Pagª 22 - EDIÇAO NºXLVII
, III NUMERO DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poema de Arlete Piedade

A Vida
Que defina a vida? - O bater do coração?
O arquear do peito? - O silvo da respiração?
O sangue a correr? - No corpo, a circulação?
Os nervos a controlar? - A funcionar a razão?
Ou será o sentimento? - O afecto pelo irmão?
Talvez a ascendência? - Os pais que dão o pão?
Talvez a descendência? - O prazer da paixão?
E o reconhecimento? - A importância que nos dão?
Como pode a medicina presumir ter a definição?
Reconhece o que é mensurável - Que é o coração?
Apenas um órgão que se contrai? - Sede da emoção?
Se só conhece as funções do corpo, que está são?
Quando adoece, como aferir a medida da disfunção?
Qual será então a disciplina que pode fazer a união?
das dores do corpo físico com o sofrer da emoção?
Coluna Poética de Sá de Freitas

Marcas em nossas mãos
Olhando para as nossas mãos veremos,
Em suas palmas, indeléveis traços,
De lutas, de vitórias, de fracassos
E de outras coisas mil que já fizemos.
Nelas descobriremos que deixamos
Indícios de afagos, de agressões,
De pedras que atiramos, de lesões
Feitas n'alma dos que nós amamos.
Nelas escritos estão inapagáveis,
Os nossos gestos bons ou condenáveis,
Enfim... todas as ações que foram feitas.
Mas um estudo sério e mais profundo,
Nos mostrará que aqui em nosso mundo,
Só as Mãos de Jesus foram perfeitas.
Ainda há tanta vida a ser vivida
Quantos sonhos ficaram no caminho,
Quando viemos do «ontem» para o «agora»!
Quantos momentos bons já foram embora;
Quantas dores chegaram de mansinho!
Quantas promessas, quantos desenganos!
Quantos grandes amores fenecidos!
Quantos amigos desaparecidos!
Quantas marcas deixaram, em nós, os anos?
E tudo revivemos claramente,
Mas dos momentos bons pouco lembramos,
Muitos momentos maus vem-nos à mente.
Por que choramos a existência ida,
Por que o passado tanto lamentamos,
Se ainda há tanta vida a ser vivida?
A INTERESSEIRA
Quantas vezes te vi e não me viste;
Poemas tantos te escrevi, não leste;
Quantos suspiros meus, de amor, ouviste;
Quantas promessas fiz e tu não creste.
Quantos beijos te dei, não os sentiste;
Quanto te amei e tu não compreendeste;
Quando parti chorando tu sorriste,
Nem o aceno de adeus me respondeste.
Mas lentamente o tempo foi passando
Com esperança e fé eu fui lutando
E tudo o que eu sonhei fui conseguindo.
Quando soubeste vieste sagazmente
Me procurar, mas eu indiferente
Virei-lhe as costas e me afastei sorrindo.
SOFREMOS MUITO?
A cruz que arrastas pela vida afora,
Tal qual a minha, às vezes pesa tanto,
Que nos provoca o mais copioso pranto
E a esperança nossa se evapora.
Mas se olharmos com atenção lá fora,
Veremos com piedade e com espanto,
Que há cruz maior que a nossa, em cada canto;
Que há gente que soluça, grita e implora.
Se os pés ferimos, há os que não os tem;
Se a nossa vista é fraca, há os que não veem;
Enquanto andamos, há os que escalam serras...
Lembremos-nos: Há enfermos condenados;
Há nas ruas farrapos esfomeados;
Há milhares de vítimas das guerras.
Contemplando «The son of man» e outros quadros de Magritte...
Por: Se Gyn
Rene Magritte (1898-1967) era um artista que não tinha a verve imagética do Dali, bastante ligada à mitologia e, ao mundo onírico - até porque, nem aceitava a classificação de surrealista, preferindo dizer que sua pintura era de natureza metafísica, representanto uma espécie de realismo mágico.
Seu objeto de preocupação era outro - a reflexão sobre o simulacro da realidade,
da composição formal, de cenários e realidades, os quais apresentava alterados,
em alguns casos apresentação de conjuntos incoerentes, na disposição
surpreendente, na junção de certos objetos com uma interpretação insuspeita de
sua finalidade ou, na junção de partes ou membros do corpo humano com outros
objetos.
Essa idéia de ocultar o rosto do indivíduo atrás de objetos (na verdade, signos)
é perturbadora. Diante de um quadro seu, o olhar que se dirige imediatamente
para o objeto da retratação, mas ela não está lá, pronta para satisfazer o
espectador. Em troca da vista, ele recebe, quase sempre, um enigma ou um jogo de
imagem para ser decifrado.
No caso do famoso quadro «The son of man (1926)» aparece um individuo retratado
como um dândi, que é um tipo perfeitamente factível, assimilável pela mente do
espectador. Diante dele, o olho corre para o rosto, onde encontra na imagem
chapada, sobre o rosto, uma maçã verde.

«The Son of man» - Ver mais quadros de Magritte
Se o olho se fixa nela, o resto da imagem passa para um segundo plano. Se o expectador retrocede e contempla novamente o conjunto pictórico, este não faz sentido aparente e, o título parece disparate.
Se o olhar volta para o a charada da maçã verde, a mente começa a procurar um
sentido para ela, dentro do conjunto, mas falha.
Em algum momento posterior, que olha se pergunta se a idéia é mesmo de uma
imagem sobrepondo à outra ou se, ambas são autônomas ocupando o mesmo espaço,
num determinado momento, onde a maior cede parte da área para a menor.
Nesse sentido, Dali era mais evidente - seu mundo pictórico, à parte a
introdução e manipulação de imagens e signos míticos, de alguma forma se
relaciona com o mundo onírico - muito embora, não nos pareça comum, os sonhos
com girafas incendiadas, gavetas na barriga ou, elefantes dançarinos com pernas
de palito...
Quero dizer: num quadro de Dali, o olhar entra e fica capturado pela imagem,
onde a soberba técnica (quase renascentista) o leva a contemplar uma espécie de
realidade alterada, berrante, onírica, absurda, onde se entra, passeia, mergulha
e, de uma forma metafórica, experimenta, mas não sai dos contornos da imagem
pintada.
Talvez seja questão de personalidade. Dali, atrás de seu comportamento exótico e
pintura exuberante, queria, de qualquer forma queria ser aceito e querido pelo
público. Magritte não tinha tal pretensão ou, interesse imediato.
Sua pintura convida à reflexão, oferecendo uma charada visual a quem veja suas
obras e, aceite a captura não só da atenção da capacidade de reflexão.
Em boa parte dos quadros de Magritte, o espectador é obrigado a lutar com a
imagem que vê, pois lhe é imposta a sensação de que ali não há uma suposta
realidade - seja de que natureza for. Não. Ali há um retrato que a mente possa
reduzir a uma realidade concreta, isto é, uma imagem coerente.
E tudo parece ser montado, às vezes, com objetos e cenas banais, com simples
deslocamento de sentidos ou planos.
Um exemplo rápido: o quadro «Le Chateau des Pyrinées (1959)», onde o nossa mente
avalia o peso e a plausibilidade de uma da suposta e gigantesca rocha flutuando
no espaço, enquanto contemplamos a imagem.
Diante das imagens de suas pinturas, invariavelmente ocorre a degladiação entre
o que o olhar vê e, a mente tenta construir de conjunto imagético coerente.
- Uma amiga amiga me disse, que sentia como se fosse observada pelo olho
esquerdo do personagem de «The son of man», muito embora ali exista justamente
uma área onde o olho foi subtraído, tendo restado somente uma área indefinida -
como se o pintor não a tivesse deliberadamente pintado.
Mas, aí está, nossa mente teima em colocar um olho humano lá onde não está e,
nos retorna a idéia de questionamento daquele olhar, que retorna, como que nos
repreendendo pelo comportamento voieur...
Sem dúvida que, na pintura de Magritte há bem mais do que planejamento, criação
e, exposição e, técnica. Há um estudo deliberado no que tange à reação do
expectador e, um fatalismo quanto à obra pintada.
Ela só se realiza por completo na medida em que é contemplada e, ocorre os diversos e, seguidos fenômenos por parte de quem as contempla. O título só acrescenta, em termos de desafio.
A previsão e espera deste fenômeno tem algo de mágico, que se perpetua ao longo
do tempo. Dentro do conjunto pictórico das imagens perdura um truque aparente,
que é bem mais do que isso - conforme denunciou o próprio pintor na obra «La
trahison des images», nos desafia continuamente, pois a experiência anterior,
não parece ter real sentido, diante da nova.
A totalidade da imagem sugerida é frequentemente plácida, mas separando as
partes do conjunto, vai se verificando conflitos e, incongruências, como por
exemplo, o mar de um de ensolarado com o céu com núvens de tempestadade, ou um
ambiente ameaçador, sugerido não pelo disposição dos objetos, mas pela
supressão, inversão mudança na disposição de objetos ou partes deles ou, ainda,
cores utilizadas («The son of man», no primeiro caso, o já citado «L'Empire des
Lumieres», «Le Blanc-Seing (1965)» e, outros, nos demais casos).