Pagª 18 - EDIÇAO NºXLVII
, III NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Coluna
Antônio Carlos Affonso dos Santos.
ACAS, o Caipira Urbano.
Melindres da imprensa

ZAGATTI, O SEMEADOR DE SONHOS
Prólogo urdido a partir de um texto do nosso editor Daniel Silva
Caro Daniel,
Está acontecendo uma eclosão de meus conceitos literários. Estou bebendo na
fonte de seu jornal virtual que, se me permite, vou chamá-lo também de meu
jornal virtual. Seu texto sobre os catadores no mundo e em particular no Brasil
dá a idéia, ainda que difusa, do quê se passa além-mar, aqui na Terra da Santa
Cruz.
Os catadores são responsáveis por parte do esforço que o ser humano consciente
faz para melhorar o nosso habitat no planeta Terra; eles nos ajudam a economizar
papéis, ou seja, árvores e oxigênio; ajudam a economizar alumínio, ou seja,
deixamos de devastar a natureza e queimar combustível natural para processá-lo;
ajudam a economizar derivados de petróleo, como produtos PET, etileno,
polipropileno, poliestireno (PE), PVC, ABS e etc. (as siglas são muitas e
proferi-las em nada contribuem para o assunto em pauta).
Há uma década, havia pessoas que disputavam com os urubus, entre o mau-cheiro de dejetos em decomposição, o botim da luta árdua. Dali eles tiravam comida, móveis, e materiais valiosos; sob seus modos de ver a vida, para sustento da família. Normalmente moravam em casas improvisadas de papelão e madeira, catadas alhures, de cujos materiais faziam suas «casas».
Hoje, espocam em todos os rincões as cooperativas, que de certa forma contribuem para com a cidadania dessas pessoas, pois ao perceberem renda, elas se tornam compradoras e, portanto, fazem parte da sociedade. Em muitas prefeituras, pelo Brasil afora, temos notícias de grupos de pessoas pobres que formam cooperativas e fabricam seu próprio pão, fazem compra em grandes mercados que vendem abaixo dos preços do mercado e rateiam os víveres e a conta.
No entanto, não se iludam com os políticos: muitos deles, e o Sr. Luis Inácio, nosso presidente, não foge à regra, aproximam-se dessas pessoas com objetivos eleitoreiros. Este comportamento político talvez seja a «Pedra no Caminho» dessa legião de pessoas que trabalham como catadores. A Pedra no Caminho é uma alusão que faço ao lindo poema do poeta mineiro Carlos Drumond de Andrade que, se nesse tema aqui alavancado não cabia, coube e ponto final.

O SEMEADOR DE SONHOS
Existe um homem catador de papéis, que construiu com um lençol de sua própria
casa, cadeiras velhas, pedaços de filmes de cinema e um velho projetor, tudo
encontrado nos lixos das ruas de Taboão da Serra, cidade próxima da capital de
São Paulo e com isso tudo, fez um cinema, o Mini Cine Tupy, que funciona aos
domingos no quintal de sua casa, onde todas as crianças (inclusive muitos
adultos) assistem cinema pela primeira vez em sua vida.
São sessões gratuitas, onde não falta carinho, pipocas e até a distribuição de
pequenos brindes, distribuídos por sorteio no final das sessões dominicais. Os
brindes não são nada sofisticados, são pequenos brinquedos de origem chinesa,
comprados em lojas de miudezas (R$ 1,99 cada, ou cerca de 0,60 Euros, ao câmbio
atual).
Este homem é um conhecido meu, de Taboão da Serra, grande São Paulo; o José Luis
Zagatti, que era catador de materiais recicláveis. Nas suas palavras, ele era um
reciclador, nome que acho mais nobre; que certo dia achou uma máquina de
projeção de cinema no lixo de uma empresa. Apaixonado que era por cinema e sem
condições de ir a cinemas (em São Paulo um ingresso de cinema chega a
US$15.00); o Zagatti levou um tempo «consertando» o projetor até fazê-lo
funcionar.
Em outras oportunidades encontrou pedaços de filmes de cinema, os quais limpou cuidadosamente, recortou e colou-os uns aos outros. Com esse filme, testou seu projetor; com o filme e o projetor, montou seu próprio cinema! Um amigo dele, também reciclador, achou vários trechos de filme de cinema, com qual foi presenteado. Sabendo onde o filem foi encontrado, foi até lá e procurou muito e encontrou quase um milheiro de pedaços de filmes.
Num domingo, ele foi limpando os pedaços de filme que tinha em mão, cortava os trechos rasgados ou com imagens apagadas com seu canivete, e colava as partes com fita adesiva. Montou assim o filme com o qual fez a primeira projeção em família.
O «filme», que poderia ser chamado de «Frankstein», formado por pedaços de vários filmes, era apenas uma grande mistura de imagens, cenas de perseguição policial, cenas bucólicas, imagens de documentários mostrando cidades da América do Norte e da Europa, documentários indígenas, «westerns» (faroeste) e etc. Não havia som, nem havia uma ordem, mas havia sonho.

Eis o José Luis Zagatti em ação, em tarde dominical no Mini Cine Tupy
Segundo pesquisa in loco, feita pelo jornalista Júlio César Caldeira, o Zagatti (é assim como é conhecido em Taboão da Serra), quando tinha cinco anos de idade, ele que é paulista da cidade de Guariba, região de Ribeirão Preto (Brasil), entrou pela primeira vez numa sala de cinema, pelas mãos de uma irmã.
Desde então, aquele retrato de imagens projetadas numa grande tela nunca mais saiu da sua cabeça. Quarenta e sete anos depois, Zagatti representa para os moradores da sua comunidade, em Taboão da Serra, Grande São Paulo, a única idéia que eles têm do cinema. Há oito anos projeta na frente de sua casa, naquilo que ele pretendia chamar de garagem, em sessões gratuitas com direito até a pipoca; filmes antigos em 16 mm numa máquina que ele mesmo comprou por oitenta reais. Hoje ele é o «dono» do Mini Cine Tupy.
Além do lirismo dessa história, há um fato importantíssimo por trás da atitude do projetista, uma realidade que ele conhece muito bem: «Não há como as pessoas daqui irem ao cinema», testemunha Zagatti, que ficou mais de vinte anos sem pisar numa sala de projeção. «E é com isso que eu me preocupo bastante. A periferia é esquecida. Em todos os departamentos é assim, principalmente no da cultura.»
Zagatti nunca havia procurado ajuda do Estado para seguir com seu pequeno cinema ou mesmo ampliar suas instalações. A única ajuda que recebia, há oito anos, era da Associação Paulista dos Colecionadores, que lhe fornecia filmes novos, sempre que podiam. «Conversamos bastante. Não sou como eles; sou humilde, mas sou considerado um colecionador também», conta com justificável orgulho.
No entanto, sua humildade não o impede de enxergar a realidade na qual vivem os moradores da periferia. E a vontade de propiciar uma luz no fim do túnel, aliada à sua paixão pelo cinema, o motivou a começar e o impulsiona a continuar. «Uma ou meia hora que as crianças ficam reunidas em torno de uma tela e de um projetor já é uma forma de evitar que tenham contato com a marginalidade, o que futuramente evitará problemas para elas e para a sociedade de modo geral», ensina o catador de papelão, que ainda cita uma frase, segundo ele, lida num livro do educador Paulo Freire: «Ninguém educa ninguém e ninguém se educa sozinho».
Origem do nome do «cinema do Zagatti»
Quando chegou em Taboão da Serra, o Zagatti conheceu o único cinema que Taboão da Serra teve por muitos anos: o Cine Tupy; cinema este criado e mantido por uma família tradicional de Taboão da Serra. Para se ter uma idéia, mudei-me para Taboão da Serra na década de 1980 e tal cinema já não mais existia há uns quinze anos. Eu sei até onde funcionava o cine Tupy, porém jamais vi ao menos uma foto dele; sobraram imagens apenas na cabeça do Zagatti. Sempre achei esta homenagem do Zagatti uma das maiores demonstrações de sua alma pura. Portanto, o Mini Cine Tupy é uma homenagem do Zagatti ao antigo cinema de Taboão da Serra.
Mais dados sobre o cinófilo Zagatti
José Luís Zagatti é apenas um dos vários casos que existem em todo o país, de pessoas que, cansadas de esperar alguma atitude dos órgãos públicos, resolveram arregaçar as mangas e criar um movimento de reação da sociedade.
«E uma tendência que vem se espalhando no Brasil desta década», analisa a ensaísta e professora Walnice Nogueira Galvão in ...«Uma iniciativa pessoal que tem por ambição sanar lacunas e falhas do tecido social.» Bons exemplos, como o do Zagatti, meu amigo, devem ser seguidos. Creio que deva haver centenas de Zagattis, espalhados em todo o mundo.
A imprensa brasileira já sofreu mais do que o suficiente durante a ditadura militar. O retorno à liberdade se tornou um bem ainda mais valioso dado que, na maioria das vezes, apenas damos conta de um bem quando o perdemos. A liberdade da imprensa é fundamental para o fortalecimento de povos e nações democráticos. Mas não se trata, no entanto, de uma liberdade incondicional, um direito sem deveres, liberdade gratuita. A liberdade implica responsabilidade. E, portanto, também deveres.
Não se pode aceitar, por conseguinte, que a imprensa, por ser livre, se dê direitos acima dos estabelecidos pela ordem legal e moral. Primeiro: qual é o papel, qual a responsabilidade, qual a missão da imprensa?
Ela é um atividade apenas lucrativa ou um serviço social às comunidades? Os interesses empresariais de um veículo de comunicação podem se colocar acima da responsabilidade de informar e, portanto, de formar?
Quem são, hoje, os verdadeiros formadores de opinião, já que parte da grande imprensa brasileira se rebelou, ainda outra vez, contra o Presidente Lula por este advertir quanto à realidade e a «pauta dos editores»?
Comunicação é o ponto de vista apenas do emissor ou é a correlação entre emissor e receptor:? Ou seja: o leitor, o ouvinte, o telespectador são passivos ou ativos na comunicação?
A imprensa brasileira – a quem o Brasil deve grandes conquistas na consolidação de direitos e da própria liberdade do povo – não pode ter melindres de diva com faniquitos quando contestada, discutida ou confrontada. Ela não é vestal intocável.
Pois não mais se pode negar que, nas últimas décadas, o papel da imprensa começou a se transformar dada a cumplicidade nem sempre legítima com grupos de poder.
Temos, hoje, verdadeiros impérios empresariais na área de comunicação, defendendo valores que nem sempre são os do povo e da nação, das comunidades e dos municípios.
Ora, na grande discussão ideológica, filosófica e econômica a respeito do papel do Estado, as divergências são tantas quantos forem os interesses em jogo. Se se defende a economia de mercado ou a filosofia neoliberal já fracassada, há interesses que se entrechocam com a busca de uma distribuição de riqueza mais justa e decente.
A imprensa aceitou ser parte desse jogo e, portanto, vai-se colocando como uma instituição que abriu mão de sua pretendida imparcialidade. Pois imparcialidade não existe e isso não minimiza e nem deslustra o papel da imprensa, desde que ela assuma a sua posição e definição ideológica com clareza e honestidade.
No Brasil, hoje, agências de notícias se tornaram os verdadeiros fornecedores da informação, inclusive nas redações de jornais, até nos pequeninos municípios. Logo, a notícia mostra sempre uma face e uma origem, quase sempre, como era nos gramofones antigos, «a voz do dono».
A informação se tornou hegemônica. Quando Lula fala que a verdadeira fonte da notícia está no povo, ele tem absoluta razão e, de minha parte – e como jornalista veteraníssimo – creio ter alguns testemunhos a dar.
O mais importante deles, inclusive surpreendente para mim mesmo, foi quando, como proprietário e diretor de O DIARIO, inverti um dos esquemas habituais de reportagem, pautadas pelo editor.
Acontecera que, honrado a participar de discussões sobre os caminhos da imprensa, promovidos pela CNBB e pelo CELAM, fui movido a maiores reflexões após muitos estudos, congressos, debates, reuniões.
Já se falava, na década de 1980, dos efeitos ainda preliminares da internet, da comunicação eletrônica. E do novo papel da imprensa, que deveria se tornar mais investigativo, mais opinativo, com a informação sendo mais rápida, para não dizer que fulminante e imediata.
A minha primeira decisão, em O DIARIO, foi deixar de pautar a reportagem, permitindo que o povo se manifestasse em vez de o repórter dar sua opinião.
Criei os Murais do Povo, nos quais as comunidades escreviam bilhetes, deixavam reclamações, pediam providências. A surpresa foi impactante. Num bairro onde, por exemplo, o repórter – com sua visão pessoal de mundo – via como necessidades vitais o serviço de água ou de esgoto, educação, a população dava prioridade absoluta à falta de condução e de um telefone público.
Eram as prioridades vitais. E, a partir das constatações, as reportagens se foram tornando mais vivas, mais autênticas, mais legítimas. Adotamos, então, o lema que fora proposta pela CNBB: «ser voz dos que não têm voz».
O novo fenômeno na imprensa já está sendo o dos jornais de bairros, das rádios e tevês comunitárias. Os grandes veículos empresariais caminham, cada vez mais, para ser fortes meios publicitários e, cada vez menos, meios jornalísticos.
O inverso começa a acontecer e Lula tem razão: o povo começa a pautar a imprensa e, assim, tornando-se, ele próprio, povo, o principal formador de opinião. A grande imprensa está incorrendo num erro falta: ela fala para si mesma e para seus iguais.
Quando se sabe que a média da tiragem dos grandes jornais não chega mais a 400 mil exemplares diários em edição nacional, pode concluir que jornais e revistas, no papel, estão atingindo um público alvo que, na verdade, já tem opinião formada.
Bom dia.
Pode comentar este texto carregando no seguinte link da Província de Piracicaba: Comentário.
Cecílio Elias Netto é fundador do Jornal A PROVINCIA
A PROVINCIA, como jornal impresso, foi fundada em 28 de Agosto de 1987, pelos jornalistas Cecílio Elias Netto e Gustavo Jacques Dias Alvim.
Durante duas décadas, com idas e vindas, ela cumpriu o seu propósito e o sonho desenvolvido: recuperar a memória de Piracicaba, especialmente através da oralidade de seus mais antigos moradores, contar a história do município e da região, com fartura de documentos e de fotos e postais.
O lema continuou vivo quando, há cerca de dois anos, A PROVINCIA ingressou no universo digital, criando A PROVINCIA electrónica, com o mesmo objectivo e a mesma motivação: «Paixão por Piracicaba».
Piracicaba é um município do estado de São Paulo. Sua população estimada em 2008 era de 365.440 habitantes.

Antemanhã
Gotas
germinam
na pedra nua
irisada
Água acesa
pérolas da lua
transparente gládio
fio de ternura
tremeluzente
fita de espuma
entre cinza e prata
entrelaçada
esperto
regaço
desfeito
aonde deito
a minha vida
ora chispa
ora causa
germe
que me
refaz
nacarada
água terna
na aurora
ressurgida