Pagª 7 - EDIÇAO NºXLIV , IV NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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Poemas de Patrícia Neme

VERSOS ETERNOS

- a Miguel K. Russowsky (in memoriam) -

A lua tece a estrada... E a eternidade
abre o portal do etéreo firmamento.
Enfim, a vida, sem dor, falsidade...
Enfim o peito, livre de tormento.

Não mais o véu que turva a realidade
da plenitude, onde há entendimento
do amor que existe na simplicidade...
Do amor maior, alheio ao sofrimento.

Além dos passos da térrea jornada,
por entre as ruas de luz constelada,
anda o poeta, versejando, em paz.

Semeia versos de encanto e ternura...
Irriga sonhos... Cobre-os com doçura...
E Deus se encanta – como o fez jamais!


- Boa viagem, querido e eterno amigo –

- Patrícia Neme -


Num país como o nosso, pode-se comemorar o dia da criança?

PAI NOSSO

- porque há crianças... -


Pai nosso, Pai de toda a criançada,
estás longe no céu, por qual razão?
Te assusta tanta vida aniquilada,
Te agride ver a infância sem ter pão?

Do céu, ouves a mãe desempregada,
que implora por Tua Graça e Compaixão,
pra que a família seja alimentada
e os filhos tenham teto e educação?

Escutas a menina que é estuprada,
gritando de terror, dor, solidão?
E o jovem, cuja vida é ameaçada,
pra que seja, do tráfico, avião?

Tens visto que há criança escravizada
e, por salário, só ganha um tostão?
E aquela, que a chuva deixa assustada,
pois teme vá ao chão seu barracão?

Pai nosso, tanta coisa está errada...
Falta respeito, falta proteção...
Deixa, um pouquinho só, Tua morada,
vem cá, os filhos Teus estão sem chão!


Adeus...

O adeus é vendaval, tudo embaralha...
Quem fica perde o rumo, o tino e o chão.
É como andar no corte da navalha,
sem conhecer aonde os passos vão.

No adeus, o coração tem a mortalha
e a alma se consome em solidão.
E o amor em mil lembranças se agasalha...
E o sonho se despede da emoção!

Oh, Deus, é tanta a dor que há na partida,
quem fica não mais quer a própria vida,
quem parte, leva a vida que ficou...

E os dias são tristeza e nostalgia...
E as noites um vazio... Uma agonia...
Adeus é uma esperança... Que findou!

- Patrícia Neme -

 

 

 

Poesia de Mário Matta e Silva

CITADINO MUNDO

Por baixo a marina
num enredar
de mastros
emaranhar
de velas e bandeiras
proas, popas bailadeiras
iates de bojos listrados
coloridos debotados
cabinas, motores, lemes e lastros
por navegar.

Mais a cima o rumor
desmedido e profundo
do movimento constante
entre braços de aço
ferro e betão armado
maciço e rotundo
em faixas paralelas
atirando o fragor
dos comboios que se cruzam
nos carris assentes lado a lado
e dos carros, noutro tabuleiro
em sentidos opostos, ronco compassado.

Tudo reproduz movimento
do instante, do agora, do dia
dando a vida à vida dos sons e das imagens
num compasso de exausta sinfonia
que nos percorre
(enquanto se não morre)
em citadino mundo de viagens.

Lisboa , 19. 08. 2008


NOSTALGIA

Sinto voarem meus pensamentos
em velocidade cruzeiro, sem paragens
como se fossem livres aragens
a arrastarem ventos.

Destemidos mas exauridos
no desabrigo dos espantos
os pensamentos trazem prantos
um tanto desabridos.

Cavadas e enegrecidas
quase tumulares, negras grutas
as nostalgias gritam, abruptas
quais almas deprimidas.

O rugir da vaga que na praia morre
e se faz ouvir sem avisar
é feito de um frémito breve, um escorregar
de lágrima que escorre.

O pranto, como áspero trovejar
vem de rompante, meio escondido
no sorriso a custo conseguido
em mal disfarçar.

Nostalgias que vão e que regressam
em transfiguradas comoções
e na frouxidão dos corações
se arremessam.