Pagª 10 - EDIÇAO NºXLVI , II NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

 


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Viver na gandaia e continuar a ser gente (Continuação) Ver Inicio

Exposição em Itália

Sobre o destino a dar a esse grupo de jovens que acedeu ao convite de participar num curso de fotografia e dança, Letizia respondeu-nos que esse é um problema que lhes ultrapassa. «Provavelmente alguém saberá desta iniciativa e oferecerá a sua mão para dar continuidade a um projecto que quer dar dignidade a um grupo de jovens que podem ser muito úteis ao país amanhã».

Em relação às fotografias feitas pelos «sobreviventes da gandaia», Letizia disse-nos que as mesmas serão levadas para a Itália onde serão expostas numa mostra a ser levada a cabo nesse sentido, também poderá ser escrito um livro sobre a vida destes miúdos e daquilo que podem fazer como arte.

Completamente recuperáveis

«Muitos deles nem falam a língua portuguesa, mas isso nunca foi obstáculo no curso que ministrámos. O mais espantoso é que eles penetram facilmente na emoção de uma imagem, sentem a expressão do estado da alma e fazem o click. Isso significa que, apesar de estarem a viver na lixeira, não perderam a parte emocional do ser».

Na verdade, ao conversar com os jovens, sentimos que o lado psico-emocional deles, não está completamente perdido. Eles ainda podem ser recuperados pela sociedade. «Quero recordar-te apenas dum episódio: uma vez dispensámos-lhes as máquinas, foram com elas para a lixeira a fim de fazerem imagens e, ao contrário do que pensávamos, regressaram com os instrumentos intactos. Eles falam comigo de forma educada, tornaram-se até, de certa forma, meus amigos. São miúdos completamente recuperáveis e o que mais admiro neles é que preferem ser «sobreviventes da gandaia», do que serem meninos de rua, onde vão viver de esmola.

Fazer filhos e morrer na lixeira

Na lixeira há velhos que de lá nunca mais vão sair. Depois da sua morte serão abandonados como fazendo parte do próprio lixo, como o são agora. Não têm onde ir e ninguém - aparentemente - sabe deles. Quando anoitece, conforme nos conta Lucas Mondlane (um jovem que não conhece a idade, mas que sabe dizer que está ali há catorze anos), queimam qualquer coisa para se aquecerem e dormem. O pior é quando chove: entregam os seus corpos às bátegas, implacáveis, sem poderem fazer seja o que for. São velhos duramente cozidos pelo sofrimento e pelo castigo e já não têm qualquer horizonte.

Dos jovens - segundo nos conta Lucas Mondlane - também não se pode esperar muito. A primeira constatação que se pode ter é a de que eles têm uma forte terapêutica de grupo. Colam-se fortemente uns aos outros, como se um não pudesse viver sem o outro. Perguntámos-lhes se não havia homossexualismo entre eles e eles encolheram os ombros sem nos dar resposta. Quanto às mulheres que vivem na lixeira, quisemos saber como é que elas se arranjam, sabido que ainda estão em idade sexual. Os jovens simplesmente responderam: têm maridos ali mesmo na lixeira. Fazem filhos na lixeira, que também passam a fazer parte da «casa».

Sobre se, entrando um estranho na sua zona, eles não agem agressivamente, os mesmos responderam-nos que não. Mas todas as informações que temos levam-nos a duvidar da resposta peremptória dos jovens. É bastante arriscado entrar na lixeira. Você pode ser recebido pela própria morte.

No que toca a comida, o caso é arrepiante. Um indivíduo exibiu-se diante de uma máquina fotográfica a esfolar um gato morto algures fora da lixeira e transportado no carro da Neoquímica. Depois de esfolado, ainda diante da câmara, foi cortado em pedaços e cozinhado numa panela nunca lavada, depois degustado com prazer. Lucas diz que aquilo é bastante normal. «Mesmo quando a carne está podre nós comemos e ninguém fica doente».
Pois é: viver na gandaia, no bairro do Hulene, é isso! Ou mais ou menos isso!

Mundzuku Ka Hina

Se nos formos a debruçar sobre as fotografias captadas pela retina dos «sobreviventes da lixeira» e deixarmo-nos conduzir pela brutal realidade de que esses jovens não têm outra casa senão aquele lugar imundo, então estaremos a ver a vida do lado de um inferno anormal. Será difícil explicar que um ser humano, mesmo chafurdando como um cão abominável, ainda encontra espaço na sua mente para compartilhar outros lugares com pessoas civilizadas.

Na escola - que faz paredes-meias com a lixeira - onde estes jovens foram aprender a fazer fotografia e filmar e dançar, há um aspecto que não nos vai passar despercebido: eles dialogam à vontade com as pessoas como se vivessem ali, com essas mesmas pessoas, desde que nasceram. Trazem roupa limpa e sabem comportar-se nas carteiras onde estão sentados a receber aulas. Respondem às perguntas com educação e, entre eles, parece haver compreensão mútua, ou seja, sabem repreender-se uns aos outros, quando for o caso.

Olhamos para as fotografias e perscrutamos as suas mensagens. Nenhuma delas parece ter sido feita ao acaso. Há um sinal de chamamento em quase todas elas, o que nos deixou literalmente espantados. Porque os «sobreviventes da lixeira» nunca antes tinham lidado com uma máquina fotográfica, muito menos com uma câmara de filmar. Mas eles - perante esses instrumentos - comportavam-se como se já o tivessem feito antes.

Este sinal é simplesmente arrebatador, porque o trabalho foi feito por jovens que vivem na gandaia e que à gandaia - depois de tudo aquilo - regressarão, como os próprios homens que vêm do pó e que, depois de tudo, regressam ao pó. É doloroso também saber que fotografias de valor artístico não desdenhável, foram carinhosamente amanhadas pelo olho de jovens que não sabem muito bem qual é o seu futuro. Aliás, o futuro, para eles, provavelmente, será aquele mesmo: nublado.

Seja como for, o espectáculo está na capacidade de eles acreditarem - mesmo sabendo que isso pode ser utopia - que o futuro deles ainda há-de vir. Um dia. Por isso escolheram como nome para a sua escola «A Munzuku Ka Hina», que significa, traduzido livremente para a língua portuguesa: «O Nosso Amanhã». E, perante este ensinamento humano, não teremos medo de arriscar perguntando: não poderão sair daqui, nesta utopia toda começada por Mundzuku Ka Hina, grandes homens do amanhã?

Fonte

 

 


A Coluna de José Geraldo Martinez

HOMEM COVARDE !

Não há faca mais letal
que o amor prometido em vão...
Levianas atitudes, afiado punhal
cravado no coração!

E, matando assim um sonho,
ainda que em poesias derramadas,
é sadismo, covardia,
juras de amor profanadas!

Pensas em teu coração de pedra,
ser tudo comum e normal...
A outros colos tua ilusão carregas,
matando qual serial?

Homem desumano ,
qual a desculpa que um dia terias?
Pensas com o mesmo plano,
que alguém não te mataria?

Tu morrerias com versos!
Poesias fajutas de carregação...
Sonhos igualmentes confessos,
castelos de areia no chão!

Homem covarde!
Pensas ser dono da ilusão
de qualquer alma e coração?
No inferno do abandono que arde,
queimarás um dia sem compaixão!

O que será de nós?

Que besta é a vida,
tão frágil, tão curta...
Um sopro e pronto!
De mistérios, oculta...
Entendes meu medo?
Do tempo perdido, ausentes!
E se amanhã tu vais ou me vou,
de repente?
O que será de nós?
Das ruas sem nossos passos...
As flores a sós,
de nossas mãos sem enlaço?
E a lua?
As madrugadas...
Estarão perdidas, certamente,
sem nossas costumeiras gargalhadas!
O que será de nós?
Daquele que por aqui ficar...
Estará morto vivo,
alma sem rumo e par!
E nossos sonhos?
Estarão perdidos em algum lugar...
Morrerão não cumpridos
no peito daquele que ficar!
Nossos beijos e carinhos,
nosso peito sem acalanto!
Os olhos na despedida,
vestidos de dor e de pranto...
Entendes meu medo?
Qual menino inseguro!
Vivendo seus pesadelos,
num quarto escuro?
Tão besta é a vida!
Fugaz...
Num piscar de olhos tudo acaba
numa frase de lápide:
Aqui jaz!
O que será de nós?
Vivos mortos...
Do nosso amor, dos nossos
corpos?
Antes que partamos, amada
minha, e nossas lágrimas
gritem vertentes...
Entreguemo-nos as almas!
É a única certeza de um todo sempre...

TODO TEU!

Vinde a mim, dona e rainha...
Farta-te à vontade de minha alma que insiste
em servir-te toda florida...
Com cheiros de todas as primaveras que já vistes!

Degusta inteira!
Além deste corpo que te é servido em lençol
de linho, nu em folha...
A vastidão do meu ser inteirinho!

Dos gemidos e sussurros ao teu ouvido,
há muito mais que emoções banais...
Deste homem pequeno e carnal,
que se entrega enlouquecido!

Vinde a mim, amante e mulher!
Lava-te em minha fonte de prazer...
Não te esqueças que, além dela, há
muito mais que este miserável ser!

Vinde a mim, amor meu!
Sou todo alma,
todo puro...
Todo teu!

«A função do escritor?
Ser testemunha do seu tempo e da sua sociedade.
Escrever por aqueles que não podem escrever.
Falar por aqueles que muitas vezes esperam ouvir da nossa boca a palavra que gostariam de dizer. »

Lygia Fagundes Telles