Pagª 23 - EDIÇAO NºXLVIII
, IV NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Colans
Por Manuel Fragata de Morais
Esta crónica, verídica, escrevia-a em Maio de 2005 e foi uma das que mais prazer me deu a compô-la, por isso, já tantos anos passados, desejo compartilhá-la novamente convosco. Ao olhar para a televisão, numa notícia sobre os casamentos homossexuais, logo me recordei deste meu trabalho, escrito durante as olimpíadas de Sidney, na Austrália, quando a minha virilidade fora tão abjectamente posta em causa. Logo eu, hum?!... Assim, permitam-me que vos reconte o rocambolesco acontecimento, muito antes da Bruna(o) e do seu jovem «marido» darem este passo de puro avant-guardismo nacional.
Escrevi então, e transcrevo:
A semana passada alguns dos semanários luandenses fizeram furor com o primeiro
«casamento» gay nacional. Não desejo referir-me ao mesmo, cada um come do que
gosta, sobretudo na era das modernices, como disse aquele coitado que, chegado
de surpresa a casa, apanhou a consorte em desvios matrimoniais com um big, big
man: «Ai filha, tu e as tuas modernices! Um dia ainda te apanho a fumar na
cama».
Viva pois a globalização.
Há bem pouco tempo, tivemos oportunidade de ver na televisão, penetrando-nos
pela casa, atletas de todo o mundo a desfilarem os novos trajos olímpicos, os
colans. Delirámos com as centenas deles, cada qual o mais bonito, o mais
multicolorido, o mais berrante e chamativo. Inteiros, só parte de baixo, meia
perna, etc., numa requintada inovação da moda desportiva. Os que mais atenções
chamaram, foram os usados pelos nadadores, numa versão unisexo, às vezes até
extravagantes.
Se vos falo desta peça de vestuário, é com o mero intuito de levantar o moral
daqueles poucos machos angolenses que a usam, como eu, nas minhas corridas
matinais pela Ilha do Cabo. Falo ainda, e igualmente, para protestar quanto ao
pernicioso subdesenvolvimento dos luandenses em matérias de colans, e sobre os
desagravos a que fui sujeito ipso facto.
Sou dono de um colan preto, curto, que uso ocasionalmente no meu footing matinal
na Ilha do Cabo, como já referi. Nada de mais, aliás até somos dois, um vizinho
igualmente usa um similar há anos. Talvez nele, por ser negro, o colan passe
despercebido, enquanto que eu, com esta pele de kilombo kia hasa (albino) mal
disfarçado, provoco toda uma gama de apartes. Jocosos uns, maldosos outros.
Um dia, na contra mão, vejo um casal de meia-idade avançando em passo lento.
Ele, um senhor alto, muito alto e de ar distinto. Ela, muito mais baixa e
redonda, igualmente dama de distinção. Segundos escassos antes de nos cruzarmos,
ele estaca a olhar para mim e, malgré soi, as palavras disparam como pedras:
«Um homem de colans?!...», escapa-se-lhe, do fundo da alma, a revolta e o
descrédito no que via.
A senhora ainda lhe deu uma cotovelada na coxa e olhou para o lado,
envergonhada. Só sei que nunca mais os vi na Ilha. Mais vale a pena prevenir do
que remediar, terão pensado, vendo-me certamente um marginal perigoso.
Outra vez foi um damo, num carro branco bonito. Vinha, largado, a caminho de
Luanda e ao ver-me, trava bruscamente.
Mal imaginava eu porquê!
Pouco depois, já tendo dado a volta na bolacha da estátua do pescador, passa
novamente, agora em câmara lenta, tirando os azimutes. Quando entro na recta
final, já no outro lado, a caminho da minha casa, eis que dou com o damo
estacionado, olhando-me de viés, o motor ligado, muito adequadamente, não vá o
diabo tecê-las e afinal o que ele pensa que é, não é, já que nos dias de hoje
não dá para arriscar em desmasia, como diz um amigo. Agora julgo saber o que as
donzelas sentem quando observam o lobo mau a rondar.
Finjo que não noto, e uns metros mais adiante, ouço a viatura arrancar, passando
por mim, de fininho, esvaecendo-se no horizonte, a caminho de Luanda. Teria
achado que eu não era, só pode!
Ao chegar a casa penso atirar com os danados colans para o lixo, mais aí a minha
sensibilidade revolucionária impediu-me. Disse para comigo mesmo, «bolas, foi
assim que a Alemanha perdeu a guerra», e continuei a usá-los.
Próxima cena!
Um belo domingo, por volta das seis da manhã. Na curva ao fundo da Ilha,
encostados às pedras na berma da estrada, dois casais, elas de pé, os barrigudos
sentados nas duas caixas térmicas, varrendo o que seriam, penso eu, as últimas
fresquinhas da noitada anterior. Uma das tias, a de olho de lince, tão aguçado
quanto o seu instinto de caça, mira o arcaboiço do rapaz aqui, que se aproximava
naquela passada rítmica e certa. A uns vinte metros, gosta do que vê (presunção
e água benta cada um usa da que quer) e quase que não contem a emotividade. O
marido (será?) nota o lance da balzaquiana e também olha, preocupado. Apanhada
desprevenida, vira-se lesta para a amiga e diz:
«Olha pr’áquele!... Estes velhos têm a mania que ainda f…» (auto censura).
Encho o peito, diminuo o passo a provocar e desafio, garboso, o olhar das manas,
quem pensam que são?
«Já viste o cu do gajo? Deve ser bicha!...», responde lesta a outra, quase na
minha cara.
Acuso o toque, possa, não sou de ferro para ser assim ofendido à toa!
«Deve? É, certamente!...», e larga uma gargalhada de bruxa, vingada pelo deslize
não controlado.
O marido (será?), talvez ainda enciumado, atira lenha no fogo.
«O gajo deve ser veado… de colans?», ouço, já uns cinco metros à frente, meu
corpo curvado e a passo lento, vencido.
Não imaginam pois o conforto moral que senti quando vi as Olimpíadas de Sidney.,
sobretudo a natação. Graças a elas, continuo a usar os meus velhos e surrados
colans, orgulhosamente só, porque estou seguro quando o meu vizinho ler este
desabafo, vai parar de usar os seus.
FRAGATA DE MORAIS
IN «MEMORIAS DA ILHA», LIVRO DE CRONICAS PUBLICADO PELA EDITORA NZILA
CORONEL
FABRICIANO
Juventude
BENEDITO FRANCO
E por falar em mini saia...
Sem apagão e felizes...
Pensam que mini-saia, ou vestido curtíssimo, é coisa d'agora? Ledo engano.
Papai me relatou que, em sua terra, pelos idos de 1924-25, as moças usavam-nos.
A Belinha, a mais bonita da cidade, Miss Antonio Dias, mocinha linda, como o
nome indica, alegre, sorridente e serelepe, de ótima família, desejada ou
admirada por todos, com curvas e seu rebolado sexy, nas ruas e casas, virava a
cabeça de meninos e moços. Inocentemente, com as mini saias, ou vestidos
curtíssimos, colocava à mostra a calcinha de rendas... Se numa Universidade
estivesse... seria expulsa!... Deixe pra lá!
077 – Passeios
O Paulo Antunes, vereador, convidou-me para ir a uma seção da Câmara dos
Vereadores do Município de Coronel Fabriciano. Os Excelentíssimos Senhores
Vereadores foram muito corteses comigo. Contudo, achei interessantíssima a
oratória de alguns: falavam - ao microfone, diga-se de passagem - como se
estivessem numa praça ou uma senhora Sala de Reuniões de cem ou centenas de
metros quadrados – apenas uma sala de uma simplicidade franciscana, de uns seis
por dez, no máximo.
No final da Reunião, convidaram-me a falar e a dar alguma ou algumas sugestões.
Ainda nem a Usiminas havia começado, mas Fabriciano mostrava-se uma cidade
movimentada, e com muita gente nas ruas, principalmente por causa da Acesita em
pleno funcionamento. Sugeri que os passeios da cidade tivessem pelo menos três
metros de largura, impressionado que fiquei com os passeios de Governador
Valadares, sete metros ou mais – cidade a qual visitara no dia anterior.
Os Senhores Vereadores até gostaram de minha sugestão, mas argumentaram que
iriam contrariar muita gente com seus projetos de casas ou prédios prontos ou a
fazer – diminuiriam o tamanho dos lotes existentes e, mesmo dos novos, as
Imobiliárias iriam gritar muito contra. São os meandros de nossa política... Já
pensaram Fabriciano com passeios de no mínimo três metros em toda a cidade?
Em Lafaiete, ao então candidato a prefeito, pela primeira vez, o Senhor Vicente
Faria, fiz a mesma sugestão. A resposta foi a mesma ouvida dos Excelentíssimos
Senhores Vereadores da Câmara Municipal de Coronel Fabriciano. Em rua bem
movimentada em Lafaiete há passeios de pouco mais de meio metro de largura – e
com construções novíssimas.
Sem comentários...
109 – Chico Xavier
Bem novo, com dezoito anos, dava aulas de matemática e desenho em um colégio de
Pedro Leopoldo, cidade perto de Belo Horizonte, com ares e alguns costumes da
capital. Povo elegante, achava, levando-se em conta que tinha vindo de Congonhas
e Fabriciano - ainda nem se falava em Usiminas.
Saindo da igreja, vi um homem muito simples, chegando a ser simplório. Diferente
do povo mais alinhado do lugar - chamou-me a atenção. Morava no Hotel Santos,
onde havia sempre muita gente de fora da cidade, de Minas e de outros estados e
países, para ver um médium que à noite, em seção espírita, escrevia coisas que
satisfaziam aos visitantes, e até mesmo livro já tinha escrito - psicografava.
No restaurante do hotel, estava sempre o senhor que me despertou a atenção. As
mesas cheias, sentei-me na dele e conversamos coisas corriqueiras. O papo
simples e prazeroso continuou por quase três meses, enquanto morei em Pedro
Leopoldo.
Sem dar a importância devida e sem me inteirar por completo de suas atividades,
almoçava quase todos os dias com o Chico Xavier. Um santo não católico de nossos
dias... antigamente houve Sócrates, o filósofo grego.
192 – Vincos na calça
Depois que saí do Seminário em Congonhas, MG, dei aulas de desenho e matemática
em Pedro Leopoldo. Indo para Fabriciano, Padre Brandão, depois Bispo de Propriá
no Sergipe, indicou-me para eu dar aula de matemática no Colégio Nossa Senhora
do Carmo em Fabriciano.
Para o bem da verdade, entendia eu nada de pedagogia – paidagogos – mas as
alunas – colégio só feminino – respeitavam-me e até gostavam de mim. Ainda hoje,
quando encontro uma de minhas alunas, tratam-me com muita reverência. Que
diferença dos alunos de hoje!
Comprava peça de pano para fazer minhas calças, os cortes, por um dos muitos
alfaiates do lugarejo – já cidade, mas ainda pequena – não existia a Usiminas.
Pelo calor de Fabriciano, os panos para as calças, tinham que ser bem finos e
moles – linho ou algo parecido.
Mamãe incumbiu minha irmã Imaculada de cuidar de minha roupa – lavava e passava.
Esmerava no trabalho, principalmente nos vincos das calças. Lá ia eu andando e a
calça se mexendo toda. Com os vincos e a calça bem lisa, resultado de ter sido
bem passada, toda orgulhosa ficava a Imaculada, não deixando de se vangloriar
com as colegas.
Imaculada era minha aluna.
046 - Ele tem qui casá!
Estava na varanda da casa de meus pais. Chegaram um casal de velhinhos - magros,
aparência nítida do árduo trabalho na roça, alguma contrariedade e os
sofrimentos com o peso dos anos - e uma mocinha – quase uma menina - linda!...
de olhos vivos e brilhantes e semblante um tanto desconfiado e maroto.
Pediram-me para eu chamar o «cumpade Sô Zé Franco, o dotô Juiz», meu pai. Em
chegando, o velhinho, após cumprimentos:
- Pois é, cumpade Sô Zé Franco, o sinhô, que é o dotô Juiz (Juiz de Paz), tem
qui fazê o Jaquim, fio do cumpade Tião, casá com nossa netinha, esta aqui! - Ele
feis mal pra ela e el'istá in instado interessante! El'istá buchuda... istá
grave, cumpade.
Calmamente, papai ponderou:
- Compadre Belarmino, vou conversar sobre o assunto com o compadre Tião, homem
bom, e daqui a alguns dias, volto a falar com o senhor.
- E cumpade – compassadamente balbuciando palavra por palavra - se ele num casá,
num seio o qui vai sê de nossa netinha... tem só treze ano. Ele tem qui casá!
Fais ele casá cumpade!
Os velhinhos insistiam e imploravam para meu pai tomar logo a decisão, e as
providências, e obrigasse o tal de Joaquim a se casar com a netinha, grávida, o
mais rápido possível. Papai acalmava-os:
- Fique tranqüilo, compadre, mais alguns dias e tudo será resolvido. Lá se foram
os velhinhos balançando as cabeças, meio contrariados, preocupados que estavam
com a netinha grávida, sem que o dotô Juiz decidisse algo. Tinham certeza que o
cumpade Sô Zé Franco tomaria a decisão logo.
Com dezoito anos, quis mostrar a meu pai, que achava um absurdo não ter falado
para os pobres velhinhos que iria obrigar o rapaz a se casar com a netinha.
Papai argumentou que, primeiro, seria ilegal obrigar alguém a se casar com
alguém. Segundo, ouvira apenas uma das partes da contenda. E ainda: - Sempre
ouça as duas partes, antes de tomar qualquer decisão, ou dar algum conselho.
E apareceu o compadre Tião. Eu presente. - Pois é, cumpade Sô Zé Franco, a gente
mora na roça, lá pru lado do Coigo de Nossa Senhora ( o Horto em Ipatinga). A
minina, neta do cumpade Belarmino, saía da casa dele, uns quinhentos metro da
minha casa, maisomeno azonze hora da noite, arrombava e sartava a janela do
quaito do meu minino e ia drumi no canto da cama dele. Ela é muito bunitinha e
esprivitada. Meu minino é macho, é home mermo. E home mermo num guenta umas
coisa dessa, cumpade!...
Papai sorriu pra mim.
Benedito Franco