Pagª 42 - EDIÇAO NºXLIX
, I NUMERO DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poemas de Maria da Fonseca
A FERNANDO PESSOA
Do nosso tempo, o Poeta
Foste tu, grande Pessoa.
Quero prestar-te homenagem
Da tua amada Lisboa.
Noutras terras tu viveste,
Outras línguas tu falaste,
Mas na nossa és o maior,
Nossa Pátria realçaste.
Toda a vida dedicada
A escrita e ao pensamento.
Na verdade não fingiste,
Como versa em teu lamento.
Versátil e genial
Criaste fictis autores,
Várias personalidades,
Distintos versejadores.
Teu dom da alteridade
De uma riqueza brilhante
Concedeu a cada um
Seu ideal relevante.
Insuperável poeta
De fama universal
Dilataste teu sentir
Muito além de Portugal.
Defender uma constante
Não parece racional.
No mundo em que nós vivemos
Nada se mantém igual.
O Homem busca a Verdade,
Pesquisa, estuda, compara,
Pra obter uma certeza,
Recorre a fórmula rara.
Nosso alfabeto não chega,
Os integrais são menores.
E seu cérebro não pára
Na ânsia de pormenores.
Pretende o mais que perfeito,
Atingir não sei bem quê,
Pra descobrir o que é simples
Mas não sabemos porquê!
Não encontramos mais Vida
No Universo profundo.
Não há iguais condições
Noutros astros, noutro mundo.
Porque estamos nós aqui,
Neste momento presentes,
A procurar subsistir?
Não será por sermos crentes?!
Devemos a nossa vida
A um eterno acto de amor.
Divina é a coincidência
De sermos teus, Criador.
E todos nós Vos louvamos,
Ser futuro é a Esperança.
A Luz que de Ti dimana
Dá-nos toda a confiança.
(Ver mais poemas de Maria da Fonseca)
POESIA DE JOSE MANUEL VERISSIMO
P’ra já só Poema Mesmo
Não quis ver nenhum umbigo
Nem sequer o meu
Ergui-me de entre
Os meus próprios escolhos
Olhei o céu
As estrelas
O mar
Arredei o véu
Que nos escondia os olhos
E bloqueava um outro olhar
Acendemos velas
Entre perfumes de incenso
Demoradamente
Falámos em silêncio
De corpos
De gente
De receber
Ao dar
De crianças
De olhos
Sem sonhos
Sem sol
Nos dias
Sem noites com luar
Teimámos na esperança
Com esperança dançámos
Um só num abraço
Que nos deu asas
Sem onde nem quando
Construímos casas
Tocámos sinos
E saímos voando
Seixal, 3 de Junho de 2004
José Manuel Veríssimo
Poemas de Sandra Fayad

SEROTONINA
Olha o mundo girando...
Não te impressiona com os desacertos
Nem briga com o teu destino.
Circula, vai circulando...
Tudo tende ao redondo,
Traça metas, confia no teu tino,
Ultrapassa fronteiras, quebra elos.
Aproveita o que te resta de menino.
Sê prudente, mas não exagera.
Trabalha o teu lado canhoto,
Lança com ele a certeira esfera
Enquanto teu destro descansa maroto.
Corre! Mas corre sob o sol nascente
Com a brisa leve te acariciando.
Ergue o calcanhar da calçada quente.
Sente a serotonina da cabeça aos pés.
Engata a primeira, a segunda, a terceira...
Mas desengata tuas incômodas rés.
Inspira! Expira! Respira teu ar inteligente.
Levanta! Abaixa! Estica! Fica na ponta dos pés.
Só desacelera...
Quando estiver cantando a leveza da liberdade,
Que acabaste de conquistar;
Ou te pegar compondo um poema (mentalmente)
Sobre o brilho do sol, a iluminar uma estrela cadente.
MUNDO AZEDO
(Poema Sintipo (*) VII)
Contemplo da janela as plantinhas da horta,
Cultivadas com adubo, água e natureza morta.
Do mercado, em plásticos, vem o que se come,
Embalado chega o alimento que mata... a fome?
E é careta cultivar beladona, tomate, alfazema...
Do fabricante, devo saber nome e sobrenome,
Contabiliza-me como refém real, que consome.
Vivo ou morto, sou um número. E o que importa.
Fácil! Prático! Somos cobaias (eu e minha aorta),
No shopping, à beira-mar ou sobre o rochedo.
(*) Forma poética criada pelo poeta português Fernando Oliveira, o Ferool: «...o poema síntipo é composto, de: um título, mais duas quadras e um verso para arrematar, que deve rimar com o título, assim como um verso solto que não rime com o tema, mas que lhe siga os contornos.
As duas quadras devem rimar: a primeira em decrescendo e, a segunda em crescendo, os versos rimados devem ter a mesma energia fónica, de preferência com rimas ricas. O verso solto sem rima prefigura a base do poema, quando este é escrito numa folha e esta é dobrada em duas partes, verificarão que todos os versos casam perfeitamente em termos de rimaria. ..»
Futuro do Pretérito
Não fosse a (des) crença na negação,
Não fosse o risco de um (se) não,
Não fosse minha voz emudecida
De tanta falácia vã,
De tanta auto-compaixão;
Não fosse a mudez cabisbaixa
Do olhar espreitado
E a umidade gélida da mão
Que na tua não se encaixa,
Eu te convidaria...
(futuro do pretérito)
sem medo de errar:
- Vamos sair por aí! E fácil!
E só ir pela estrada circular
Que nos leva a nós mesmos;
E a mesma que vai dar no mar.
Vamos indo rápido,
Enquanto água ainda há?
Faço uma pequena mala
Se quiseres, fazes a tua ...
Ou melhor, pra que mala?
Tomamos a primeira rua
Enquanto ainda há ar.
Vamos indo ...
(Como costumam dizer):
Sem eira nem beira , sem escala.
Acredita! Não é besteira.
E o encontro com a liberdade,
E o Decreto (sem assinatura)
Do fim dessa tranqueira
Batizada de Civilidade.
Contam que seu nascimento
Ocorreu no Monte Sinai
Quando ainda se conseguia
Audiências com Adonai.
Bendita selvageria!
De lá para cá tudo só piorou, uai.
Não fossem tantos (se) nões,
Eu acabava logo com essa agonia,
Parava com esse vai-não-vai
E ia.
http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/
Bsb, 05/07/2009