Pagª 5 - EDIÇAO NºXLIII , III NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Colunas de Francis Raposo Ferreira

AMALIA 1920-1999

Ouvindo-a cantar, fiquei encantado,
e eu, que de fado não gostava,
tornei-me, do fado, tão apaixonado
que sem o meu fado diário não passava.

Sem ser santa, esses milagres fazia,
somente com o poder da voz,
transmitindo-nos um sentimento de alegria,
como se cantasse só para nós.

Era tão simples e despretensiosa,
na sua forma de viver e estar,
que possuindo voz tão portentosa,
afirmava não saber cantar.

O perfume da sua classe espalhou,
e afirmamos, sem chauvinismo nacional,
que com as maiores figuras ombreou,
fazendo respeitar o nome de Portugal.

Senhora do fado o seu nome no mundo,
mas fadista do povo, preferia ser,
e a sua partida foi um golpe profundo,
nas gentes deste povo que a viu nascer.

Foram muitos os poetas que cantou,
mas era sua a «estranha forma de vida».
E, por tudo quanto nos deu e deixou,
nunca, nunca, a diva poderá ser esquecida.

 


Recordar o passado

Em tempos de ditadura
Fomos pais de emigrantes,
Eram tempos de vida dura
Que nos fizeram viajantes.

Conquistada a democracia
Abrimos as nossas portas,
Outras gentes, aqui se recebia
Gentes que se sentiam mortas.

O trabalho vai escasseando
E a culpa não é dos imigrantes
Que até nós vão chegando.

E é fruto de uma crise Mundial
Não podemos esquecer o Antes,
Quando saíamos de Portugal.


Filhos da Puta

Vida, afinal o que é a vida,
Não creio, não acredito,
Que seja só uma palavra proferida
Sem sentido, como um mito.

Então. Afinal o que é a vida?
Se é um caminho a percorrer
Porque nos tapam a saída
E nos obrigam a andar a sofrer.

A vida poderia ser tão bela,
Mas torna-se tão sofrida
Porque alguns tomam conta dela.

A vida torna-se tão curta,
Quando podia ser tão comprida,
Só por causa de alguns filhos da puta.

 



Construir o futuro

Quando, com 50 anos, um homem consegue olhar para o seu passado e descortinar na linha da sua vida, uma linha, mesmo que muito sinuosa, repleta de momentos de felicidade, então, esse homem, tem de agradecer por todos os anos que já viveu.

Mas se, no momento de olhar para trás, ele descobrir que está a viver a fase mais feliz da sua vida, então, ele, tem de agradecer por ainda lhe ter sido permitido viver mais aquele dia.

Este olhar para trás, e descobrir tamanha felicidade no acto mais natural que há em cada um de nós, viver, só fará sentido se a tal linha, mesmo que sinuosa, tiver sido construída num misto de amor ao próximo e respeito para consigo mesmo.

Todos nós somos confrontados, uns mais, outros menos, com situações onde temos de nos entregar a acções de ajuda aos outros, eu, por força da minha actividade profissional, mas também por vontade e determinação própria, tenho dedicado os últimos 20 anos da minha vida a desenvolver acções que visam a reinserção de pessoas, e grupos sociais, que, por qualquer motivo, se viram marginalizados pela sociedade, sendo que, na maioria dos casos, foram, e são, eles mesmos que se auto-marginalizam e olham a sociedade como sendo ela a marginal.

Durante todo este espaço de tempo, convivi com pessoas dos mais variados níveis sociais, não é só na classe pobre que existem marginais e marginalizados, mas, mais recentemente, envolvi-me num projecto onde essa franja da nossa sociedade, os marginalizados, são jovens e posso garantir-vos que tudo o que tinha visto e vivido até essa altura me parece infinitamente pequeno, perante quadros de verdadeira necessidade de reinserção social.

Hoje não olharei, nunca mais, para o meu passado, enquanto cidadão consciente das minhas obrigações, morais e sociais, como o tinha feito até a esta data, ou seja, se a tal linha já era, por si, bastante sinuosa, hoje, acho que a linha que a sociedade foi construíndo, paralela à minha, é ainda muito mais sinuosa e que me compete a mim, como pai que sou, ajudar a torná-la mais recta, para que todos esses jovens possam construir uma linha, se não paralela à da minha filha, pelo menos muito menos sinuosa do que aquela que lhe oferecem no novelo que é a sua vida actual.

Francis Raposo Ferreira


O AMOR

Amor! Afinal o que é o amor?

Quantas vezes dizemos:

- Amo-te, amo-te muito.

E, logo depois, nos questionamos se aquilo que sentimos dentro de nós, será mesmo amor, ou será outra coisa qualquer, outro sentimento que nos confunde.

Tanta gente fala no amor e, no entanto, pouca dessa mesma gente o sabe desenhar, o sabe definir. Pois é, esta é que é a grande realidade, todos falam de amor e poucos o sentem, pelo menos na sua verdadeira concepção e na sua mais elevada pureza, ou melhor, muitos o sentem, muitos têm a noção de quando são amados, de quando e quanto são queridos por alguém, mas muitos poucos têm a bênção de o conseguirem caracterizar, e esses poucos não são, ao contrário do que se possa pensar, aqueles que passam a vida a cantar o amor, e isto porque o amor não se diz, não se canta, pratica-se.

Então quem são os bafejados com tão grande bênção?

Somos todos nós. É verdade todos nós amamos e somos amados só que quando nós conseguimos definir e caracterizar o amor, ninguém se preocupa em interpretar os nossos sentimentos, isto é todos nós descrevemos o que é amor, enquanto somos crianças.

Amar alguém é sentir a falta desse alguém e não, a falta de alguém, é sentirmos a necessidade desse alguém e não, a necessidade de alguém, é sentirmos desejo por esse alguém e não, o desejo por alguém, é preocuparmo-nos com esse alguém e não, preocuparmo-nos com toda a gente, é acreditarmos nesse alguém e não, acreditarmos em toda a gente.

Infelizmente deixei passar a minha infância sem te poder mostrar o que sinto por ti, no entanto sinto a tua falta logo que me afasto de ti, sinto necessidade de regressar para junto de ti o mais rápido possível, sinto um desejo eterno por ti, preocupo-me permanentemente contigo e acredito em ti como se fosses eu próprio, como já não sou criança não consigo decifrar o que significam todos estes sinais.

Será que é amor?

Não sei, talvez um dia encontre alguma criança que esteja disposta a partilhar comigo a sua interpretação de tais evidências, talvez um dia eu reencontre a criança que fui e, ela, me ajude nesta minha dúvida.

Acredita que quando eu tiver a resposta, e só nesse dia, eu também direi que te amo, talvez eu até te diga que te amo muito.


Obs: se eu, por acaso, já te tiver dito que te amo, então é porque já me reencontrei.

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Francis Raposo Ferreira