Pagª 50 - EDIÇAO NºXLVII , III NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Moçambicana Lídia Brito na UNESCO

A antiga Ministra moçambicana do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia, Lídia Brito, é a nova Directora da Divisão de Politicas de Ciência da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Lídia Brito, que foi a primeira responsável pelo Ministério do Ensino Superior, Ciência e Tecnologia de 2000 a 2005, deverá assumir esse cargo em Dezembro próximo em Paris. Vai substituir Mustafa E Tayeb, que vem dirigindo os destinos desta divisão da UNESCO desde 1996. Com o nível de PhD em Ciências Florestais, Lídia Brito é considerada como uma experiente na matéria de elaboração de politicas da ciência.

Como Ministra, foi responsável pela elaboração da Estratégia Nacional do Ensino Superior e pelas reformas do quadro legal da Ciência. Após servir o Governo na qualidade de Ministra, leccionou ciências florestais na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior e mais antiga instituição do ensino superior em Moçambique, tendo também servido ao Conselho Universitário das Nações Unidas e o Fórum Africano de Florestas.

Dada essa larga experiência no circuito africano de Politicas de Ciências, a indicação da Lídia Brito para este cargo é largamente saudada no mundo. «Ela é bem conhecida como uma defensora e apaixonada pela ciência baseada em desenvolvimento nos países pobres», disse Mohamed Hassan, director executivo da Academia de Ciências para o Mundo em Desenvolvimento (TWAS).

«Não podemos pensar em nenhuma outra pessoa melhor para estabelecer os recentes esforços da UNESCO de desenvolver capacidade nas políticas de ciências no mundo em desenvolvimento e, particularmente, em Africa», acrescentou. Por sua vez, Tomas Kjellqvist, responsável pela cooperação na pesquisa na Agencia Sueca de Desenvolvimento (Ssda), disse esperar que o papel de assessoria da UNESCO ganhe progressos nos países menos desenvolvidos. «Acreditamos que a Lídia Brito tem experiência e rede de contactos necessários para alcançar essa expectativa», disse.

Mas os peritos acreditam também que Lídia Brito irá ter desafios enormes. Peter Tindemans, um perito em politicas de ciências e que trabalhou com a UNESCO no relatório sobre ciência de 2005, traça os desafios em dois tipos. O primeiro é o de lidar com o hábito da UNESCO em dispersar os recursos em pequenas quantidades. O segundo, ligado ao primeiro, é de reconsiderar a prática da UNESCO de ajudar os países pobres a desenhar politicas, enquanto falha assistir os mesmos na implementação das mesmas.

Um terceiro desafio seria o de melhorar a componente de «inovação» das políticas de programas da UNESCO, acrescenta John Daly, antigo oficial de ciências da Agência norte-americana de Desenvolvimento Internacional (USAID), que também trabalhou como consultor do Banco Mundial. «A diferença é uma mudança do foco da pesquisa para o desenvolvimento e inovação nos sectores produtivos», referiu. Espera-se que Lídia Brito seja apoiada no seu novo trabalho com um ligeiro aumento do orçamento dessa divisão. Um documento sobre o orçamento preliminar da UNESCO indica um aumento em 2,5 milhões de dólares o bolo destinado a divisão das ciências naturais, passando para um total de 22 milhões. O documento aponta as políticas de ciências como área prioritária da organização.

 

A Bicicleta de Faulkner em cena na Barraca

Até 29 de Novembro

A Bicicleta de Faulkner de Heather McDonald, encenação de Rita Lello, música de Bernardo Sassetti, e cenografia de Miguel Figueiredo.

Maria do Céu Guerra, Rita Fernandes, Sérgio Moura Afonso e Susana Costa integram o elenco.
O espectáculo está em cena de 5ª a Sábado às 22h00 e Domingo às 17h00

Sob a influência estética de William Faulkner, surgem-nos apresentados, neste espectáculo, de forma elíptica e fragmentada, momentos da vida de personagens em ruptura.
Jett Pierce, escritora atormentada por uma crise de identidade e falta de inspiração literária vive em NY o remorso de não ser capaz de lidar com a doença da mãe, Isabel, uma mulher criativa e sonhadora e talentosa, que viveu uma vida inteira à espera de que lhe acontecesse alguma coisa.

Durante o desenrolar da acção assistimos a Jett a lidar com a hipótese de voltar para casa da mãe, em Oxford, no Mississipi, na esperança de reencontrar as suas raízes e de ser capaz de cumprir o seu papel de filha, lidando com a atomização da personalidade da mãe e com o desmoronar das suas referências. Nesses encontros, em que NY se funde com a Louisiana, permitindo que as personagens se encontrem, cresce o conflito entre a mãe, a filha que partiu e Claire, a irmã que ficou.

O conflito entre as duas irmãs nasce da diferença de formas de lidar com o mal de Alzheimer: Jett não desiste de tentar chamar a mãe à realidade enquanto Claire, leitora voraz de O Som e a Fúria - uma rapariga desengonçada que corre até ao lago de cada vez que ouve a bicicleta de Faulkner dirigir-se para lá na esperança de poder falar com o escritor que alimenta o seu imaginário - desenvolveu a capacidade de acreditar que a realidade se pode apresentar sob vários planos e permite e embarca nos delírios da mãe na esperança de que o sítio onde ela está seja melhor do que aqui.

Demência? Relatividade...senilidade...Incerteza? Einstein... Heinsenberg...Alzheimer... mal de «doença de»...descritas no início do Sec. XX... um mal, uma patologia neurodegenerativa...progressivamente destrói as células cerebrais...memória...fala... desorientação...fragmento..... elipse...simultaneidade...espaço...tempo... desintegração... quebra...medo.

Faulkner, criador de um mundo ficcional repleto de memórias e personagens cheias de enorme saudade...criador de momentos que não se cingem ao agora, mas contam e sugerem tudo o que se passou antes e forma a qualidade do presente. Foi esta ideia de fragmentação e simultaneidade que persegui na encenação deste texto. Seguir a pista de Faulkner no sentido de encontrar um espectáculo em que a patologia se encontra com a arte, a arte que dominou o séc. XX.

Rita Lello - Encenadora

 

 

 


A MITOLOGIA DOS DOGONS

Por Daniel Teixeira

Os Dogons, habitantes do delta interior do rio Níger, no Mali, não são propriamente amantes da arte equestre uma vez que se encontram refugiados nas partes mais acidentadas e na longa falésia que percorre a Leste a parte do conjunto do delta do rio.

No entanto, e curiosamente, em estatuetas datadas do XIº ao XIVº século, representaram o homem a cavalo, recorrendo a estilos totalmente diferentes dos seus geograficamente opostos habitantes do delta, que vivem em superfície plana, e que foram antigos cavaleiros, os Guimbala.

A estatuária dos Dogons, no entanto, é mais homogénea no sentido estilístico, e permite uma maior interpretação do que a estilisticamente dispersa estatuária Guimbala. Ao mesmo tempo não se consegue, através da análise desta estatuária, obter uma coerência tão forte como aquela que se obtém estudando a estatuária dos Dogons, para além do facto de se não conhecer a mitologia dos Guimbala e se conhecer aquela dos Dogons.

E é neste facto que reside a maior curiosidade ainda na medida em que os Dogons, com laços quase inexistentes com o cavalo, acabam por construir a sua mitologia e a sua forma de ver o nascimento do Mundo através do cavalo.

A representação do homem a cavalo está ligada à história de uma personagem, Nommo, sacrificado pelo Deus Amma, e de cujo corpo desmembrado se fará a reconstituição dele ( Nommo) e através deste facto se possibilitará a purificação universal dos Dogons e a reconstituição de um novo mundo por Amma.

Nota: O processo de desconstrução / reconstrução do ser tido como criador ou principiador de um dado povo ou do homem em globo (de ver que cada mitologia se considerará a verdadeira e logo admitirá com dificuldade que seres estranhos tenham tido um primeiro princípio diferente do seu) encontra-se na antropologia cultural relacionado com outras culturas antigas - que não têm nada de africano, por exemplo, e cujo contacto cultural e influenciador só se poderá entender como tendo hipóteses remotas de ter acontecido - e designa, de alguma forma, o nascimento do mundo através da divisão de uma entidade primeira (nestes casos personalizada ou identificada). Não existe assim criacionismo no sentido típico do termo...mas sim construcionismo e ordenação / reordenação transformadora.

Após essa reconstituição, Nommo ressuscitado, desce à terra num veículo que transporta os elementos essenciais ao recomeço da vida: os primeiros ascendentes da humanidade, as primeiras sementes, os seres vegetais e animais.

O mito conta ainda que, após a sua chegada à terra, Nommo se metamorfoseia em cavalo para transportar o prato do culto ritual (um prato com uma escultura da cabeça de um cavalo e uma cauda de cavalo nos bordos opostos) até ao rio, local onde este prato se transforma numa piroga.

Noutros casos, o prato é comparável a um carro dentro do qual se encontram pequenas estatuetas em madeira e em ferro, representando homens e cavalos, sendo que o cavalo representará Nommo e o homem (ou a cavalo ou ao lado) representará o próprio Deus Amma.

O cavalo (representando Nommo) é chamado pelos Dogons como sendo o «poder de Amma» assimilando-se assim este à extensão rápida dos seres sobre a terra.

Sendo não cavaleiros, os Dogons incluíram a figura do cavalo nos seus mitos a fim de poderem dotar o seu herói, Nommo, das qualidades que eles reconhecem e admiram no cavalo: a força, a velocidade, a capacidade de percorrer rapidamente grandes espaços.

Contudo, o cavalo representando Nommo tem ainda uma particularidade: cada uma das suas partes constituintes é, de alguma forma plasticamente autónoma do restante dos componentes (o que nos leva ao corpo desmembrado de Nommo), e permite ao escultor alterar os detalhes dentro de uma margem que mantenha apesar disso o equilíbrio do todo.

Esta variabilidade metamórfica está contudo ligada a um outro aspecto da mitologia dos Dogons: a estrutura do mundo na concepção que os Dogons atribuem ao seu fazedor / refazedor Amma está dividida em 22 categorias que incluem no seu todo 266 símbolos significando os seres e as coisas originais.

O escalonamento dessa diversidade, e a sua inclusão dentro das categorias não é conhecida, mas compreende-se perfeitamente que cada uma das categorias não se divide num número de símbolos (seres ou coisas) iguais (22x12=264). Logo, esta disparidade, ou não linearidade, terá provavelmente a ver com a incerteza da transmissão oral do mito mais do que com uma ideia formalmente bem organizada.

Contudo, fica ainda para reparar que o cavalo (Nommo) acaba por representar plasticamente (dada a sua característica específica na conformação independente dos seus membros) uma forma de significar a diversidade do próprio mundo representado na vontade de Amma.

Estes mitos da desmembração e reconstituição estão presentes noutras mitologias bem distantes geograficamente de África, embora se possa pensar que sendo a região de influência muçulmana, os mesmos possam ter tido a sua origem na Índia.

Contudo pendemos mais para a possibilidade (sugerida em nuance acima) que exista sim um leque restrito de possibilidades coerentes de interpretação do começo do mundo e do homem e que desse aproveitamento das possibilidades resulte, em culturas afastadas e sem contacto determinante conhecido, uma semelhança interpretativa formal.

Daniel Teixeira.

 

Nota: Há toda uma exploração sem quaisquer bases científicas que atribuem poderes de conhecimento extra-antropológico aos Dogons e há inclusivamente leituras de tarot com os pobres dos dogons como metáfora base.

Um dos sites que encontrei que acerta mais com a esta realidade acima referida por mim é http://cnncba.blogspot.com/2009/09/os-dogons-conhecimento-das-estrelas-e.html  embora não se afasta dessa peregrina teoria da Estrela Sirius. A Net é de facto muito permissiva ...