Pagª 27 - EDIÇAO NºXLVII , III NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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Palestra sobre Natália Correia

Por Liliana Josué

NATALIA CORREIA PALESTRA DE LILIANA JOSUE NO PALACIO DAS GALVEIAS, NO DIA 31 DE OUTUBRO DE 2009

Dados Biográficos de Natália Correia.

Natália Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923, em Ponta Delgada, Açores, e faleceu a 16 de Março de 1993 em Lisboa. Era filha de Maria José Oliveira e de Manuel Medeiros Correia. Teve uma irmã mais velha chamada Carmen Oliveira Correia. Todos eles de Ponta Delgada. O seu estrato social pode integrar-se na média burguesia.

Características e personalidade de sua mãe: Foi uma mulher bastante culta incutindo nas suas filhas o gosto pela literatura. Era uma apaixonada pela Mitologia Grega, dando-a a conhecer, muito cedo, às duas crianças. As sua profissão era o ensino, acabando por ser professora das próprias filhas.
Natália Correia dizia: «Soube da existência dos deuses gregos antes de conhecer a Bíblia».

AFRODITE RESSURRECTA

Da espiritual roseira vos cito a Citereia
que nos braços de Adónis cobre a terra de flores.
Cereal e Celeste. Não a Vénus sereia
que em tropos gregos passa por ter muitos amores.

A de leite colmada. De amor, a mama cheia.
Universal obreira de aromas e sabores,
que pelos argonautas, nos filtros de Medeia,
troca luas malignas por honestos lavores.

Da Grécia ao tredo Lácio degradada em Pandemos
em mirtos a resgato de cultos obscenos.
Do Espírito o plectro fere de novo a onda.

Venusta sai da concha e para todos brilha
em divas formas Deus. A carne é maravilha.
E-lhe devido o cisne. Mas sobretudo a pomba.

Características e personalidade de seu pai:

Foi proprietário e negociante de ananases. Pela sua falta de capacidade para gerir o negócio faliu, acabando por fugir, cheio de dívidas para o Brasil. Sua mulher, Maria José, divorciou-se dele dedicando-se ao ensino e às filhas.
Natália Correia atribuiu ao pai, entre outros «predicados,» o de «estupor de calças» .

VINDA PARA A METROPOLE

Aos onze anos veio com a mãe e a irmã para Lisboa.
Maria José foi a fundadora da Escola Lusitânia Feminina na rua Morais Soares.
Natália Correia matriculou-se no Liceu D. Filipa de Lencastre, mas foi expulsa por não acatar as regras da instituição educativa; uma delas foi a recusa de utilizar o caderno diário.
Ainda frequentou a Escola Machado de Castro mas acabou por sair.
Não ingressou na faculdade. A disciplina institucionalizada nos estabelecimentos de ensino contundiam com a sua personalidade rebelde. Para ela aqueles ambientes tornavam-se insuportáveis, por isso mesmo assim dizia num dos seus poemas: «Sou aluna das ervas e frequento / o curso do amor…»
Tornou-se uma autodidacta, estudando com apego: António Sérgio, Almada Negreiros, Antero de Quental, Teixeira de Pascoaes, Camilo e muitos outros.

O ESPIRITO

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
A vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

UNIVERSO FEMININO DE NATALIA CORREIA

Viveu durante muito tempo rodeada de mulheres: mãe, irmã, tias, primas e avós. Por essa razão, e pelo estigma dum pai ausente, tornou-se uma defensora acérrima das mulheres e dos seus direitos, principalmente as de classe mais baixa, incluindo prostitutas, incutindo-lhes força para nunca se deixarem rebaixar pelos homens.

Quando, pela noite, se dirigia a casa quase sempre se cruzava com elas e nessas alturas dizia-lhes: «Mulheres, não se deixem pisar, não se esqueçam que são as pitonisas do amor».

PRINCIPAIS ACTIVIDADES PROFISSIONAIS E POLITICAS

Em 1944 ela e sua irmã Cármen foram jornalistas no Rádio Clube Português, e eram conhecidas pelas irmãs Balalaikas. Foi nesse programa que a poetisa se começou a demarcar pelo seu génio e dom de palavra, mais tarde transformado em dom de oratória.
Em 1946 publicou o seu primeiro poema «Manhã Cinzenta (à partida de S. Miguel)» do qual vou ler apenas a primeira estrofe.

Ai madrugada pálida e sombria
em que deixei a terra de meus pais…
e aquele adeus que a voz do mar trazia
dum lenço branco, a acenar no cais(…)

Nesse mesmo ano publicou também o romance «Anoiteceu no Bairro»
Mais tarde dedicou-se à vida política, tornou-se membro do MUD (Movimento de Unidade Democrática) onde conheceu Mário Soares.
Em 1969 em parceria com ele integra-se no CEUD (Comissão Eleitoral de Unidade Democrática).
Voltando uns anos atrás, em 1949, apoiou a candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República.
Em 1958 irá apoiar o General Humberto Delgado ao mesmo cargo, apelidando-o «Cavaleiro da Liberdade».
Mais tarde dará o seu apoio ao General Ramalho Eanes e Maria de Lurdes Pintassilgo.

Desempenhou o seu primeiro cargo político em 1979 como Consultora para Assuntos Culturais da Secretaria de Estado e da Cultura.
Em seguida foi eleita deputada pelo PSD. Durante este período escreveu o célebre poema «A Defesa do Poeta» de onde sobressaiu o tão famoso verso “(…)Ó subalimentados do sonho! A poesia é para comer!

«Espartilhos» não coabitavam com a sua personalidade, e as regras impostas pelo Parlamento também não foram do seu agrado. Por isso ela explica porque aceitou o cargo através destas palavras: «Fui deputada porque me pediram para introduzir o discurso cultural no Parlamento.»
No entanto em 1987 voltou a candidatar-se a deputada, através das listas do PRD (Partido da Revolução Democrática).
A sua terra nunca ficou esquecida, aderindo à Frente de Libertação Açoriana e aceitando escrever a a letra para o Hino dos Açores.

Mas para a poetisa, a única forma de fazer verdadeira política era através da poesia.

Citação: A poesia é , acima de tudo, o principal agente da revolução; não daquela historicamente dada, mas da revolução permanente que o sujeito impõe a si mesmo ao «acusar a história de nos ter escondido que todas as revoluções foram até hoje desnaturados exercícios da verdadeira» (revolução).

Há a acrescentar que nem sempre a sua obra literária foi bem aceite pelo governo vigente daquela altura. Foram-lhe censurados muitos trabalhos como: «Antologia da Poesia Erótica e Satírica» de 1966, pela qual foi condenada a três anos de prisão com pena suspensa, O Homúnculo de 1965 e a peça «o Encoberto» de 1969.

Sempre se considerou uma escritora independente ; sem quaisquer influências de outros escritores ou tendências para estilos catalogados. No entanto, segundo alguns estudiosos, na obra de Natália Correia, podem notar-se influências de Teixeira de Pascoaes e do seu conterrâneo Antero de Quental.
Sob o ponto de vista estilístico consideram-na uma Romântica, Barroca ou mesmo Saudosista, podendo-se constatar também uma bem marcada influência Surrealista através da sua escrita sarcástica, irónica, com associações fónicas e imagéticas.

VIDA AMOROSA – LIGEIRA ALUSAO

Apenas aqui deixo registado que casou várias vezes, não se adaptando, como é compreensível, ao papel de dona de casa. Cito palavras de própria poetisa: «Tudo o que seja fogões e panelas horroriza-me(...) ».

O SEU CONCEITO DE PATRIA

Influenciada pelas teorias do monge medieval Joaquim Fiore, a noção de Pátria, irá sofrer uma transformação evolutiva, e em lugar de Pátria passará a existir uma Mátria. Natália Correia preconizava que o masculino e o feminino tinham tendência a aproximar-se cada vez mais, até se tornarem num único ser, mas teria de haver um período intermédio, onde as mulheres desempenhariam o papel preponderante. Segundo palavras da poetisa: «As mulheres quando são grandes são superiores aos homens, porque são mulheres e homens ao mesmo tempo...» «(...) O mundo só se salva se elas tomarem conta dele(...)».

Não se dando por satisfeita ainda arquitectou um terceiro conceito de Pátria realmente perfeita; a Fátria, inspirada na ideologia da Fraternidade e Igualdade.
Teve um programa na RTP intitulado «Mátria» onde apresentava mulheres de grande vulto do nosso país, em vários campos culturais.

IDEAIS RELIGIOSOS

Em relação à crucificação repudiou-a dizendo: «Que as forças inebriantes da vida o despreguem da cruz, para que Cristo não seja sofrimento mas alegria».
Natália Correia pretendeu recuperar o sagrado mas sob o ponto de vista pagão.
O seu enlevo pelo paganismo deveu-se, sobretudo, à educação dada por sua mãe.
Considerava-se também uma espiritualista, devido a estranhas experiências por que passou. Achava-se dominada por espíritos ou energias; acreditava ser portadora de poderes sobrenaturais.

Fernando Dacosta afirmou tê-la visto fazer parar a chuva num comício de Jorge Sampaio, na sua candidatura à Câmara de Lisboa. Ele próprio relatou: «(...) com gestos imprevisíveis dirigia-se para lá do visível(...) ou (...) vi-a fazer parar a chuva, retroceder agressores, imobilizar loucos(...)».
Para confirmar tudo o que foi dito sobre este assunto apresento dois versos dum poema dela: «Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes / Creio no incrível, nas coisas assombrosas(...)».

O BOTEQUIM

Em 1971 abriu na Graça, com Helena Roseta e outras mulheres da cultura portuguesa, um bar chamado O Botequim. Aí foi o ponto de encontro para muitos políticos e intelectuais. Comiam, bebiam, confraternizavam, diziam poesia e até cantavam.

E é , quanto a mim, um local a considerar, como tantos outros que já temos, de grande importância na nossa vasta tradição intelectual.

Para terminar a minha intervenção, acrescento apenas que Natália Correia, devido à sua forte e pouco comum personalidade, foi muitas vezes catalogada de marginal, coquete e excêntrica.

Em relação à sua obra disse ela: «Vai ser preciso passar uma década sobre a minha morte, para começarem a compreender o que escrevi».

LINGUA MATER DOLOROSA

Tu que foste do Lácio a flor do pinho
dos trovadores a leda e bem-talhada
de oito séculos a cal o pão e o vinho
de Luís Vaz a chama joelhada

tu o casulo o vaso o ventre o ninho
e que sôbolos rios pendurada
foste a harpa lunar do peregrino
tu que depois de ti não há mais nada,

eis-te bobo da corja coribântica:
a canalha apedreja-te a semântica
e os teus versos feridos vão de maca.

Já na glote és cascalho és malho és míngua,
de brisa barco e bronze foste língua;
língua serás ainda... mas de vaca.

31/10/2009
Liliana Josué