez, o João Domingos, técnico do nosso time, arranjou um jogo contra a Fazenda Tatuca. A Tatuca era uma fazenda pequena, como a São José, de onde éramos. O problema é que a Tatuca ficava muito longe: - quase quarenta quilômetros.

Quando cada um de nós jogadores, anunciamos aos nossos pais que o jogo era na Tatuca, nenhum deles gostou. Por sorte, o João Domingos conseguiu um trator emprestado numa fazenda vizinha.

Também emprestaram a carreta que ia atrelada ao trator. O «tratorista» era um rapaz morador na Fazenda Estrela D’Oeste, o Minte, que era muito querido pela molecada, pois embora fosse «ruim de bola», participou de um jogo histórico do grande time da Estrela, e nesse jogo chegou a marcar dois gols.

Ultimamente ele deixou de jogar bola, mas não deixou de gostar de futebol. Na verdade, ele não era tratorista, mas sim mecânico. Só que mecânico em fazenda tem que saber fazer de tudo, até dirigir trator.

E o Minte se apresentou feliz da vida; com aquele trator todo vermelho e puxando a carreta novinha, toda pintada de verde. Neste dia, quem nos acompanhou foi o Sinval Moreira, um mineiro de São Sebastião do Paraíso, que além de colono, sampaulino e amigo de todos, era muito alegre e gostava de contar piadas e estórias, que ele dizia serem verídicas.

O senhor Sinval gostava também de «irradiar futebol», ele era admirador dos grandes narradores de futebol do rádio, como o Pedro Luis e o Edson Leite. Durante todo o trajeto, que demorou quase três horas, o Sinval foi narrando jogos fictícios, do nosso time contra times do planeta Marte, da Lua, contra um time de bichos do mato e assim por diante.

Quando se cansou daquela brincadeira, talvez por absoluta falta de repertório, contou a estória de um seu compadre, lá em Minas e que não estava se entendendo muito bem com a mulher e que aos domingos, para não ficar em casa e acabar brigando; ele sempre inventava uma visita.

Quando a mulher se enjoou das desculpas para ir visitar amigos, ele deu de gostar de ir pescar. Preparou uma dúzia de varas de pescar, cada uma com um anzol de tamanho diferente e então todos os domingos, ainda antes do sol nascer, ele saía para a pescaria.

Já na véspera, a mulher preparava-lhe uma matula e um coróte de água. O pescador punha a matula num embornal, pegava o coróte e as varas de pescar e, escondido, levava sob a camisa uma garrafa de pinga. Raramente ele trazia algum peixe após passar o dia todo pescando.

Certa feita a mulher achou que ele estava dando umas «escapadas», ao invés de ir pescar. A mulher então o seguiu, e viu que ele, efetivamente ia até o rio, iscava os anzóis que em seguida punha «de espera», tomava sua cachaça, comia qualquer coisa e dormia. Dormia quase o tempo todo.

E então a mulher aquietou-se e até facilitava para que o marido fosse pescar. Certo dia, o senhor Sinval havia saído para caçar tatus com mais dois compadres. Nesse dia eles estavam com sorte: pegaram cinco tatus pebas, um tatu bola e cinco tatus rabo moles.

Ao voltarem para casa, passaram próximo do rio e viram lá o seu compadre dormindo como um anjo, obviamente sob o efeito do álcool. Eles foram até as varas de esperas e espetaram dois tatus em duas das varas e jogaram no rio, ao mesmo tempo em que chamavam o compadre para acudir as varas que estavam «embodocadas» dentro do rio.

Tonto pelo efeito da pinga, o compadre acabou por, indo até o barranco, puxando cada uma das varas com os tatus fisgados. O senhor Sinval e os outros se mostraram surpresos, perguntando ao compadre se aquilo era normal, onde já se viu pegar tatu no anzol?

O compadre coçou o queixo deu uma cusparada para o lado e disse: isso não é nada. Na semana passada eu peguei duas pacas e uma capivara!

Todos nós rimos muito da estória do senhor Sinval e o Minte lá na direção do trator, não compreendia as risadas e ficava perguntando: o quê?, Quem? Como?; - mais ríamos!.

De repente chegamos na Fazenda Tatuca! O campo de jogo era um terreno recém desmatado, onde aqui e ali ainda haviam ainda tocos e raízes à mostra. O acesso ao campo de jogo dava-se por dois trilhos, que levavam para os fundos da casa sede.

Em volta do campo improvisado, plantações de milho, arroz e feijão. Havia apenas uma faixa de grama fina, de uns dez metros, entre a linha do campo e as plantações. -Ali ficava a torcida!

Mal havia começando o jogo, a bola «estourou» quando o Nêm deu uma bica, de pé descalço. A bola bateu contra uma ponta de raiz e murchou instantaneamente. A torcida da Tatuca ficou brava com o Nêm, por ele ter estourado a única bola que tinham.

Felizmente o João Domingos havia levado uma bola no saco de camisas e ofereceu a mesma para que o jogo continuasse. Nós íamos fazendo os gols: um, dois, três, quatro, cinco e a torcida da Tatuca gritando, incentivando o time deles.

Numa jogada sensacional, o Mané Barrinha pegou a bola das mãos do Bastião Goiaba, nosso goleiro, saiu driblando o time inteiro da Tatuca e, de frente para o gol, chamou o Nêm para fazer o gol: o Nêm atravessou o campo numa vula e deu de bica; o dedão do pé pegou meio na bola, meio no toco.

O Nêm gritava de dor, enquanto a bola batia no travessão e saía por cima do gol, indo parar no meio da plantação de arroz. Enquanto o Nêm era socorrido, com o João Domingos retirando o estrepe, o Batista e o Beppo correram até o arrozal para pegar a bola. O Nêm voltou ao campo. Eta dedo duro; nem sangue saiu!

O Beppo recolhe, o que ele acha que é a bola, em meio ao arrozal e bate o lateral bem no meio do peito do Homero, nosso zagueiro. Nem bem a «bola» bateu no peito do Homero, ela explodiu manchando-lhe a camisa de sangue, ou melhor, com o caldo vermelho.

É que o Beppo, na sua ânsia, atirou uma melancia na direção do Homero; e não a bola!

- O senhor Sinval, do seu canto, pensativo, já se punha a compor a próxima anedota... .

ACAS



Só quando o cavalo falar

Conto de Martim Afonso Fernandes

Era uma antiga cidade, onde sómente o rei mandava, tudo decidia, inclusive as decisões da Corte do Tribunal de Justiça eram palavras finais dele.

Um certo homem, destes com destaque na sociedade e conhecido do povo, cometeu um erro, foi preso e condenado a morte.

No dia e hora da execução o rei leu a sentença e fez a pergunta ao condenado:
¬-Qual seu último pedido?

O condenado chamou o rei e falou-lhe ao ouvido:
_Magestade, se o senhor me livrar da morte, em um ano eu faço um cavalo falar.

O Rei pensou rápido e logo imaginou sua tropa serviçal com cavalos falantes.

Ditou-lhe a liberdade e os espectadores nada entenderam.

A mulher do condenado que se encontrava em casa orando, na hora prevista para a execução do condenado marido, ouviu baterem a porta. Ao abri-la assustou-se:
-O que aconteceu?

O esposo que ia chegando respondeu-lhe:
-Fui absolvido, prometi ao rei que se não fosse morto, dentro de um ano eu faria um cavalo falar.
- E aí, quando passar um ano o que acontecerá?

_Mulher, ouça bem: Dentro de um ano o cavalo pode morrer, o rei pode morrer ou eu posso morrer. Tudo isto poderá acontecer.

Agora, é jogar com a sorte,
Porque o rei descartou a minha morte!

 

 

 

                         
                         Por: Cecílio Elias Netto

(Por especial gentileza do autor)

A imprensa brasileira já sofreu mais do que o suficiente durante a ditadura militar. O retorno à liberdade se tornou um bem ainda mais valioso dado que, na maioria das vezes, apenas damos conta de um bem quando o perdemos. A liberdade da imprensa é fundamental para o fortalecimento de povos e nações democráticos. Mas não se trata, no entanto, de uma liberdade incondicional, um direito sem deveres, liberdade gratuita. A liberdade implica responsabilidade. E, portanto, também deveres.

Não se pode aceitar, por conseguinte, que a imprensa, por ser livre, se dê direitos acima dos estabelecidos pela ordem legal e moral. Primeiro: qual é o papel, qual a responsabilidade, qual a missão da imprensa?

Ela é um atividade apenas lucrativa ou um serviço social às comunidades? Os interesses empresariais de um veículo de comunicação podem se colocar acima da responsabilidade de informar e, portanto, de formar?

Quem são, hoje, os verdadeiros formadores de opinião, já que parte da grande imprensa brasileira se rebelou, ainda outra vez, contra o Presidente Lula por este advertir quanto à realidade e a «pauta dos editores»?

Comunicação é o ponto de vista apenas do emissor ou é a correlação entre emissor e receptor:? Ou seja: o leitor, o ouvinte, o telespectador são passivos ou ativos na comunicação?

A imprensa brasileira – a quem o Brasil deve grandes conquistas na consolidação de direitos e da própria liberdade do povo – não pode ter melindres de diva com faniquitos quando contestada, discutida ou confrontada. Ela não é vestal intocável.

Pois não mais se pode negar que, nas últimas décadas, o papel da imprensa começou a se transformar dada a cumplicidade nem sempre legítima com grupos de poder.

Temos, hoje, verdadeiros impérios empresariais na área de comunicação, defendendo valores que nem sempre são os do povo e da nação, das comunidades e dos municípios.

Ora, na grande discussão ideológica, filosófica e econômica a respeito do papel do Estado, as divergências são tantas quantos forem os interesses em jogo. Se se defende a economia de mercado ou a filosofia neoliberal já fracassada, há interesses que se entrechocam com a busca de uma distribuição de riqueza mais justa e decente.

A imprensa aceitou ser parte desse jogo e, portanto, vai-se colocando como uma instituição que abriu mão de sua pretendida imparcialidade. Pois imparcialidade não existe e isso não minimiza e nem deslustra o papel da imprensa, desde que ela assuma a sua posição e definição ideológica com clareza e honestidade.

No Brasil, hoje, agências de notícias se tornaram os verdadeiros fornecedores da informação, inclusive nas redações de jornais, até nos pequeninos municípios. Logo, a notícia mostra sempre uma face e uma origem, quase sempre, como era nos gramofones antigos, «a voz do dono».

A informação se tornou hegemônica. Quando Lula fala que a verdadeira fonte da notícia está no povo, ele tem absoluta razão e, de minha parte – e como jornalista veteraníssimo – creio ter alguns testemunhos a dar.

O mais importante deles, inclusive surpreendente para mim mesmo, foi quando, como proprietário e diretor de O DIARIO, inverti um dos esquemas habituais de reportagem, pautadas pelo editor.

Acontecera que, honrado a participar de discussões sobre os caminhos da imprensa, promovidos pela CNBB e pelo CELAM, fui movido a maiores reflexões após muitos estudos, congressos, debates, reuniões.

Já se falava, na década de 1980, dos efeitos ainda preliminares da internet, da comunicação eletrônica. E do novo papel da imprensa, que deveria se tornar mais investigativo, mais opinativo, com a informação sendo mais rápida, para não dizer que fulminante e imediata.

A minha primeira decisão, em O DIARIO, foi deixar de pautar a reportagem, permitindo que o povo se manifestasse em vez de o repórter dar sua opinião.

Criei os Murais do Povo, nos quais as comunidades escreviam bilhetes, deixavam reclamações, pediam providências. A surpresa foi impactante. Num bairro onde, por exemplo, o repórter – com sua visão pessoal de mundo – via como necessidades vitais o serviço de água ou de esgoto, educação, a população dava prioridade absoluta à falta de condução e de um telefone público.

Eram as prioridades vitais. E, a partir das constatações, as reportagens se foram tornando mais vivas, mais autênticas, mais legítimas. Adotamos, então, o lema que fora proposta pela CNBB: «ser voz dos que não têm voz».

O novo fenômeno na imprensa já está sendo o dos jornais de bairros, das rádios e tevês comunitárias. Os grandes veículos empresariais caminham, cada vez mais, para ser fortes meios publicitários e, cada vez menos, meios jornalísticos.

O inverso começa a acontecer e Lula tem razão: o povo começa a pautar a imprensa e, assim, tornando-se, ele próprio, povo, o principal formador de opinião. A grande imprensa está incorrendo num erro falta: ela fala para si mesma e para seus iguais.

Quando se sabe que a média da tiragem dos grandes jornais não chega mais a 400 mil exemplares diários em edição nacional, pode concluir que jornais e revistas, no papel, estão atingindo um público alvo que, na verdade, já tem opinião formada.

Bom dia.

Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.


Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA

A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.

Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.

O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».

Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.

 

Poema de Maria Petronilho

Antemanhã

 

Gotas
germinam
na pedra nua
irisada
Água acesa
pérolas da lua
transparente gládio
fio de ternura
tremeluzente
fita de espuma
entre cinza e prata
entrelaçada
esperto
regaço
desfeito
aonde deito
a minha vida
ora chispa
ora causa
germe
que me
refaz
nacarada
água terna
na aurora
ressurgida