Pagª 16 - EDIÇAO NºXLIII , III NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Prosas e Poéticas

 Por Ilona Bastos

Olhares

Tudo se resume a um olhar sobre o mundo e ao desvendar das maravilhas que encerra.

Já em criança o fazia: colhia flores, apanhava pedrinhas, folhas, conchinhas, e trazia-as para casa.

Acabavam, depois, por secar entre as folhas de um livro, perder-se ou ir parar ao cesto dos papéis, essas jóias tão acarinhadas. Agora não! Encontrei um cofre, que é este blog.

Aqui coloco as folhas e as flores que trouxe da rua. Aqui os guardo, expondo-os aos olhos do mundo, os vídeos que me comoveram, as músicas que me deliciaram, os excertos de livros que se me tornaram inesquecíveis.
Eis, portanto, as minhas jóias - o meu cofre!


Em primeiro plano, a funcionária de longos cabelos negros. Em segundo, uma fila longa e baixa de ficheiros. E sobre estes, em fundo transversal, uma janela larga sobre um retalho de vista lisboeta.

Uma linha de edifícios em traça antiga: alguns, pintados de novo, recuperados - brancas, as sancas e as varandas -, as paredes em azul vivo; outros, com aspecto degradado, as fachadas bege a descascar, os ferros das persianas enferrujados, as beiradas a desfazerem-se, enfeitadas de ervas daninhas.

Precisamente sobre estas construções de outros tempos, que os proprietários esquecem e os inquilinos amam ou deploram, voam os pombos, que depois desaparecem por entre as grades rendilhadas de uma varanda alta, prenúncio da mansarda em cuja janela se empoleira, curiosa, movendo activamente a cabecita, uma ave cinzenta, de pescoço verde nacarado.

Ao lado, uma pequena parcela de um edifício mais recente, talvez dos anos sessenta. E em seguida, impecavelmente pintada de rosa, uma construção mais baixa, com as suas janelas de portadas verdes e brancas, os vidros visivelmente lavados e brilhantes, o telhado precedido de um delicioso friso de azulejos em tons de bege, branco e verde.

Depois, outro esquecido dos tempos antigos, enorme, rosado, desgastado pelos anos. Mudo, cego, imóvel, não atrai os pombos nem as gentes. E aí se queda, já do meu lado direito, sem emoção.

Assim termina este quadro - janela que entretém a minha espera na Conservatória, enquanto a dita funcionária de longos cabelos negros fala pausadamente à senhora que, diante de si se senta, rodeada de pastas e papeis.

E o tempo continua a passar.


É difícil, sim, prosseguir esta caminhada solitária em que não existe resposta aos nossos apelos.

Como o conseguimos antes? Levados por um impulso inicial, que nada parecia deter ou refrear. Não contava, então, o silêncio que perseguia as nossas palavras.

Nem o eco, por vezes perturbante, das releituras insistentes que fazíamos, esperançados de encontrar a resposta na própria pergunta formulada.

Depois, não sei porquê, tudo se tornou diferente. Onde dantes se avistava um campo fértil - em que uma nova planta sempre se destacava, do solo surgida -, nasceu um deserto com as suas dunas, apenas interrompido por súbitos e tristes oásis, que mais faziam sobressair a desolação em redor.

Agora, lendo outrem que do mesmo modo esmoreceu, se apagou e deixou simplesmente um antigo rasto no ciberespaço, senti-me compreendida e acompanhada neste caminho solitário que ambas percorremos, cada uma por si, inicialmente inspiradas e felizes, mais tarde desiludidas e murchas, como a flor que brilhou ao sol e encantou, mas finalmente viu perdido o seu fulgor e se escondeu entre as páginas fechadas de um livro que ninguém lê.

Nem vejo o que escrevo, mas isso não interessa. Não é agora o desenho das palavras que me toca, nem a estética dos seus traços sulcando o papel - conta somente a torrente que da minha alma jorra e nesse desabafo intempestivo encontra inesperada pacificação.

Como eu, também tu percorreste esta via, indiferente à indiferença, auto confiante e esperançosa, adivinhando algo que nos últimos meses perdeu contornos e se esfumou, mas que uma súbita luz faz ressurgir no horizonte.

Talvez agora regresse.

Quem sabe o reencontro tenha acontecido e de mim para mim possa retomar o diálogo que o tempo interrompeu mas não calou em definitivo.


Rosto másculo, algo expectante, cabelo comprido, elegante, vestido à arqueiro, aproximou-se da entrada da clareira, indagando – o vento a mover-lhe a roupa e os cabelos.

Assim me surgiu, precisamente no momento em que pensava: somos mais do que esta aparência exterior, somos, na verdade, todo um mundo interior, composto do que vivemos, lemos, ouvimos, sentimos.

E a imagem – nítida, inesperada ficção – cruzou-se misteriosamente com a constatação quase prosaica, no fulminante segundo em que esta se me revelava.

Levantei-me, dei alguns passos e inclinei-me para alcançar o bloco e a caneta.

A visão permaneceu, esperando, no avesso da retina, enquanto os sons habituais – do comboio, do relógio, da água a correr, da televisão – inundavam o aqui e agora.

Quando comecei a escrever, estendeu a mão, para que a seguisse. E desapareceu, comigo, por entre o arvoredo.

 

Coluna de Maria Petronilho

 

Humildade

Contém-me
se venço
abraça-me
se ofendo
vem sempre comigo
sê a minha guarda

fecha a minha boca
meu olhar explana
reina em minha alma

permite que eu brilhe
somente no dia
de quitar a veste
que me foi doada.


Companheira Solitária

Na angústia
espero desesperada
tua voz que me falava
de tanta coisa e de nada
tua voz em que voava
te sentia me sentia
enlevada e embalada
companheira
solitária
ainda assim
amparava
meu esforço de ser
cada dia

sonhava
o teu rosto na palavra
seguia no teu sorriso
que nos meus lábios brilhava

agora
sinto-me pena
sem que a mais leve brisa
páre um segundo que seja
para erguer minha alma
para salvar minha vida!


De alegre se fez triste, que outros vampiros vieram !

Hoje «era» noite de festa... durante a noite, há 35 anos, os Capitães de Abril derrubaram a Ditadura.
Logo de madrugada (dormia com o rádio ligado sob a almofada) escutei a notícia e saí, com uma amiga, para a rua. Como nós, tantos outros portugueses, cheios de alegria!

Surgiram os cravos vermelhos, que os soldados enfiaram no cano das espingardas - vamos acabar com a guerra! Dia 25 abriram-se as prisões dos que ousavam pensar por si mesmos e respeitar os direitos humanos.

Sempre houve cantigas no Largo, perto da minha casa... hoje mal se escutou um canto triste e vozes que alto protestavam... Amanhã, dia da Revolução dos Cravos, darão o nome do Ditador a uma praça, na sua terra. Será homenageado o tirano, por ordem de quem tantos morreram.

Os homens da minha idade ainda não conseguem falar das bombas de Napalm, das emboscadas no mato, do fogo lavrando em África, do barulho dos tiros que lhes estremecem os pesadelos. Hoje, foram mais operários despedidos, já são cerca de quinhentos mil desempregados entre os dez milhões que éramos. A população decresce, envelhecendo na miséria. Não apetece cantar Abril!

Estou muito, muito triste... Ah, se outra Revolução houvesse como há 35 anos, surgiriam de novo os cantos que no peito guardamos!

25 de Abril de 2009