Pagª 23 - EDIÇAO NºXLIV , IV NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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XICA DA SILVA

Conto de Manuel Fragata de Morais

In «Jindunguices» - Prémio Literário «Sagrada Esperança»

(Ver Notas Biográficas)

A criança teria uns doze anos se tanto. Seus passos incertos mostravam que estava ébria ou drogada, e pela cercania do lugar a última suposição seria a mais acertada. Não muito longe, num beco imundo, porém afamado em determinados círculos luandenses da malandragem ou dos poderosos, residia uma senhora cujo negócio era o das bebidas alcoólicas não ortodoxas e da liamba.

Xica da Silva, seu nome de guerra, soava flagrante desonraria à histórica brasileira de quem tomara de empréstimo o homónimo.

De há algum tempo que a polícia mantinha o local sob vigilância, após várias denúncias de mães da vizinhança reclamando que liamba estava a ser vendida a crianças.

Se houvesse quem comprasse a droga, o problema era dos que o faziam, justificava-se Xica da Silva, sobretudo porque entre os seus clientes se encontrava gente afamada.
«Não me façam falar, vão lá à merda ó pá!...», respondia a quem a criticava.

E como contra factos não há argumentos, o negócio ia de vento em popa. Só que ultimamente a Xica da Silva, talvez para olvidar ou amenizar os enrascanços da conjuntura, dera para iniciar-se, ela própria, nos caminhos enganadores da liamba.

«Grande ganza, meu!...», dizia, em galhofa.
Junto ao local de venda, no quintalão escuso e sombrio, com uma porta de emergência que dava para o beco de trás, mandou construir três pequenos quartos onde colocou uma cama e uma mesa de cabeceira, um armário e duas cadeiras.

Nesses quartos, suas excelências despejavam nas várias catorzinhas, que Xica da Silva mantinha em permanente rotação, as respectivas frustrações e tomates.

Naquela noite, sentados numa mesa, num pequeno alpendre, o senhor coronel Silva, o senhor vice-ministro Trancredo, os senhores deputados Beltrano e Feltrano, três ilustres empresários nacionais e dois libaneses, os verdadeiros donos das empresas.

O quintalão fora fechado a qualquer outro visitante, e o pequeno exército de quatorzinhas, sob a batuta da madama, esmeravam-se para que nada faltasse às ilustres individualidades.

«Tragam mais gelo», comandou o coronel, homem de barba bem cortada, antigo comando das forças portuguesas passado para as FAPLA no alvor da Independência.

Xica da Silva fez um gesto e prontamente o gelo apareceu, trazido por uma das ninfas, a bela Luzia.

A medida que os charros iam sendo acesos e fumados, a conversa ia-se tornando pastosa e suas excelências riam muito mais. Xica da Silva, juntou-se a eles. Começara a misturar negócios com promiscuidades sociais desde que entrara na ervanária confraria.

«O Xica de onde é que veio esta erva?, não é nada má!...»
«Do Bengo, senhor deputado. Esta é da que cresce mesmo ali junto ao rio, por isso é boa.»

«Muita boa, mas eu prreferrirre haxixe.», disse um dos libaneses, com uma ponta de saudosismo.
“Uma pena, uma pena, nós não temos cá isso.», retorquiu um dos empresários, sócio minoritário do libanês que falara.

«Sejam nacionalistas meus senhores.» Disse, a rir, o outro empresário, tragando em longo.

«A mim isto dá-me uma fome danada.», falou novamente o coronel, dono de afamado restaurante luandense.
Xica da Silva, ao ouvir a reclamação, pronto mencionou o menu do dia, confeccionado especialmente para a ocasião.

«Temos gambas grelhadas com alho, caril de camarão, garopa grelhada com batatas cozidas e salada, funji de carne seca, cacusso com feijão de óleo de palma e cabrito, tudo à moda da casa. Há vinho branco e tinto e cerveja.

Os convivas concordaram em abanando a cabeça e cada um solicitou o prato que desejava, as beldades servindo-os individualmente. Todas trajavam tópes brancos bastante exíguos, calçõezinhos que mais desnudavam do que tapavam e, nos pés, uns ténis brancos e meias curtas igualmente brancas condizendo com o bom gosto e apurado senso sexo - empresarial da madama.

O jantar foi servido, Xica da Silva comeu com eles e a alegria era evidente. Se as coisas continuassem assim, em breve teria dinheiro para mudar de vida e de bairro, talvez também comprar uma casa em Portugal ou na África do Sul, ou aliar-se ao libanês e passar a comercializar o tal de haxixe, que ela desconhecia.

«Ó Xica, explica lá como é que consegues fazer uma muamba de camarão tão boa!», solicitou um dos representantes da casa das leis.
«Muamba, senhor deputado?», perguntou, surpresa.
«Sim, muamba. Esta muamba que comi estava uma maravilha, nem a minha esposa consegue fazê-la assim!», repetiu.

(Continua) 

 

 

FABRICIANO
A penicilina - Penicillium notatum

 

BENEDITO FRANCO

Dono do cartório de Fabriciano, Sô Zacarias era o patriarca de imensa e ótima família - toda ela amicíssima da minha.

Quando nasci, mamãe mandou-lhe um recado para me registrar. Escreveu-lhe um bilhete - antigamente era assim - em que colocou o nome, Benedito Celso. Ele perdeu o tal bilhete. Quando mamãe mandou buscar a Certidão de Nascimento, lembrou-se ele de que ela já tinha tido um filho com o nome de Benedito. Parece-me que era seu afilhado. Consultou o livro, achou: Benedito Jésus!... Registrou-me!

Dá para prever a confusão vivida por mim por causa desse bendito nome Benedito Jésus – o verdadeiro falecera aos dois anos - todo mundo chamava-me de Benedito Celso.

Quando fui para o Seminário, foram enviados documentos, constando de Certidão de Nascimento e de Batismo. Na Certidão de Nascimento, nome: Benedito Jésus e Benedito Celso, na de Batismo. Esperavam por irmãos gêmeos e prepararam duas vagas - no dormitório, no refeitório, na rouparia, na capela, na sala de estudo e nas salas de aula, nos cadernos de chamada etc., etc.

Depois de anos de luta, encontrei-me com o promotor, meu colega de infância, neto do Sô Zacarias:
- Divaldo, qual o meu nome?
- Uai, Benedito Celso, por quê?

Aprovou a petição e, assim, consegui trocar o nome no cartório.

O pai do Divaldo, esposo da Dona Rosinha, trabalhava com corte e venda de madeira, colocou o nome de Jacarandá no primeiro filho e de Sucupira no segundo. O terceiro teria mais um nome de madeira - Dona Rosinha refutou.

A fazenda

Uma das filhas do Sô Zacarias, D. Zaide, casada com o Sr. Raimundo Alves, farmacêutico formado e prefeito de Fabriciano por duas vezes, morava em uma fazenda, do outro lado do Rio Piracicaba. O filho, Rômulo, hoje bioquímico, sempre estava na casa do avô, perto da minha. Fiz amizade com ele, uma vez que mamãe se encontrava bastante com Dona Zaide e gostava demais dela - amizade conservada até a morte de uma delas.

Com o Rômulo, passeei na fazenda e, recordo-me, pescamos no ribeirão em frente à sede. Pesquei um piau de uns vinte centímetros. Ele pegou um monte deles. Pescaria única, com filho único, em toda a minha vida.

A fazenda foi vendida para a instalação da Acesita – hoje a sede fica no centro comercial.

O brejo

Mais tarde, eu rapaz, o Sr. Raimundo Alves contou-me que, chegando de viagem, um matuto, empregado, morador do outro lado do córrego - o tal ribeirão da pesca, hoje Bairro dos Funcionários - apareceu com uma grande ferida purulenta no pé, perto do tornozelo, e com a região muito inchada.

Fez-lhe o curativo - curativo nada, pois estava sem um remédio sequer no momento. Limpou bem a ferida e recomendou-lhe vir todos os dias para a limpeza e um novo tratamento, e então providenciaria os remédios necessários.

- Mais dotô Remundo Avis, eu num vim inhantes pruquê o Sinhô tava fora e é difíci pra mim, pruquê tenho qui andá e travessá o brejo, do lado de lá e do lado de cá do coigo.

- Faça um esforço. Chegando, a gente vai limpar tudo. Não deixe de vir.

No dia seguinte, o senhor contou-lhe que havia sujado o local da ferida, lá no brejo, logo ao ir para casa, mas a dor melhorou.

Sr. Raimundo Alves reparou que as gazes seguraram a sujeira do brejo e, apesar da sujeira, a ferida não piorou, melhorou. Interessante: antes a ferida piorava como contou o matuto, apesar de lavá-la bem em casa.

- A melhora foi total e, em muito pouco tempo, bem antes do esperado, e antes mesmo de eu providenciar os remédios necessários. O resultado curioso levou-me a dar uma olhada no brejo e no ribeirão, e notei muito fungo por lá, estranhei: esperava que a sujeira e o fungo piorassem a ferida, o que não acontecia.

Fungo sempre me despertou a curiosidade e algum estudo. Isso me convenceu, não a recomendar, mas a tolerar o senhor a chegar em minha casa com os curativos sujos.

Passados alguns poucos anos, fiquei sabendo da descoberta da penicilina e sua origem. Relacionei-a com o fungo do brejo. Jovem e recém-formado, pouco experiente, não me aprofundei na pesquisa.

Poderia ter descoberto a penicilina, antes mesmo da equipe do Dr. Fleming. Deixei de curar e salvar muita gente... e de ser famoso!

BENEDITO CELSO A. FRANCO