Pagª 33 - EDIÇAO NºXLVII
, III NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
HORA MINGUADA
Conto
por João Jurtado
A Maria chorava a morte do filho. Foi uma coisa inesperada. Ele estava bom, não tinha nem uma pequena dor de cabeça. Que podia esperar que a morte o surpreendesse de repente? Menino saudável e cheio de vida. Os seis meses de vida eram prova disto, nunca tinha ido com ele ao hospital.
Gordo e forte, o rapaz era na verdade um poço de saúde, dava e vendia saúde. Não era de espantar que todos os vizinhos gostavam de o ter nos braços e orgulhosamente o exibir como troféu. Todos os vizinhos gostavam dele inclusive a Fulana.
A Fulana era a visita diária. Todos os dias, ela estava a bater a porta, mesmo as doze horas em ponto. Se fosse hoje, ela, a Maria a conjurava e não a deixava entrar, nem por todo dinheiro do mundo, mas foi há anos e ela ainda estava inexperiente. A Fulana lhe apanhou desprevenida com a pouca idade e experiência, acontece a todos.
Ela havia vindo a pouco tempo de Fogo com apenas 15 anos. Era o primeiro filho. Ela e o marido eram de Fogo. Nascidos e criados lá, como podia saber que a Fulana era o que era? Não é que não foi avisada, mas não acreditou. A mulher do filho da Fulana havia alertado a Maria pelo perigo da visita da sogra, a Fulana, mas a Maria não acreditou. Coisas da sogra e da nora.
Agora tinha a sua frente o corpo frio e hirto do filho. O rosto sereno e quase sorridente, tal um anjo contrastava com os pingos de sangue que saia pelo nariz, marca inequívoco da razão que fez o João Manuel partir para o paraíso.
Como poderia a Fulana, vizinha mais próxima e que mais vez lhe visitava ignorar tamanha desgraça e não aparecer nem para dar uma palavra de conforto? Como poderia, com tanta gritaria e lamentações?
Tudo foi de repente. Tal como todos os dias a Fulana chegou meio-dia em ponto.
Nem entrou, foi até a soleira da porta e cumprimentou:
-Bom dia, Maria!
-Bom dia, Nha Fulana!
-Como estão por cá?
-Nas graças do Senhor Deus!
-Que menino lindo! Parece anjo, Maria. Parabéns. Bonito e gordinho. É um orgulho
ter um filho assim. Seu João Manuel vai ser um belo homem quando crescer!
-Nha Fulana, ele é como as outras crianças!
E a conversa praticamente terminou pouco depois e a Fulana foi-se embora. Minutos depois da saída da Fulana começaria o princípio do fim do seu querido João Manuel. Ai se fosse hoje, ele não morria de certeza. Mas ela era ignorante e não acreditava no que era óbvio.
Do nada o João Manuel começou a se contorcer de dores infernais. A febre tomou conta do coitado, rapidamente a temperatura subiu tanto que era capaz de se estrelar um ovo na pele dele. E o pescoço? Coisa que Maria nunca tinha visto. O coitado, sem mais nem menos, torcia o pescoço, como se duas mãos invisíveis estavam a lhe espremer o pescoço e a torcer-lhe. Ela não sabia, hoje sabe que eram mãos da Fulana…
Na ignorância da juventude, se fosse hoje não cometeria este sacrilégio, correu com o miúdo para o hospital. Erro fatal, horas depois regressaria com o corpo sem vida nos braços e no lençol branco e alvo três gotas de sangue «vivo» sinal inequívoco da razão da morte. O sangue «vivo» foi expelido pelo nariz. Ele foi comido pela bruxa e a bruxa era a Fulana.
Durante muito tempo, do nada, a Fulana deixou de falar com a Maria. Da amiga das visitas diárias e sempre a mesma hora, meio-dia, passou a uma ilustre desconhecida. Ou melhor a Fulana pôs-se «de mal» com a Maria. Mas a Maria iria ter outro filho, não iria ficar sem nenhuma criança.
Também iria ficar esperta e cuidar melhor do filho. Iria saber distinguir qual era a doença de Deus e qual a doença do diabo. Iria levar para hospital apenas e só quando a doença fosse de Deus.
A doença de diabo, se ela soubesse como veio a saber e não deixou que nenhum
outro filho fosse comido pela Fulana, era para ser tratado de maneira diferente.
Devia pegar na criança e correr com ela para a casa da vizinha. Bater a porta
com todo a força e chamar pela vizinha:
-Fulana, Fulana, abre a porta já!
-O que é?
-Sua bruxa de rabo cumprido! Você comeu meu filho, meu Zézito. Ou você liberta
ele ou dou cabo de você.
-Ele está com febre mau, os brancos dizem meningite…
-Qual meningite, qual quê, sua bruxa, rabo «pangado». Você tem que curar meu
filho! Toma ai está ele.
Colocaria a criança no chão no meio da porta da Fulana e obrigaria a Fulana a saltar o miúdo por três vezes e a Fulana teria que fazer remédio e dar ao miúdo, nem que fosse água fria.
-Tenho remédio para esta febre, entre Maria, não precisa levar seu filho ao
hospital. Toma e dá para ele.
-Eu? Não, você é que tem que o dar! Achas que sou parva? Você comeu meu João
Manuel, mas não vai comer mais nenhum!
-Vou curar o Zézito! Mas não sou bruxa, Maria. Foi a mulher do meu filho, aquela
desgraçada da Josefa que me encheu de má fama. Maldita seja ela…
-Se você não tivesse comido o filho dela, ela não colocava fama em você, sua
Fulana bruxa feiticeira.
A Maria nunca mais perderia um único dos muitos filhos que veio a ter. Sempre que tivessem a mais pequena dor de cabeça batia a porta da Fulana.
A Fulana nunca mais visitou a Maria, nem nas horas normais e muito menos nas horas impróprias, onde se viu visitar alguém na hora minguada, meio-dia?
Depois da morte do João Manuel a Maria ainda teve uma visita da Fulana ao
meio-dia, foi quando nasceu o Zézito, mas foi a ultima visita da Fulana.
João Furtado
Praia, 21 de Outubro de 2009
A NOIVA DE PRETO
Conto por João Furtado
A Sofia estava no último ano do Liceu. Ela tinha boa nota e queria continuar com média alta para poder ser merecedora de uma bolsa de estudos. Sabia que os pais não tinham meios para lhe pagar e os irmãos ajudavam, mas não queria ser uma sobrecarga. Queria estudar por mérito próprio. A ordem era estudar, estudar, estudar.
Sabia que tinha de ir ao casamento da Lolita. Tinha que perder horas, talvez todo o fim-de-semana com um casamento que se adivinhava terminado desde o início, mas não podia faltar. Não podia fazer uma desfeita desta à uma amiga de há longos anos, a prima querida.
Não podia faltar ao casamento e nem queria suspender o estudo nem um minuto, por isso, levantou cedo naquela manha igual a muitas outras. Uma manha de sol e vento. O sol e o vento que tudo seca. Pegou nos cadernos e livros e foi até sala estudar. Ela tinha o PGI - Prova Global Integrado.
Abriu um livro e começou a ler. Ainda não tinha lido uma página, quando o
telefone começou a tocar. «Que seria naquela hora?» pensou, levantou e foi
atender:
-Alohhhhh
-Bom dia, sou eu, a Lolita!
-Lolita, que esta a passar, você esta triste? Não parece nada uma mulher que vai
casar no próximo sábado!
-Estou bem e deixa-te de troça, bem sabes que não desejo este casamento!
-Então porque casas com ele? Já não estamos no século XIX, estamos quase no XXI.
Estás grávida? Mesmo se estivesses, agora o que há a mais são mães solteiras.
- Tu não entendes nada, Sofia. Estamos noutros tempos, mas de mim ninguém faz
troça. Ele abusou de mim e tem que casar comigo.
- Mas vais viver ao lado de um homem a vida toda, só porque aconteceu o que não
devia?
- Ele vai saber quem sou eu, ele vai saber!
- E tu já sabes quem é ele? Olha que cada pessoa é um mistério. Ainda estas a
tempo de desistir desta loucura.
- Nunca, casarei, nem que seja a ultima coisa que faça neste mundo!
- Continuas a ser a mais teimosa da família!
A Sofia deu a entender que queria desligar o telefone, que a conversa havia
terminado, que…Já que não conseguia convencer a prima…A Lolita entendeu e disse:
-Mas não foi para receber teus conselhos que liguei, Sofia, liguei para te dizer
que vais ser a minha madrinha!
-Como? És maluca? Há três dias de casamento é que você me diz?
-Tens a certeza que te digo só agora? Tenta lembrar das nossas conversas…
Sim ela lembrava, a Lolita sempre a tinha dito que era ela quem seria a madrinha
do casamento dela. Até esperou que fosse, mas como os acontecimentos se
precipitaram e como ela nunca mais falou nada sobre o assunto, esqueceu,
esqueceu pura e simplesmente.
-É difícil dizer-te não, mas…
-É impossível dizer-me não, és minha madrinha e pronto.
-Onde irei sair com a roupa de madrinha em três dias?
-Não precisas, qualquer vestido serve, se tivesses tempo…, não deixa para lá,
qualquer vestido serve. Não vai ser de cerimónias, o casamento vai ser simples.
-O que querias dizer e não falaste?
-Deixa para lá!
-Fala, sabes que também posso ser teimosa, quando quero, fala!
-Farias um vestido de saco, daqueles que trazem milho!
A Lolita deu uma gargalhada que mais pareceu um grito de desespero e desligou o telefone, sabia que a Sofia iria ser sua madrinha. A Sofia também desligou a telefone e volto a sentar e a estudar. Sentiu-se triste pela Lolita, uma forte tristeza, sem dar por isso, as lágrimas começaram a lhe escorrer face abaixo. Sabia do sonho da Lolita. De quase todas meninas, principalmente do interior de Santiago.
Entrar virgem na igreja. Da cerimonia pós-casamento. Da exibição publica do lençol com vestígios da virgindade guardada e oferecida ao noivo. A família do noivo em procissão, dançando e cantando, até a casa dos pais da noiva entregar a prova da honestidade. Os tempos deixaram de ser o que eram, mas o orgulho e a honra nunca morrem. Mas para a Lolita tudo havia acabado a preço de uma boleia.
A Lolita havia lhe contado tudo. Havia confiado no Armando que ofereceu-lhe a boleia para a levar a casa. Nunca imaginara acabar numa pensão no Tarrafal ferida e humilhada no seu orgulho. Alias todos acabaram por saber.
A Lolita não era mulher para deixar passar em branco tamanha afronta. Não permitiu que o Armando lhe abandonasse. Não regressou para casa dos seus pais, mas sim para a família do Armando. O pai dela, que também sentiu-se ferido no orgulho familiar, colocou o Armando entre espada e parede, ou o Armando casaria com a Lolita ou a honra da filha seria lavada. A Sofia reviu tudo enquanto chorava. Chorava pela prima e amiga. A Lolita não merecia tamanha desgraça.
Não soube quanto tempo chorou. Não olhou para o relógio, mas teve a noção que
havia sido uma eternidade. Foi o telefone que a fez regressar a realidade de
novo. «hoje, não, este telefone não para de tocar. Será a Lolita de novo?».
Levantou e foi atender.
-Alohhhh
-Sofia! Sou eu o Jeremias, tudo bem?
-Tudo, mano, e tu? Como estas?
-Estou bem, mas você me parece triste!
-Não é nada, mano!
-E sim, Sofia, te conheço, tua voz esta a parecer que estavas chorando!
-Não é nada grave, foi a Lolita!
-Aconteceu alguma coisa com ela?
-Não, nada, ela vai se casar, no próximo sábado!
-E dai? Isto já sabemos…
-Só que ela esqueceu-se que precisava de madrinha e…
-E…
-Acabou de me ligar e me informar que serei eu a madrinha!
-É casa para choro? Olha, o José de Mato-Raia vai amanha e vou mandar uma coisa
com ele.
-Mas o José de Mato-Raia foi no ano passado e já esta a vir de férias?
-Não é bem férias. Foi apanhado numa rusga, já ouviste falar de «O AVIAO»?
-Não!