Pagª 49 - EDIÇAO NºXLIX
, I NUMERO DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
ONDJAKI
Por
Arlete Deretti Fernandes
Conheci Ondjaki em novembro de 2007, num Encontro de Professores de Literaturas Africanas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro.
A Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense, tendo o apoio de outras instituições envolvidas nos estudos africanos realizou o III Encontro de Literaturas Africanas – Pensando Africa: crítica, pesquisa e ensino – de 21, 22 e 23 de novembro de 2007, na UFRJ (Rio de Janeiro).
Em continuidade aos objetivos dos encontros anteriores, o III Encontro visou ao aprofundamento de discussões relativas aos estudos sobre as Literaturas Africanas, bem como sobre outras disciplinas afins, envolvendo as Ciências Sociais, as Artes e demais áreas humanas voltadas para as culturas africanas e afro-brasileiras. Este Encontro propôs, como um de seus focos principais, o debate acerca do que determina a Lei 10.639/2003, buscando pensar determinadas estratégias e metodologias de ensino, pesquisa e crítica que auxiliem a consolidar um efetivo progresso dos estudos africanos no Brasil e um maior e mais sério conhecimento da cultura afro-brasileira em Escolas e Universidades brasileiras.
E é também intenção do III Encontro divulgar escritores africanos de língua portuguesa e suas obras, bem como a crítica literária produzida por estudiosos dessas literaturas. Nesse sentido, foram convidados diversos escritores, assim como pesquisadores e professores brasileiros e estrangeiros que se vêm dedicando aos referidos estudos. Outro objetivo do evento foi a criação de uma Associação Brasileira de Estudos Africanos.
Na ocasião, participaram vários escritores e poetas dos países africanos, de Portugal e do Brasil.
Quem é Ondjaki?
Ondjaki, nasceu em Luanda, em 1977. Prosador e poeta. Co-realizou um
documentário sobre a cidade de Luanda («Oxalá cresçam Pitangas»),(2006). É
membro da União dos Escritores Angolanos. Alguns livros seus foram traduzidos
para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio e sueco. Formado em
sociologia, escritor e poeta premiado, trabalha desde 1998 como roteirista e
diretor em diversos projetos para televisão e cinema.
Livros publicados:
Actu Sanguíneu (poesia, 2000)
Bom Dia Camaradas (romance, 2001)
Momentos de Aqui (contos, 2001)
O Assobiador (novela, 2002)
Há Prendisajens com o Xão (poesia, 2002)
Ynari: A Menina das Cinco Tranças (infantil, 2004)
Quantas Madrugadas Tem A Noite (romance, 2004)
E se Amanhã o Medo (contos, 2005)
Os da minha rua (contos, 2007)
AvóDezanove e o segredo do soviético (romance, 2008)
O leão e o coelho saltitão (infantil, 2008)
Materiais para confecção de um espanador de tristezas (poesia, 2009)

«OS DA MINHA RUA»
A Editora Língua Geral publicou este livro. Reúne 22 contos sobre a infância do
autor nas décadas de 80 e 90 em Luanda. Lembranças das festas, dos cheiros, das
pessoas, das brincadeiras e os aprendizados, as descobertas. A cada recordação,
uma despedida de um tempo que se foi e que fica guardado apenas na memória. Uma
narrativa cheia de oralidade e repleta de emoções.
«O teu livro dá conta de como crescem em segredo as crianças. É o milagre das
flores do embondeiro: habitam o mundo em concha por breves momentos e vêem
através da luz o milagre da pequenas coisas». Ana Paula Tavares
Neste livro o jovem poeta e ficcionista angolano escreve sobre sua casa, da
memória, do afeto e da identidade. Nos 22 contos Ondjaki mescla a própria
biografia, junto com as demais crianças homenageando a infância de cada um.
Por meio destas estórias são escritos quadros narrativos de muita beleza, mas
também críticos sociológica e políticamente. Aparece uma Angola com as seqüelas
da guerra e a esperança da dignidade. Mistura-se biografia e ficção. Dessa forma
Ondjaki amplia os horizontes de sua literatura-
«Os da minha rua» mostra várias facetas da escrita de Ondjaki,não só pelo olhar
intimista que se expande ao registro histórico: os 22 textos desta obra podem
ser lidos como unidades autônomas, que valem por si mesmas (como se fossem
contos), mas também podem ser lidos feitos capítulos de um romance.
Uma obra flexível, que usa outro tom, muito próximo ao da crônica. Este surge
por meio do registro sobre os fatos ocorridos no dia a dia, que vem a ser uma
das marcas desse gênero.
O escritor faz uso da oralidade, o narrador lembra-se de amigos, família, festas
na casa dos tios, paixões, professores cubanos, a parada de primeiro de Maio, a
piscina de Coca-cola e a novela brasileira Roque Santeiro.
«A vida às vezes é como um jogo brincado na rua: estamos no último minuto de uma brincadeira bem quente e não sabemos que a qualquer momento pode chegar um familiar a avisar que a brincadeira já acabou e está na hora de jantar. A vida afinal acontece muito de repente (...).»

Arlete Deretti Fernandes com Ondjaki
Os da minha rua evoca também as reações das crianças em situações determinantes para a formação do homem, como a morte, o medo, as despedidas, entre outras experiências. Nesse sentido, a narrativa ganha maturidade à medida que se aproxima do fim: as marcas do discurso oral são menos freqüentes, torna-se mais clara, enfim, não apenas a infância tem suas marcas de organicidade, mas o próprio discurso se serve do tempo para amadurecer e inventar novas perspectivas e modos de compreender a vida.
O livro tem ainda duas cartas e um glossário com algumas palavras características da localidade. As cartas são do próprio autor, Ondjaki, e de Ana Paula Tavares, uma das mais importantes autoras angolanas. As cartas são um belo complemento aos 22 textos, dando aos leitores um gosto da boa poesia africana.
Ondjak também escreve para cinema e co-realizou um documentário sobre a cidade de Luanda («Oxalá cresçam Pitangas – histórias de Luanda», 2006).
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Kiluanje Liberdade, Ondjaki
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Roteiro: |
Kiluanje Liberdade, Ondjaki |
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Elenco: |
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Fotografia: |
Inês Gonçalves |
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Montagem: |
Maria Joana |
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Música: |
Helvio
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País: |
Angola |
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Ano: |
2006 |
Documentário: Oxalá cresçam pitangas (2006)
Angola é um país independente há 30 anos, mas há apenas 3 conseguiu estabelecer a paz. Luanda, a capital, foi construída para abrigar 600.000 habitantes, mas atualmente tem sete vezes mais.
Dez personagens expõem suas vozes, falam de suas vidas, do seu modo de agir sobre a realidade, e da música que nunca pode parar. O crescimento do setor informal, as desilusões e aspirações populares, o debate político, as transformações provocadas pelo cotidiano na língua e o futuro do país são abordados pelos filhos de uma terra onde os casamentos são sempre festivos e os funerais nem sempre são tristes.
Kiluanje Liberdade nasceu em 1976, em Luanda, Angola. Formado em gestão cultural, realizou seu primeiro documentário em 1996, O rap é uma arma, que recebeu o Prêmio de Melhor Primeira Obra no Festival de Cinema Documental de Lisboa (Malaposta). Ondjaki nasceu em 1977, também em Luanda.
OBSERVAÇÕES : Encontrei-me pela 2ª vez com Ondjak no último dia 18 de agosto
deste ano, num Seminário Internacional sobre Africa, na Universidade Federal de
Santa Catarina.
Conversei com o escritor, enquanto passava a película: Oxalá Nasçam Pitangas. Na
sequência Ondjaki foi chamado para falar, e não houve tempo para a mensagem que
enviaria ao Raizonline. Ficou para a próxima. E que eu viajaria em seguida e
estava próximo da hora.
PALAVRAS DO PROGRAMA:
«Seminário que ocorreu foi uma realização do Instituto de Estudos
Latino-Americanos (IElA), com o Núcleo de Estudos Africanos e Afro brasileiros
da Universidade Federal de Santa Catarina, formado por professores, estudantes
africanos, brasileiros e de outras instituições, que propõem uma abordagem
contemporânea sobre o seu continente.
Trata-se de uma contribuição para que o público acadêmico e demais interessados
possam conhecer a África para além dos estereótipos veiculados muitas vezes
pelos meios de comunicação. Temas como a cultura, a história e a política dos
países africanos e também a sua presença na política afro-brasileira, serão
objetos de debates.
Pretende-se com isto superar lugares comuns e transpor funções redutoras,
oferecendo um outro olhar sobre a África.
Conhecimento e informação podem, assim, trabalhar a favor da construção de redes
de solidariedade transnacionais e contra o preconceito e a desigualdade.»
«Um Mundo em que grande parte da população está fadada à exclusão, ocultos nas sombras porque são pobres, jamais poderá ter Paz. Para que o Mundo viva em Paz é preciso alargar o anel da Luz. Não pode haver um sistema para a Africa e outro para o Mundo, se há lição a ser extraída da Africa Pós-Colonial é que um Governo responsável é um Governo Bom.»
Nelson Mandela