Pagª 21 - EDIÇAO NºXLVII , III NUMERO  DE NOVEMBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

Agenda de EventosEmail BlogMotor de BuscaNewsletter AVALIE-NOSLivro de Visitas Anuncios Gratis HomepageAlbum FotosIndice Geral Arquivo

LUUANDA

De Luandino Vieira

Por Arlete Deretti Fernandes

As três narrativas reunidas neste livro, retratam a dura realidade dos musseques angolanos – os bairros pobres de Luanda, onde o próprio autor viveu. «Minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade. [...] Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência [...] é porque isso era – digamos assim – o aquário onde meus personagens e eu circulávamos», afirma Luandino.

Apesar da dura realidade, Luandino cria personagens inesquecíveis. Como “vavó” Xíxi e seu neto, que, sem trabalho e sem dinheiro, não dispensa a camisa florida ou o amor de Delfina, para desespero da avó (“Vavó Xíxi e seu neto Zeca Santos”).
Ou o Garrido Kam’tuta, atormentado pelo papagaio que ganhava as carícias que Inácia lhe recusava (“Estória do ladrão e do papagaio”). Ou “nga” Zefa e sua vizinha, que disputam a posse de um ovo de galinha (“Estória da galinha e do ovo”).

Essas histórias curtas, narradas com grande maestria e um colorido muito especial, buscam na oralidade inspiração para recriar a linguagem .
José Luandino Vieira, pseudônimo literário de José Vieira Mateus da Graça, nasceu em Portugal, em 4 de maio de 1935 e emigrou com os pais para Angola em 1938.
É cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição no nascimento da República Popular de Angola. Passou toda a infância e juventude em Luanda onde frequentou e terminou o ensino secundário.
Trabalhou em diversas profissões até ser preso em 1959 (Processo dos 50), é depois libertado e posteriormente (1961) de novo preso e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1954, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa.

Depois da Independência foi nomeado para a Televisão Popular de Angola, que organizou e dirigiu de 1975 a 1978; para o D. O. R. (Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA) que dirigiu até 1979; para o I. A. C. (Instituto Angolano de Cinema) que organizou e dirigiu de 1979 a 1984.

Membro fundador da União dos Escritores Angolanos exerceu a função de Secretário-Geral desde a sua fundação – 10-12-1975 – até 31-12-1980.

Foi Secretário-Geral Adjunto da Associação dos Escritores Afroasiáticos, de 1979 a 1984; e de novo Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos, de 1985 a 1992.

Após o colapso das 1.ªs eleições em 1992 e do recrudescimento da guerra civil, abandonou a vida pública, dedicando-se unicamente à literatura.

Agraciado com o Prêmio Camões em 2006, recusou a premiação.

Obras publicadas:

A Guerra dos Fazedores de Chuva com os Caçadores de Nuvens
Guerra para Crianças
(1.ª edição, 2006)

«Fora de Colecção - Infanto-Juvenil», n.º 61
Com ilustrações a cores
Nosso Musseque
(1.ª edição, 2007)

«Outras Margens», n.º 68
A Vida Verdadeira de Domingos Xavier
(1.ª edição, 2003)

«Outras Margens», n.º 18
Nós, os do Makulusu
(1.ª edição, 2004)

«Outras Margens», n.º 26
João Vêncio: os Seus Amores
(1.ª edição, 2004)

«Outras Margens», n.º 29
Luuanda
(1.ª edição, 2004)

«Outras Margens», n.º 36
No Antigamente, na Vida
(1.ª edição, 2005)

«Outras Margens», n.º 39
Macandumba
(1.ª edição, 2005)

«Outras Margens», n.º 43
Velhas Estórias
(1.ª edição, 2006)

«Outras Margens», n.º 51
Lourentinho Dona Antónia de Sousa & Eu
(1.ª edição, 2006)

«Outras Margens», n.º 57
De Rios Velhos e Guerrilheiros - O Livro dos Rios
(1.ª edição, 2006; 3.ª edição, 2007)

«Outras Margens», n.º 58
Vidas Novas
(1.ª edição, 2007)

«Outras Margens», n.º 60

ENTREVISTA COM O ESCRITOR EM 1994

Luuanda

«[...] A questão da fome, a questão da repressão, a questão de surgirem personagens de camadas e classes sociais que, até aí, eram segregadas da literatura, parece-me (hoje, a esta distância, tanto quanto me vejo, até como personagem do meu próprio destino), parecem-me correctas... Quando escrevi o Luuanda a minha preocupação era ser o mais fiel possível àquela realidade.

Se a fome, a exploração, o desemprego, surgem com muita evidência, não se trata de uma atitude preconcebida, de uma atitude consciente. E porque isso era — digamos assim — o aquário onde meus personagens e eu circulávamos...

A questão da linguagem já não é tão inocente assim... Muito embora não pretendesse fazer uma cópia fiel da linguagem utilizada pelas camadas populares luandenses. Tenho que reconhecer — para o caso do Luuanda — que em certa altura eu achei até que teria um significado político: demonstrar que, na própria língua do colonizador, a nossa diferença cultural nos permitia escrever de modo que era difícil, ao próprio colonizador, entender o nosso código linguístico.

Mas essa parte deliberada na criação de uma linguagem é apenas uma excrescência. Porque o meu intuito era (não consegui, com certeza!) criar uma linguagem ao nível literário a partir dos mesmos processos e das estruturas linguísticas bantas da região de Luanda. Que fosse homóloga da linguagem popular e não a sua cópia ou a sua reprodução [...].»

(Excerto de uma entrevista dada por José Luandino Vieira a Pires Laranjeira, em 1994, para a Universidade Aberta)

(Continua na coluna seguinte)




Em 1965, o júri da Sociedade Portuguesa de Escritores atribuiu o Grande Prémio da Novelística a um jovem escritor, então desconhecido. A obra era o livro de contos Luuanda, e José Luandino Vieira o seu autor. Com a particularidade de, na altura da atribuição do galardão, o autor estar prisioneiro num campo de concentração, a cumprir uma pena de 14 anos por «práticas terroristas».

Luuanda viria a ser publicado por Edições 70 em 1972 - a sua 2ª edição seria mesmo apreendida e a Editora multada em 30 mil escudos, por despacho assinado pelo director-geral da Informação.

Aliás, a pedido do Editor testemunhariam neste processo Ferreira de Castro e Jorge de Sena, com este último a afirmar «o papel primordial no desenvolvimento da literatura angolana de expressão portuguesa».

Obra ímpar pelo seu estilo - que inovava no uso da língua, fortemente marcada pelo português falado em Angola, como afirmaria Augusto Abelaira (Presidente do Júri que votou o prémio),- pela capacidade de criação literária, pela feitura de um universo novelístico, Luuanda foi, na altura, o texto que revelou um autor que se conta hoje entre os maiores da literatura de expressão portuguesa.

REFERENCIAS:

VIEIRA, José Luandino
Luuanda : estórias/ José Luandino Vieira - São Paulo: Companhia das Letras,2006.

Comentário do próprio autor, em uma das Mesas de Escritores, no III Encontro de Professores de Literaturas Africanas, na Universidade Federal do Rio de Janeiro em
novembro de 2007.

Algumas páginas da Web.

 

A NOIVA DE PRETO - Conto por João Furtado - Continuação - (Ver inicio)

-«O Avião» em uma discoteca que fica perto do Aeroporto de Lisboa, um casco de avião. Compraram e transformaram em uma discoteca…
-Sim…
-Ele esteve lá a se divertir e a rusga o pegou. Sabe, ele ainda não tem documento e com isto de União Europeia há mais rigor. Ele até teve muita sorte, foi aconselhado a deixar o Pais. O pior é quanto prendem e levam escoltado até dentro do avião.
-Hum…
- Não diga a ninguém que ele vai ser repatriado.
- Esta bem! Oh, é verdade… Manda-me um vestido para o casamento.
-Esta bem, mando…
-Uma coisa simples, tá?

A rotina do Armando não havia se desviado nem um milímetro da previamente traçada há muitos anos. Continuava a sair cedo e a regressar tarde, quando regressasse. Continuava a gastar do que havia ganho na Europa com amigos, principalmente de sexo feminino. Não teve tempo nem para tratar dos «papeis» necessários para o casamento, foi um primo quem teve de fazer este trabalho. Ele tinha afazeres mais importantes para executar, a sua rotina habitual.

Se tivesse parado e reparado na Lolita, teria notado que ela estava cada vez mais triste, mas também, cada vez mais determinada à executar um plano que ninguém conhecia. Mas para Armando Soares outros valores mais importantes se sobreponham.

O Sábado estava muito próximo, era no dia seguinte e ainda ele não tinha se lembrado que não tinha escolhido nem madrinha, nem padrinho, foi o primo que o lembrou. Encontraram-se nos Orgãos, ele vinha da cidade da Praia com o «Patrol» cheio de meninas e o Primo que tinha ido visitar o José de Mato-Raia foi com este beber uma cerveja.

Foi precisamente no Mercado dos Orgãos. Enquanto comiam carne de porco frito e bebiam cervejas e grogue o primo do Armando disse para este:
-Armando você não nos diz quem vai ser tua madrinha e teu padrinho?
-Ó pá! Sabes que não me lembrei nem da madrinha, nem do Padrinho?
-O casamento é amanha!
- Amanha?
-Ora, ora, o noivo não sabe se casa amanha, isto é mau!
-Esta bem, deixa ver!

O Armando meteu a mão esquerda no bolso e tirou o telemóvel e ia ligar, mas notou que esta sem rede:
-Não tenho rede… posso ligar?
Perguntou para a moça que estava a servi-los se podia usar o telefone que estava sobre o balcão. Era um telefone com um contador.
-Sim podes, mas se afastares alguns passos nessa direcção consegues ter rede.
O Armando seguiu o conselho providencial da moça e deu alguns passos para o lado sul e conseguiu ligar:
-Alo Margô
-Oi Armando, tudo bem?
- Amanha estarás de trabalho?
-Não, estarei de folga, folga total, protegida pela Aviação Civil. - Concluiu rindo.

-Então vais ser madrinha, vais ser minha madrinha!
-Eu? Tua madrinha? Não estás a delirar?
-Prepara-te, amanha as 15 Horas na Igreja dos Picos!
-Tenho opção de dizer não?
-Não, a única opção é sim e está tomada! Boa noite e sonhos felizes.
-Para ti também!
Desligou e tornou a ligar, alguém atendeu.

-Olá boa noite!
-Boa noite, preciso de ti!
-Então diga!
-Podes me servir de padrinho?
-Já sou teu padrinho, Armando!
-Vou me casar amanha e não procurei padrinho!
-Procura, estas a tempo, mas eu não, para bem de todos, nem devo estar presente! Eu não existo! Evita ligar para mim… e se ligares…limpa o meu numero e troca o teu. Já sabes como me fazer chegar as mãos, o teu novo número. Isto não é brincadeira, como é o teu casamento…
-Esta bem, vou seguir as instruções, como sempre!
-Acho bem!

O Armando desligou a telemóvel, esta não, desta não esperava, ser repreendido naquele momento, não. Abrir o telemóvel, tirou o chip e deitou fora. Voltou para onde estavam os amigos a divertirem e disse para o primo:
-O padrinho vai ser tu! Vais ser meu padrinho, Zeverino.

A Lolita continuava a preparar-se sozinha. O casamento era amanha, Sábado, a tradição pedia que ela fosse sentar e ouvisse conselhos, mas ela disse que não podia. Que estava a se sentir mal e que precisava ficar sozinha. As mulheres acharam que ela estava grávida, ela não sabia se estava ou se não estava, mas para poder ficar sozinha, deu a entender que elas estavam certas. Deixaram-na ir «descansar».

Enquanto as famílias, os parentes mais próximos e os amigos se divertiam, comendo e bebendo, cantando e dançando, o noivo estava algures num hotel rodeado de meninas da Praia e ela a Lolita dava últimos retoques no vestido de noiva. A Lolita, que sabia coser, fez o seu próprio vestido e não mostrou a ninguém, nem mesmo a sua prima e grande amiga, Sofia!

Terminou. Deu os últimos retoques no vestido. Disse para consigo «serei forte, amanha, irei fazer tudo como planeie e ninguém irá conseguir me convencer». Cansada de ser forte chorou, chorou e chorou sobre o vestido adormeceu soluçando de tristeza e mágoa e de um destino que nunca sonhou para ela.

Na igreja o noivo, o Armando Soares, e todos estavam a espera da chegada da noiva. Tudo indicava que a festa ia ser rija, pela pompa e circunstancia que um acto tão nobre como aquele merecia.

Ouviram o carro chegar e parar à porta da Igreja, todos voltaram para ver a noiva no seu cortejo triunfal e viram…

A Lolita entrou nos braços do Francisco, que fez a questão de ir com metade da cara limpa e outra metade cheio de barbas que fazia lembrar o Fidel Castro, toda de negro até o véu. Mais parecia uma viúva que uma noiva. Foi como se um balde de água fria caísse sobre a cabeça daquela gente.

Para desanuviar um pouco o ambiente, o Padre durante a homilia diria que há muitos e muitos anos, em Portugal, em geral e na sua terra, Trás-os-Montes, em particular, os noivos vestiam-se de preto. O preto agoirava felicidade….

João Furtado

Praia, 16 de Julho de 2009