Pagª 11 - EDIÇAO NºXLIII
, III NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Maria da Fonseca - Poemas
VIVER EM HARMONIA
Ao nascer recebemos nossa vida
Com lágrimas, dor e perseverança,
E o esforço, a vontade e a aliança
De nossa mãe, companheira querida.
A luta dia a dia é renhida
Desde os primeiros passos de criança,
E pela vida fora com ‘sperança
De nossa dignidade percebida.
Qualquer que seja a raça, a minoria,
Crença, família ou fragilidade,
Assumimos viver em harmonia,
Ter p’lo irmão solidariedade,
Tratar seus valores com cortesia
E defender a sua liberdade.
PRENUNCIO DA PRIMAVERA
Penso espreitar-te daqui,
De mim ‘stás muito afastada,
Mas há pouco fui aí
E fiquei maravilhada.
Linda magnólia rosada,
Cada rebento, uma flor!
Cada pétala pintada
Pela mão do Criador!
A meio de Fevereiro
Primavera prenuncias,
E és sempre a que primeiro
Vens colorir os meus dias.
Apesar do teu recato
Bem junta à maternidade,
Atrais a vista e o olfacto
E encantas com amizade.
As abelhinhas felizes
Sugam o néctar das flores
Em cor-de-rosa e matizes,
Cumuladas de louvores.
O chão juncado de pétalas
Torna efémera a lindeza,
E só restarão as sépalas
Dentro de dias, princesa.
Serás bela novamente
A par de outras irmãs,
Verdes folhas de presente
Em orvalhadas manhãs.
HOLOCAUSTO
Sempre recusei imagens
Que da guerra me falassem.
Fotos, filmes e passagens
Que a maldade me lembrassem.
Meus parentes a sofreram,
Sem pecado cometerem.
Pelo sangue os ofenderam,
Quem sabe se até morrerem.
O tempo, que tudo cura,
Não afasta minha dor,
Nesta Terra em que perdura
O conflito, o desamor…
Agora todos lastimam,
Nem todos, que ironia!
Ainda há os que sublimam
Quantas mortes, que heresia!
O padecer dos que imploram
Aviva a minha memória.
Não são meus olhos que choram,
É minha alma em sua história.
Defendei os seus direitos,
Homens bons de coração.
Geri todos nossos feitos
Para bem do meu irmão!
A Lenda de S. Vicente
Reza a lenda que Vicente,
Feito mártir em Valência,
Suas relíquias levaram
Com devoção e prudência.
Seu destino, a nossa costa,
O cabo a que deu o nome,
Nesse Algarve muçulmano,
Até hoje de renome.
Assim nosso Rei primeiro,
Logo que foi sabedor,
Mandou vir rumo a Lisboa,
O corpo do Protector.
Em toda a viagem, contam,
‘Steve o Santo acompanhado
Por negros corvos atentos,
Não saindo do seu lado.
E quando a barca ancorou,
Uma procissão ‘sperava,
Levando então S. Vicente
Para a Sé que o aguardava.
O filho de Henrique, Afonso,
Tomou-o como Patrono,
A quem dedicou Lisboa
Onde dorme eterno sono.
No distinto brasão de armas
Desta tão leal cidade
Vêm-se os corvos e a barca,
Símbolo da Cristandade.
Esta a lenda curiosa
Pra todo o sempre presente
Na nossa amada Lisboa.
- Os corvos e S. Vicente -
Erasmus ultrapassa a fasquia dos dois milhões
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Cerca de 22 anos após o seu lançamento, o programa Erasmus já
ajudou dois milhões de estudantes europeus a estudar ou a
estagiar no estrangeiro. Já alguma vez pensou em estudar em
Barcelona ou fazer um estágio em Londres? Só no ano lectivo de
2007/2008, 160 000 estudantes e 27 000 docentes de
estabelecimentos de ensino superior europeus foram estudar ou
leccionar para o estrangeiro.
Os cursos seguidos noutro país são reconhecidos pela
universidade de origem do estudante, pelo que um ou dois
semestres no estrangeiro não são tempo perdido. Além de alargar
as perspectivas académicas, num nível pessoal, o programa
promove as competências interculturais e ajuda os estudantes a
tornarem-se mais independentes. Para contribuir para as
despesas, os estudantes recebem uma bolsa mensal de cerca de 250
euros (fixada em função da sua universidade de origem).
O programa também promove o intercâmbio de pessoal docente e a
cooperação entre os estabelecimentos de ensino superior em toda
a Europa e não só. Mais de 4000 estabelecimentos de ensino
superior de 31 países participam actualmente no programa,
incluindo 90% das universidades da UE. Este número deverá
aumentar com a adesão ao Erasmus da Croácia e da antiga
República jugoslava da Macedónia, ainda em 2009.
As bolsas do Erasmus também estão disponíveis para quem queira
estagiar em empresas ou outros organismos no estrangeiro. Esta
modalidade está a atrair um número crescente de estudantes,
tendo registado cerca de 20 mil participantes em
2007/2008.
Mais de mil milhões de pessoas passam fome
A fome afecta actualmente 1,02 mil milhões de pessoas, quase um
sexto da população mundial, de acordo com um relatório da FAO, a
agência da Organização das Nações Unidas (ONU) para a
Agricultura e a Alimentação, divulgado esta quarta-feira em Roma
durante a Semana Mundial da Alimentação.
A maior parte das pessoas subnutridas encontram-se na região da
Asia - Pacífico (642 milhões), seguida da África subsaariana
(265 milhões), América Latina (53 milhões) e da região do
Oriente Médio e Norte da África (42 milhões). Nos países
desenvolvidos, estima-se que 15 milhões de pessoas sofrem com a
fome. A ONU explica o número registado de pessoas afectadas, o
maior desde 1970, com a conjugação de uma crise económica com
uma crise alimentar. De acordo com as projecções mais recentes
das Nações Unidas, o número de pessoas afectadas pela fome
passará de 6,8 mil milhões para 9,1 mil milhões em 2050.
JORNADA CREPUSCULAR
A tradição das Tertúlias nos Cafés
Por Mário Matta e Silva
GOETHE deixou escrito que os cafés «são uma espécie de clube democrático (…) onde se pode ficar sentado durante horas a discutir, a escrever…»
Em Veneza, o Florian, guarda memórias de Byron, Dickens, Proust, Yourcenar, e muitos outros que mantinham ali os seus grupos. Em Paris, o Procope, não só guarda memórias revolucionárias, como as de carismáticos visitantes que lá tertuliaram, como, Diderot, Montesquieu, Baudelaire, Verlaine… Balzac resumiu assim tudo o que se podia, ao tempo, considerar sobre cada um dos cafés que frequentavam: «O café é o parlamento do povo.»
Esta frase não exclui a vivacidade dos grupos, formando elites, estilos, gostos, à volta das mesas onde o café arábico era alvo da degustação e do prazer, numa cumplicidade com o ambiente respirado e partilhado, de Arte Nova, entre espelhos, o ferro trabalhado, colunas, estátuas, mesas de mármore ou de madeira, cadeiras de boa madeira ou de couro.
Os cafés, a partir do último quartel do Sec. XVIII, (talvez por influência mais directa dos intelectuais estrangeirados) tornaram-se por certo no primeiro fórum socialmente plural. Muita poesia ou prosa, manifestos, tratados e abaixo-assinados foram construídos, lidos e discutidos pelas mesas dos cafés em várias épocas, nos mais dispares locais.
Porto, Coimbra, Lisboa, têm a sua tradição feita de boémios, de estudantes, de poetas, sustentando em suas mesas conversas acaloradas, piadas, anedotas tertúlias animadas…
Os poetas por excelência poderão ser considerados os grandes entusiastas dos ambientes de café, tornando-se visíveis, com os seus movimentos solenes ou desbragados, deixando símbolos de estilo com os charutos, as boquilhas, os isqueiros, as cigarreiras de ouro ou prata, as luvas de plica, os jornais e os livros que eram exibidos, a coqueluche do sexo feminino por perto, por vezes com requintes de dandys afortunados, misturando-se com os mais estouvados e irónicos românticos, alguns de pacotilha, sem eira nem beira. Durante longos anos os empregados de café foram pagos só através das gorjetas que recebiam.
Nesse frenesim próprio dos cafés de outrora, lembremos que, por exemplo, Pina Manique sentia à distância (ou simplesmente congeminava) os encontros «revolucionários» no Nicola ou no Botequim das Parras (1790), para onde ele mandava logo os seus moscas, ali em pleno Rossio, iluminado desde 1808 por candeias de azeite (cantado por Cesário Verde).
Pode-se dar nota aqui no Nicola, daquele exemplo do raciocínio repentista de Bocage, ao ser abordado por um policia: « -Quem és, de onde vens e para onde vais? – Eu sou o Bocage, venho do café Nicola e vou para o outro mundo se disparas a pistola.»
E não nos esqueçamos do antigo e famoso Café Gelo, (ligado aos desacatos do 1º de Maio de 1962). Herberto Hélder, por exemplo, é que levou Raul Leal para o Café Gelo, mas depois mudaram-se, como muitos outros para o Palladium, devido à hostilidade do ambiente político – revolucionário no Gelo.
Mas registe-se esta outra curiosidade: numa entrevista feita há 20 anos a António José Forte, este afirmou: «No Café Gelo encontrei a poesia na sua primeira forma bárbara, que é a forma do inicio de tudo.
Os cafés perderam-se, foram assassinados. Perderam-se, isto é, eu acho que perdi sobretudo o que me roubaram.»
E é forçoso afirmar pois que o ponto de encontro que animava a socialização das ruas ou praças, mais movimentadas, ou que se rasgavam de novo (como as Avenidas Novas em Lisboa) era sempre o café… como em alguns casos ainda o é hoje, felizmente.
Cada café consegue notabilizar-se à sua maneira, de acordo com a popularidade e a distinção dos seus frequentadores, aristocratas, burgueses ou do povo, anónimos ou não.
Mário Costa diz-nos que a Brasileira era «um misto de academia e de assembleia popular». Que marca pessoal deixou, por exemplo, Fernando Pessoa, no Martinho da Arcada? E Barbosa du Bocage no Nicola?
Mais próximo de nós, século vinte, Pessoa terá escrito muitos dos seus poemas ortónimos e heterónimos no Martinho da Arcada… e se formos às fotografias lá o vemos, numa delas, de 1928, em tertúlia onde são visíveis Raul Leal, António Botto e Augusto Ferreira Gomes…
Ligado à Brasileira do Chiado (1905) passou-se um episódio com José Régio, quando um dia este esperou horas por Fernando Pessoa, que ao chegar, esbaforido, lhe declara que ele é o Álvaro de Campos, porque «o Fernando não pôde comparecer».
Seria estafante para vós ouvirem uma simples enumeração dos «cafés de tertúlias» mas não vos pouparei à referência de alguns deles de Lisboa, que considerei ligados a frequentadores mais carismáticos, que se agrupavam em tertúlias, principalmente poéticas (as politicas, as de conspiração, as de estudantada, as do teatro e doutras artes, noutros planos, também sempre existiram).
Neste grupo posso incluir a Brasileira do Rossio, o velho Martinho, o Montanha, o Tavares, o Central, o Suisso, o Monte Carlo, o Abadia, no Palácio Foz, aos Restauradores (também muito frequentado pelas «borboletas» do «cabarets» Ritz e Maxim’s) o Café Portugal, o Paladium, o Aurora Peninsular, o Abel (de Abel Pereira da Fonseca) o Restaurante Irmãos Unidos… todos de chávena fumegante do moka, muitos deles pelas zonas do Chiado, do Rossio, dos Restauradores… ou então a Paulistana, na Fontes Pereira de Melo ou o Hermínius, para a Almirante Reis, (este, um dos poisos de Neo-Realistas) e ainda para o Cais do Sodré, também o Café Royal (com uma das melhores fachadas de azulejos de arte-nova, ou o Gibraltar e o Restaurante-Café Leão de Ouro, este com grande ligação ao Grupo Leão, dos Naturalistas / Realistas como Rafael Bordalo Pinheiro, José Malhoa…
Com mais um apontamento voltamos ao Martinho de Arcada. João Chagas permanecia ali até altas horas da noite só ou em grupo, e muitas vezes ouviu ali, fascinado, alguns poetas, entre eles Guerra Junqueiro.
Certo dia, Junqueiro, numa daquelas mesas, lia pela primeira vez trechos inéditos do polémico poema Pátria, no entusiasmo e agrado de muitos que o ouviam.
Outra figura de destaque no Martinho era Bulhão Pato, que vivia no Monte da Caparica, onde se dedicava aos longos passeios a pé, ao arranjo das flores campestres, e até à confecção das amêijoas, tinha por hábito passar horas naquele café do Terreiro do Paço, sempre que visitava a capital (consta que tal aconteceu dos 17 aos 83 anos) onde escrevia suas prosas e versos e se juntava aos seus companheiros literatos em assembleias literárias.
Ali será, como sabemos, o poiso dos primeiros modernistas, aqueles que, certamente, ali desenharam os três números do Orpheu (dois publicados) dos quais destaco a grande colaboração gráfica e poética do Almada, que muitas vezes é esquecido, mas com assento certo ao longo de mais de 60 anos no Martinho.
Na forma animada de tertúlias, a este café Martinho, se juntavam também Luís Montalvor, Ângelo de Lima, Mário de Sá-Carneiro, Santa Rita Pintor, Raul Leal, António Botto, Alfredo Guisado, assim como terá poisado, imaginariamente, Álvaro de Campos, com a sua Ode Triunfal… esses mistificadores ou alienados, como lhes chamaram à época, sob o ridículo e o escândalo que provocaram.
Foi no mesmo Martinho que tomou forma o poema interseccionista, «Chuva Obliqua» de Fernando Pessoa. Consta também, que mais tarde, no mesmo café tertuliavam Tomás Kim, Mário Saa, João Castro Osório, José Gomes Ferreira, Fernando Namora, João José Cochofel, Mário Dionísio e muitos outros, que, igualmente parariam por outros cafés, como o Royal, o Palladium, a Brasileira…
Os anos, as décadas, as gerações, (o principio do século, os anos 20, 30, 40, 50…) são marcos temporais que vão referenciando os grupos que prosseguem a tradição das tertúlias pelos cafés, deambulando ou habituando-se à rotina, da mesma mesa e dos mesmos companheiros.
Assim vai acontecer com os Cafés Vá – Vá (muito ligado à gente do cinema que ali se juntava), o Luanda, a Mexicana… Da mesma forma podemos citar alguns poetas que se espalham por vários cafés do país, como já referi, (Coimbra – António Nobre, Porto – Eugénio de Andrade), ou ainda Pascoes, José Régio, Miguel Torga, pelo Norte, sem esquecermos alguns que andaram longe do País, como, Pessanha, Casaes Monteiro, Miguéis e tantos mais.
Lembro com agrado, como tantos desses grupos fizeram escola, como os da Presença, os do Surrealismo ou do Neo-Realismo, muitos ligados também por revistas (ou folhas) como os foram os da Távola Redonda, anos 50.
Outro exemplo: o Café Gelo ainda foi um dos mais procurados pelo «Grupo Surrealista Dissidente», posterior a 1949, (em 1942 António Pedro assinava com André Breton, o 3º manifesto, o 1º já era de 1927) fazendo parte deste «Grupo do Gelo» Mário Cezariny, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Henrique Risques Pereira, Carlos Eurico da Costa, Mário Henrique Leiria, Cruzeiro Seixas.
As tertúlias ali promovidas animavam os mesmos objectivos expressos no Manifesto Dimensionista, de António Pedro, José Augusto França e Vespeira, onde se expressa que «o real e o imaginário, o passado e o futuro, o comunicável e o incomunicável, o superior e o inferior, deixam de ser apercebidos contraditoriamente» trazendo também á poesia uma carga de «irracionalidade ou filtragem racional, do automatismo e do aleatório, ao mais alto grau».
A tradição das tertúlias nos cafés, nesta elaboração comportamental da interioridade sensível – racionalidade ponderada – expressividade dinâmica, da poética, constitui por certo um valor acrescentado para a história da literatura, numa relação entre o intelectual e o social, na estrutura de cada obra deixada para os vindouros.
E é nesta mesma dinâmica que lembramos também David Mourão-Ferreira, Vitorino Nemésio e Natália Correia, que, deixando a sua marca no «Botequim» de Natália, onde a poesia jorrava ao sabor do seu tempo, se arriscava, como noutros tempos aconteceu, o pulsar politico controlador e punitivo, numa entrega de alma aberta às sensações, numa vertente da comunicação (poesia dita ou declamada como em Ary dos Santos) raiada de sensibilidade e de um certo heroísmo até.
Nesta mesma consagração poética da vida, cá andamos nós, marcando o nosso tempo,
talvez num sentido mais fechado, porque um tanto mais egoísta, contrariamente ao
momento democrático mais propício, a continuar a utilizar os Cafés: o Vá – Vá, o
Café Rio da Prata, o Fernando (na Amadora), o Restaurante Valenciana (em
Campolide) o Nicola, o Martinho etc. para neles levantarmos mais alto o ensejo
para a Poesia, em grupos de amigos, nas nossas tertúlias de hoje, herdeiras
criativas e emocionais das que no passado fizeram história.
PALESTRA DO DR. MARIO MATTA E SILVA
Associação Portuguesa de Poetas - Palácio Galveias – 29.11.2008