Pagª 1 - EDIÇAO NºXLIX , I NUMERO  DE DEZEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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POESIA DE ARLETE PIEDADE

 

 

Quero ser uma oliveira

Quando eu morrer não me levem para o cemitério
enterrem o meu corpo, debaixo de uma oliveira!

Quero continuar a ser útil e servir de alimento
desejo as raízes enroscadas no meu corpo
que lentamente irá sendo absorvido
transformando-se em seiva, folhas e frutos!

Frutos que serão colhidos, e moídos
e do seu sumo, se extrairá o azeite
que servirá de alimento a outros corpos
de pessoas das gerações seguintes...

Quando eu morrer, não me levem para o cemitério...

Sonhei contigo, pai!

Sonhei contigo pai
Estavas vestido de preto
Num sítio escuro ao fundo
e eu vinha a descer...

Tu abraçaste-me
e assustei-me...
Perguntei: - Quem és?
E respondeste: - Sou o teu pai!

Então fiquei contente!
Gostei do teu abraço
Senti que me quiseste dizer:
- Estou bem! Não te preocupes!
Obrigado, pai!

A gatinha

A gatinha é fofinha
Meiguinha...
Todos os dias aparece a miar
roça-se nas minhas pernas
de rabo erguido e fremente
Vibra aquela antena de carne...

Acho que me marcou como
sua propriedade!

Então faço-lhe carícias
Dou-lhe nomes meigos
e levo-lhe comida!

É assim a gatinha
Que aparece pela manhã
no jardim!

Noite das Bruxas

Meia noite em ponto! E na noite escura já se ouvia...
Uma pavorosa, estridente, e horrorosa gritaria...
Vultos alados revolteavam nas brumas de alcatrão
E por todos os lados, luzes bruxeleavam de sopetão...

Caras estranhas se destacavam contra o céu de breu,
E por tantos uivos lá fora do castelo, temerosa eu...
Me recolhi tremendo de medo na minha fria alcova...
Não fosse o terrível ceifador vir buscar-me para a cova!

Mas então fez-se luz na minha triste mente temerosa...
Será que era aquela a noite em que a gente desastrosa,
Brincava sem respeito e temor com os seres do além??

Pobres criaturas que imitam sem respeito e sem pudor...
As bruxas, fantasmas e a todos esses seres de horror...
E nem temem que as atinja os poderes que eles têm...

 

Continuação da Coluna Um (Ver início)

Delega-se, delega-se e volta-se a delegar e apesar de todo o optimismo periódico / eleitoral que tenhamos acabamos por ver apenas uma percentagem muito reduzida das coisas «encaminhadas» para a resolução.

Adoptamos como destino nosso este de ir esperando e de tal forma o fazemos que muitas vezes quando algo prometido há longos anos (muitos, muitos) é de facto realizado quase nos sentimos na obrigação de aplaudir, de comparar os tempos que medeiam entre a promessa e a realização e de dizer que, comparativamente (com outros assuntos) «até foi relativamente rápido»...comparativamente...

Este não é como se sabe, um palanque político: aqui tratamos do relacionamento entre as pessoas, trocamos experiências, conhecimentos, muitos deles ancestrais e vamo-nos conhecendo cada vez mais e melhor. É essa a nossa luta diária; é isso que fazemos e que gostamos de fazer.

Mas, suprindo a falta que a Arlete nos faz, trazemos, em desespero, mais uma declaração de intenções, um conjunto de promessas, daquelas que ou ficam eternamente no papel ou vão percorrendo os longos e sinuosos caminhos da lentidão resolutiva que referimos acima : esta vem da União Europeia sobre o Dia Mundial da Deficiência.

«Direitos iguais

Na sua qualidade de cidadãos, as pessoas com deficiência têm direito à dignidade, à igualdade de tratamento, a viver de forma independente e a participar plenamente na sociedade. Garantir que as pessoas com deficiência beneficiem destes direitos é o principal objectivo da estratégia a longo prazo da UE, que visa a sua inclusão activa. O elemento central da Estratégia Europeia em matéria de Deficiência (2004-2010) é o Plano de Acção da UE a favor das pessoas com deficiência. Até 2010, a Comissão Europeia quer ver melhoramentos nas suas perspectivas de emprego, bem como nas suas condições de acessibilidade e independência. Este processo conta com a participação das pessoas com deficiência, de acordo com o princípio europeu que estipula o seu envolvimento em todas as decisões que lhes digam respeito.

A UE promove a inclusão activa e a plena participação das pessoas com deficiência na sociedade, de acordo com a sua visão da deficiência no contexto mais vasto dos direitos humanos. Trata-se de uma questão de direitos e não de discriminação. É também esta a abordagem subjacente à Convenção das Nações Unidas sobre os direitos humanos das pessoas com deficiência, da qual a Comunidade Europeia é signatária.

Encontrar e manter um emprego

As pessoas com deficiência representam cerca de um sexto do total da população da UE em idade de trabalhar, mas a sua taxa de emprego é comparativamente baixa. As pessoas com deficiência têm quase duas vezes mais probabilidades de estar inactivas do que o resto das pessoas. No entanto, com um pouco mais de ajuda, milhões de pessoas com deficiência poderiam integrar ou reintegrar o mercado de trabalho.

A estratégia de Lisboa para o crescimento e o emprego visa, em particular, melhorar as taxas de participação na vida activa dos europeus com deficiência.

Os Estados-Membros definem as suas próprias políticas de emprego com base nas orientações da estratégia europeia para o emprego. Anualmente, informam a Comissão sobre as iniciativas nacionais no domínio do emprego, incluindo as dirigidas às pessoas com deficiência.

No seu trabalho no domínio da protecção e inclusão social, a UE apoia os Estados-Membros no desenvolvimento de políticas de inclusão social, cuidados de saúde e serviços sociais, aumentando assim as hipóteses de as pessoas com deficiência encontrarem e manterem um emprego.

Educação para todos

O acesso a um ensino de qualidade e à aprendizagem ao longo da vida em igualdade de condições permite às pessoas com deficiência participar plenamente na sociedade e melhorar a sua qualidade de vida.

A Comissão Europeia apoia a inclusão das crianças com deficiência no ensino regular. Entre as suas várias iniciativas dirigidas às pessoas com deficiência no domínio da educação, incluem-se a criação da Agência Europeia para o Desenvolvimento do Ensino para Alunos com Necessidades Específicas e a formação de um grupo de estudo específico sobre deficiência e aprendizagem ao longo da vida. Programas comunitários, como o programa «Aprendizagem ao longo da vida», estão a contribuir para que a educação e a formação das pessoas com deficiência deixem de ser consideradas um assunto à parte.

Uma vida independente

O objectivo é proporcionar às pessoas com deficiência as mesmas escolhas individuais e o mesmo controlo sobre as suas vidas quotidianas de que usufruem as pessoas sem deficiência. Os serviços de cuidados e de apoio devem ser mais bem adaptados às necessidades das pessoas com deficiência. A Comissão Europeia promove a disponibilização de serviços sociais e de apoio de qualidade, acessíveis e a preços razoáveis.

A UE defende ainda a desinstitucionalização das pessoas com deficiência. A Comissão Europeia financia estudos sobre a prestação dos serviços necessários às pessoas com deficiência para atingir os níveis correctos de segurança, liberdade e independência que lhes permitam viver em sociedade.»

Feito isto, escrita que está esta longa e abrangente lista de posições sobre as pessoas com deficiência ficamos à espera, como sempre temos feito, de um mundo mesmo melhor, com mais actos e se possível, se não for pedir muito, menos palavras vazias.


Daniel Teixeira

LINK PARA A LISTA  DOS TRABALHOS INSCRITOS

Ps: Não esquecer que continuamos abertos à recepção de donativos.  

Continuação da Crónica de Arlete Piedade - Dia Internacional de Eliminação da Violência Contra as Mulheres – 25 de Novembro (Ver Início)

Como disse Kofi Annan, secretário geral da ONU, por ocasião do Dia Internacional da Eliminação da Violência contra as Mulheres, em 25 de Novembro de 2006, e passo a citar: «A violência contra as mulheres causa enorme sofrimento, deixa marcas nas famílias, afectando as várias gerações, e empobrece as comunidades. Impede que as mulheres realizem as suas potencialidades, limita o crescimento económico e compromete o desenvolvimento.

No que se refere à violência contra as mulheres, não há sociedades civilizadas.

No mês passado, apresentei um estudo minucioso que demonstra que metade da humanidade vive sob esta ameaça – em todos os continentes, em todos os países e em todas as culturas, independentemente do rendimento, da classe, da raça ou do grupo étnico.»

E pois um problema de dimensão mundial, que tem origem nos primeiros tempos da humanidade, em que o homem era visto não só como o chefe da família e tinha poder de vida e morte sobre as mulheres e os filhos, como também como o dono e senhor.

No entanto se a evolução da humanidade se nota pelos significativos avanços nas várias áreas do conhecimento, desde as ciências, até outras áreas do saber, na mentalidade da maioria dos homens essa evolução tem sido pouco significativa ou quase nula, pois ainda continuam a considerar a mulher como sua propriedade e como tal a tratam.

Ora a mulher representa metade da humanidade, e sem ela não haveria sequer vida. A mulher é a metade do homem, o seu complemento, a mãe dos seus filhos, a razão de viver e de lutar, representa a sobrevivência da humanidade, a evolução da espécie, o crescimento, a vida enfim.

Então como tolerar que aquele que deveria ser o seu maior protector, o homem, a trate com violência, e faça dela sua propriedade, usando a abusando da sua fragilidade e a maltrate e ponha fim á sua vida?

Temos que considerar que a violência, engloba uma série de situações, a saber:
-Maus tratos físicos (desde pontapear, esbofetear, atirar coisas, até ao homicídio)
-Isolamento social (restrição do contacto com a família e amigos, proibir o acesso ao telefone, negar o acesso aos cuidados de saúde)
-Intimidação (por acções, por palavras, olhares)
Maus tratos emocionais, verbais e psicológicos (acções ou afirmações que afectam a auto-estima da vítima e o seu sentido de auto-valorização)
-Ameaças (à integridade física, de prejuízos financeiros)
-Violência sexual (submeter a vítima a práticas sexuais contra a sua vontade)
-Controlo económico (negar o acesso ao dinheiro ou a outros recursos básicos, impedir a sua participação no emprego e educação) .

No entanto dependendo das culturas, dentro deste âmbito, englobam-se também práticas como tráfico de mulheres destinadas á escravatura, nomeadamente sexual, casamentos forçados, mutilações genitais que continuam a ser praticadas em várias culturas, bem como outras práticas nomeadamente nas culturas orientais, que restringem severamente a liberdade das mulheres, que continuam no século XXI a ser tratadas como na idade média.

No entanto por todo o mundo se assiste cada vez mais, a um amplo movimento de denúncia destas práticas e adopção de medidas e leis tendentes a mudar este estado de coisas, para se conseguir uma maior igualdade ente os géneros.

Por isso caros leitores, se tiveram conhecimento de algum destes crimes, seja na qualidade de vítimas, seja como testemunhas, ou vizinhos, familiares ou amigos das vítimas, apresentem queixa junto das autoridades competentes, para que o Estado possa tomar medidas, dando início ao respectivo processo crime e os infractores possam ser responsabilizados e condenados.

No entanto sabemos todos da dificuldade de por em prática as medidas necessárias, pelo que o que mais urge modificar e o mais difícil, passa pela mudança de mentalidades, pelo que deixo um apelo a todos, independentemente do género, para que reconheçam nas mulheres, as companheiras, a metade necessária á vida, a mãe dos seus filhos, mas também um ser livre, com direito á sua própria vida e a escolher a forma como a deseja viver, para uma maior felicidade e dignidade como pessoa humana.

Pois que, e em especial em Portugal, mas também noutros países de cultura lusófona, o aumento dos divórcios e separações, a par com uma maior independência económica das mulheres, que as tornam menos dependentes dos companheiros, tem sido a meu ver, a causa maioritária de violência, desencadeada pelo machismo ainda reinante nas nossas sociedades.

Com efeito o homem, ao ver a sua ex-mulher tornar-se independente dele, e tentar reconstruir a sua vida com novo companheiro, e a ver-se separado dos filhos, muitas vezes tenta impor as suas vontades através da violência, esgotados os outros recursos e quando não o consegue, muitas vezes recorre á prática de acções violentas, que podem ir até á morte da mulher que um dia jurou amar e proteger.

Também se assiste hoje em dia a casos de violência já entre namorados, o que a meu ver é também um fenómeno relativamente novo e resultante de toda uma cultura entre os mais jovens, de violência e desrespeito entre as hierarquias, sejam os pais, ou os professores e adultos em geral. Se não respeitam ninguém, como esperar que respeitem as namoradas?

Mas mais ainda nestes casos, as jovens devem denunciar e acabar com essas relações sem medo e procurar o apoio da família e do seu grupo de amigos e da comunidade, para não se tornarem vítimas da violência desde ainda antes do casamento.

Torna-se pois imperioso mudar as mentalidades em primeiro lugar e fazer corresponder as leis e os meios de as tornar efectivas, para que este mundo seja realmente um espaço onde homens e mulheres possam coabitar e viver em comunhão, com espírito de fraternidade, companheirismo e amor, de mãos dadas para que possamos passar ao próximo estádio de evolução, o da verdadeira fraternidade e amor incondicional.

Arlete Piedade


Violência – Um caso de assassínio na minha cidade esta semana

Caros leitores,

Tinha eu acabado de escrever esta crónica e enviá-la para o jornal para publicação, quando fui surpreendida pela chocante notícia de um caso acabado de ocorrer aqui mesmo em Santarém, na passada segunda-feira, 23 de Novembro.

Poderia dizer que era alguém que eu não conhecia nem nunca tinha visto, mas na verdade ainda na sexta-feira anterior, tinha entrado no estabelecimento comercial do qual era uma das donas - uma pastelaria - e sido atendida pela própria, para vir a saber passados alguns dias, que essa senhora tinha sido morta à queima roupa por um antigo namorado, com um tiro de caçadeira no seu local de trabalho, em pleno dia.

Segundo consta na cidade, o assassino seria um antigo namorado, com quem a senhora – divorciada – se terá relacionado, algum tempo e que em seguida ao fim do relacionamento, terá ido trabalhar para Angola. Voltou recentemente e contactou a antiga namorada, querendo reatar o relacionamento, o que foi recusado.

Daí passou a ameaças, que originaram queixas nas autoridades, o que não demoveu no entanto o antigo namorado. Desenvolvimentos que aconteceram com a interveniência de familiares, levaram á decisão deste em matar a ex-namorada, o que aconteceu como já explicado.

Em seguida, o homem tentou suicidar-se atirando contra si próprio. Ficou ferido, mas encontra-se livre de perigo internado no hospital da sua cidade para onde foi transferido após ser assistido no Hospital de Santarém.

A pobre mulher que foi a enterrar no dia 25, o Dia da Eliminação da Violência Contra as Mulheres, a que se refere esta crónica, deixa um filho órfão, que nesse dia completou 19 anos de idade. O seu presente de aniversário foi enterrar a sua mãe. Como será o futuro deste jovem?

Mas estes casos de violência não farão parte da banalização a que se assiste da violência, que faz parte do quotidiano de todos nós? As crianças e jovens crescem jogando os seus jogos de vídeo e assistindo aos seus filmes de desenhos animados na televisão, e nesses conteúdos o que mais lhes interessa são as cenas de violência, em que uns se matam aos outros, em que os carros chocam com violência, em que há destruições maciças, tudo com muito barulho, sangue, explosões, incêndios e violações. É tudo tão banal...como podemos esperar que eles cresçam e saibam distinguir a realidade da ficção?

Como podemos esperar que os alunos respeitem os professores, os jovens respeitem os colegas, os namorados as namoradas, os filhos os pais? E se eles assistem em crianças ás discussões e agressões entre os pais, com que valores irão crescer?

Enfim, poderia continuar, mas deixo apenas estas questões para reflexão de todos nós...abraços e até para a próxima semana.

Arlete Piedade

 

(Ver o Poema Mãe Negra e apresentação P.Point-pps)

Veja  vídeo de Arlete Piedade em 2007 na II EPAC (II Encontro de Poetas Abralianos e Convidados) realizado em  Almeirim - Portugal.