Pagª 11 - EDIÇAO NºXLVI
, II NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
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Maria da Fonseca - Poemas
VIVER EM HARMONIA
Ao nascer recebemos nossa vida
Com lágrimas, dor e perseverança,
E o esforço, a vontade e a aliança
De nossa mãe, companheira querida.
A luta dia a dia é renhida
Desde os primeiros passos de criança,
E pela vida fora com ‘sperança
De nossa dignidade percebida.
Qualquer que seja a raça, a minoria,
Crença, família ou fragilidade,
Assumimos viver em harmonia,
Ter p’lo irmão solidariedade,
Tratar seus valores com cortesia
E defender a sua liberdade.
Penso espreitar-te daqui,
De mim ‘stás muito afastada,
Mas há pouco fui aí
E fiquei maravilhada.
Linda magnólia rosada,
Cada rebento, uma flor!
Cada pétala pintada
Pela mão do Criador!
A meio de Fevereiro
Primavera prenuncias,
E és sempre a que primeiro
Vens colorir os meus dias.
Apesar do teu recato
Bem junta à maternidade,
Atrais a vista e o olfacto
E encantas com amizade.
As abelhinhas felizes
Sugam o néctar das flores
Em cor-de-rosa e matizes,
Cumuladas de louvores.
O chão juncado de pétalas
Torna efémera a lindeza,
E só restarão as sépalas
Dentro de dias, princesa.
Serás bela novamente
A par de outras irmãs,
Verdes folhas de presente
Em orvalhadas manhãs.
Sempre recusei imagens
Que da guerra me falassem.
Fotos, filmes e passagens
Que a maldade me lembrassem.
Meus parentes a sofreram,
Sem pecado cometerem.
Pelo sangue os ofenderam,
Quem sabe se até morrerem.
O tempo, que tudo cura,
Não afasta minha dor,
Nesta Terra em que perdura
O conflito, o desamor…
Agora todos lastimam,
Nem todos, que ironia!
Ainda há os que sublimam
Quantas mortes, que heresia!
O padecer dos que imploram
Aviva a minha memória.
Não são meus olhos que choram,
É minha alma em sua história.
Defendei os seus direitos,
Homens bons de coração.
Geri todos nossos feitos
Para bem do meu irmão!
Reza a lenda que Vicente,
Feito mártir em Valência,
Suas relíquias levaram
Com devoção e prudência.
Seu destino, a nossa costa,
O cabo a que deu o nome,
Nesse Algarve muçulmano,
Até hoje de renome.
Assim nosso Rei primeiro,
Logo que foi sabedor,
Mandou vir rumo a Lisboa,
O corpo do Protector.
Em toda a viagem, contam,
‘Steve o Santo acompanhado
Por negros corvos atentos,
Não saindo do seu lado.
E quando a barca ancorou,
Uma procissão ‘sperava,
Levando então S. Vicente
Para a Sé que o aguardava.
O filho de Henrique, Afonso,
Tomou-o como Patrono,
A quem dedicou Lisboa
Onde dorme eterno sono.
No distinto brasão de armas
Desta tão leal cidade
Vêm-se os corvos e a barca,
Símbolo da Cristandade.
Esta a lenda curiosa
Pra todo o sempre presente
Na nossa amada Lisboa.
- Os corvos e S. Vicente -
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Psicanálise à República

Poema por Mário Matta e Silva
Andando assim descontente
Triste, de cara fechada
Achou ser mais previdente
Passar a ser vigiada.
E a República assim fez
Com esperança na Psicologia
Foi para o divã desta vez
Tentar nova terapia.
A psicóloga, entendida
Na consulta a recebeu
Quis saber da sua vida
E a República acedeu.
As angústias desabafou
Face às crises sucessivas
Gesticulou e chorou
De voz trémula mas expressiva.
Ajeita o peito desnudo
Aperta melhor a faixa
E esconde o corpo carnudo
No divã onde se encaixa.
Foi longa e atormentada
Toda a sua narrativa
Falou de tudo, coitada
Sem guardas nem comitiva.
Mas do mais que se queixou
Com Freud no pensamento
Foi do povo, que a levou
Ao maior role de lamentos.
E nessa amarga desdita
De séculos tão conturbados
Lembrou Fátima bendita
Todos os transes, os fados.
O povo trá-la inquieta
Em depressão sem brandura
Por saber quanto a afeta
Tanto doutor sem cultura.
Antes dela, Sebastião
Tantos reis, tantas Rainhas
De bom ou mau coração
Consumindo-se em ladainhas.
Duques, Condes e Marqueses
Almas brandas ou danadas
Ricos ou arruinados por vezes
Ostentando suas mansardas.
Lutas ferozes, ideologias
Liberais, conservadores
Muitos bastardos e ousadias
Nas intrigas, nos amores.
Josés, Joões ou Maneis
E Antónios nem se fala
Depois da coroa, as cadeias, os quartéis
Chapéus de coco, bengala.
Desbragada burguesia
Moderados, extremistas
Todos em grande euforia
Poetas, bêbados, fadistas.
Ditadores e democratas
Gente rica na avareza
Na Banca só acrobatas
E uma escondida pobreza.
Para onde vou nunca sei
Sempre assim fragilizada
Meti-me na Europa e ganhei
Tantos subsídios para nada.
Governos se sucedendo
Qualquer deles gasta e se avia
E todo o povo vivendo
Pasmado em demagogia.
Desabafando, coitada
A República, em seu mutismo
Chora a Pátria acorrentada
Ao mito do sebastianismo.
- O que é que faço doutora?
Tudo tento e não acerto…
- Tenha Fé, virá a hora
De voltar esse Encoberto!
5 de Outubro de 2009
MÁRIO MATTA E SILVA