Pagª 22 - EDIÇAO NºXLIV
, IV NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poema de Arlete Piedade

A Vida
Que defina a vida? - O bater do coração?
O arquear do peito? - O silvo da respiração?
O sangue a correr? - No corpo, a circulação?
Os nervos a controlar? - A funcionar a razão?
Ou será o sentimento? - O afecto pelo irmão?
Talvez a ascendência? - Os pais que dão o pão?
Talvez a descendência? - O prazer da paixão?
E o reconhecimento? - A importância que nos dão?
Como pode a medicina presumir ter a definição?
Reconhece o que é mensurável - Que é o coração?
Apenas um órgão que se contrai? - Sede da emoção?
Se só conhece as funções do corpo, que está são?
Quando adoece, como aferir a medida da disfunção?
Qual será então a disciplina que pode fazer a união?
das dores do corpo físico com o sofrer da emoção?
Coluna Poética de Sá de Freitas

Marcas em nossas mãos
Olhando para as nossas mãos veremos,
Em suas palmas, indeléveis traços,
De lutas, de vitórias, de fracassos
E de outras coisas mil que já fizemos.
Nelas descobriremos que deixamos
Indícios de afagos, de agressões,
De pedras que atiramos, de lesões
Feitas n'alma dos que nós amamos.
Nelas escritos estão inapagáveis,
Os nossos gestos bons ou condenáveis,
Enfim... todas as ações que foram feitas.
Mas um estudo sério e mais profundo,
Nos mostrará que aqui em nosso mundo,
Só as Mãos de Jesus foram perfeitas.
Ainda há tanta vida a ser vivida
Quantos sonhos ficaram no caminho,
Quando viemos do «ontem» para o «agora»!
Quantos momentos bons já foram embora;
Quantas dores chegaram de mansinho!
Quantas promessas, quantos desenganos!
Quantos grandes amores fenecidos!
Quantos amigos desaparecidos!
Quantas marcas deixaram, em nós, os anos?
E tudo revivemos claramente,
Mas dos momentos bons pouco lembramos,
Muitos momentos maus vem-nos à mente.
Por que choramos a existência ida,
Por que o passado tanto lamentamos,
Se ainda há tanta vida a ser vivida?
A INTERESSEIRA
Quantas vezes te vi e não me viste;
Poemas tantos te escrevi, não leste;
Quantos suspiros meus, de amor, ouviste;
Quantas promessas fiz e tu não creste.
Quantos beijos te dei, não os sentiste;
Quanto te amei e tu não compreendeste;
Quando parti chorando tu sorriste,
Nem o aceno de adeus me respondeste.
Mas lentamente o tempo foi passando
Com esperança e fé eu fui lutando
E tudo o que eu sonhei fui conseguindo.
Quando soubeste vieste sagazmente
Me procurar, mas eu indiferente
Virei-lhe as costas e me afastei sorrindo.
SOFREMOS MUITO?
A cruz que arrastas pela vida afora,
Tal qual a minha, às vezes pesa tanto,
Que nos provoca o mais copioso pranto
E a esperança nossa se evapora.
Mas se olharmos com atenção lá fora,
Veremos com piedade e com espanto,
Que há cruz maior que a nossa, em cada canto;
Que há gente que soluça, grita e implora.
Se os pés ferimos, há os que não os tem;
Se a nossa vista é fraca, há os que não veem;
Enquanto andamos, há os que escalam serras...
Lembremos-nos: Há enfermos condenados;
Há nas ruas farrapos esfomeados;
Há milhares de vítimas das guerras.
O impressionante Coringa de Heath Ledger, no novo filme do Batman.
Por: Se Gyn
Heath Ledger levou as premiações do Globo de Ouro e Oscar (este, já póstumo) de melhor ator coadjuvante, pela sua performance como Coringa no filme Batman - O cavaleiro das trevas.
Nada li sobre os concorrentes ou da disputa pela premiação, mas como velho fã de
quadrinhos, um desses, que não se cansa de se alegrar em ver os heróis de
quadrinhos da infância em carne e osso, em filmes de efeitos especiais
espantosos, que tornam verossímeis as histórias rocambolescas, confesso que
fiquei espantado com a interpretação de Ledger, que, a par do perfil e do
roteiro, praticamente recriou o eterno, perigoso e anárquico rival do Cavaleiro
da Trevas.
De passagem lembro que esse papel chamou a atenção de muita gente e, como os
aficionados se lembram, no início das filmagens, algum idiota da imprensa
inquiriu a Jack Nicholson sobre a escolha do ator para a reencarnação de Coringa
no cinema.
Nicholson, com seu humor peculiar e irônico, na altura de seus tantos anos,
declarou que estava «indignado» por não ter sido convocado para o papel, e muita
gente o levou a sério (o que ele queria dizer, evidentemente era: «quem é esse
tal de Ledger? Porque tenho que opinar sobre isso? Ora, Não me encham o
saco!»)...
O ator vinha de sua celebrada atuação em «Brubeck Mountain», rumoroso, porém,
fraquinho, filme sobre um romance entre dois típicos cowboys americanos e, se
credenciava a papeis de grande envergadura. Pois bem, a chance chegou com a
oferta do papel de Coringa, que já havia sido muito bem interpretado - de
maneiras diferentes - por César Romero, na famosa série de TV dos anos 60 e, por
Mr. Nicholson, no cinema, via Tim Burton.

Heath Ledger surpreendeu em sua interpretação - e muito! O seu palhaço do crime
difere - à par do roteiro, é um tipo muito mais endiabrado, inconseqüente, da
mente conturbada e, muito violento. E ele consegue comunicar tal circunstância
logo na primeira cena em que o personagem aparece, de costas, caminhando firme
pela rua - em direção de mais um de seus objetivos e, disposto a tudo. As costas
arquejadas, sugerindo uma fera, prestes a atacar, e os braços soltos indicam a
loucura dantesca e, as doses cavalares de violência que estavam por vir.
Mais adiante, depois de mostrar a que veio e, do que é capaz, seu rosto é
exibido e, a maquiagem borrada do palhaço não esconde o rosto torturado e, o
olhar ameaçador e olhar que denunciam idéias deturpadas e razões obscuras.
Ledger consegue imprimir ao personagem toda uma carga de desejos e emoções
violentadas, que explodem a cada inflexão, gesto ou fala. De saída, aquela
empatia fácil que ocorria em relação à interpretação anterior, não se
estabelece, pois o tipo é realmente assustador - psicopata, megalomaníaco, frio,
assassino destemido e, piromaníaco.
De fato, o seu Coringa, ao contrário do Coringa do Batman de Tim Burton, que foi
magnificamente interpretado por Jack Nicholson, que já tinha experiência com
personagens do tipo (o louco do filme «O Iluminado», de Stanley Kubrick, entre
outros), difere da linha daquele que normalmente é visto nos quadrinhos (mesmo
aqueles retratados por Alan Moore, em «The Killing Joke» - classicão das HQs ou
Grant Morrison, em «Arkham Asillum», pois, a par de sua megalomania frente à
sociedade midiática, onde só acontecimentos de grandes proporções e a
espetaculização do horror e da morte (alguma semelhança com Al Qaeda e outros
grupos terroristas? Mas, claro...) chamam à atenção.
Com efeito, ele não se furta à execução pessoal dos atos mais violentos, aí
incluídas, evidentemente, a mutilação sistemática do rosto das vítimas visadas
ou, circunstanciais e, a explosão de hospitais e prédios inteiros, não se
preocupa com refinamento dos atos, o que representaria alguma forma de ordem,
associa a tortura física com a tortura psicológica, não se dispõe à
sociabilização ou convivência social e, não deixa entrever, a razão de seus atos
- de modo que não se pode concluir que todos os seus atos sejam devidos à sua
loucura, ou se esta é total e dominante de sua personalidade, ou ainda, se ele é
apenas um desses tipos que levam o fanatismo insano às últimas conseqüências, já
que a suposta origem de seus males mentais é, constantemente manipulada, a cada
vez que a ela se refere.
E o ator consegue explorar e valorizar cada uma dessas nuances. Numa das cenas,
transforma a característica mais conhecida do personagem, isto é, sua risada
demoníaca, que transforma numa espécie de fala onomatopaica e sinistra. Numa
outra cena, num rápido momento em que aparece sem maquiagem - coisa que
surpreendeu muito aos leitores de HQ, onde ele não apareceu assim - disfarçado
de policial, sua figura não deixa de parecer uma ameaça iminente.
Como se sabe, nos quadrinhos, a digladiação contínua entre o Cruzado de Capa e o
Palhaço Louco leva, paulatinamente, o segundo a se convencer e alegar ao
primeiro, supostas semelhanças quanto ao estado mental e personalidades, por
conta de suposta razão equivalente - isto é, um trauma marcante e, a catarse,
que se segue.
No final do filme, essa ladainha é repetida, sem convicção pelo bandido, já que
os acontecimentos anteriores desmentem tal argumento, pois o que Coringa em
verdade enxerga no antagonista talvez seja o perigo que ele representa, como uma
peça solta do sistema, que, ao contrário, da polícia, da Promotoria de Justiça,
não se constitui numa instituição com nome e endereço fixo, ao se colocar contra
seus objetivos absurdos...
Por tudo isso, a interpretação do Coringa de Heath Ledger surpreendeu. Talvez,
seja a despedida do personagem na atual série de filmes de Batman, mornamente
interpretado por Christian Bale e, no patamar em que a interpretação colocada,
produtores e diretores não vão querer riscar a imagem estabelecida pelo ator e,
menos ainda, arriscar no contraste de uma interpretação infeliz.
A despeito das premiações, o espectador foi o primeiro laureado, quando foi ao
cinema para ver o novo filme de Batman - muito especialmente aqueles que o
acompanham na origem, isto é, nas histórias em quadrinhos...
Registro, contudo, que apesar de gostar de Batman (trauma de infância, personalidade soturna, solidão, desconfiança no sistema jurisdicional, justiça com as próprias mãos...), não sou um decenauta.
No conjunto, prefiro os personagens da Marvel - Thor, Homem Aranha, Quarteto Fantástico, os Vingadores, Demolidor, Wolverine, Surfista Prateado... - que parecem menos remendos de super heróis da era de prata, do que indivíduos super poderosos com problemas comuns, como todos os humanos...