Pagª 29 - EDIÇAO NºXLIII
, III NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Contos da Horta Comunitária 713 Norte, com 103 espécies de ervas medicinais e ornamentais e 19 espécies de animais silvestres livres, na área pública em frente ao Bloco B residencial da 713 Norte - Brasília.
Por
Sandra Fayad
SOLIDARIEDADE
Noêmia é uma pessoa que transmite serenidade. Cuida-se através da alimentação alternativa. Tem visível bom relacionamento com o resto da natureza, especialmente com a flora medicinal.
A Horta Comunitária para ela é mais que um ponto de passagem entre sua casa e o comércio local. Gosta de observá-la.
Certo dia percebeu que eu não havia plantado fumo para usá-lo como defensivo natural na capuchinha, couve e maracujá, plantas preferidas das lagartas. São as filhas das borboletas que fazem seus ninhos abertos no bojo das folhas.
- Tenho mudas de fumo. Na próxima vez que passar por aqui, deixo para você –
afirmou ela.
Certa manhã, acordei com enxaqueca e decidi ir à farmácia comprar o remédio
receitado pelo neurologista.
Na saída de casa, encontrei Noêmia:
- Vim trazer as mudas de fumo.
- Obrigada, amiga. Mas não vou plantá-las agora porque estou indo à farmácia...
- Vou até lá com você, respondeu ela.
E foi (ida e volta) contando-me sobre os poderes da Erva de São João ou Hipérico no combate à enxaqueca. Sei que essa planta tem aplicação como anti-depressivo, mas não contestei a informação, até mesmo porque «...uma enxaqueca pode ser desencadeada a partir de variados fatores inclusive depressão...» - afirmou meu neurologista.
Adorei a companhia da Noêmia. Fui me distraindo aos poucos com suas palavras e com o ar puro que soprava no nosso bairro tranquilo. Vinte minutos depois de tomar o remédio na própria farmácia, eu já estava sã.
No retorno, plantei as três mudas de fumo, adubando-as bem.
Satisfeita por ter realizado duas boas ações, Noêmia se despediu e voltou a casa, sorridente.
Acho que, inspirada na sua postura, posso dizer aos demais visitantes:
Não faça alarde!
Nem se esforce para ser cortês.
Venha com naturalidade
Maciez, sen-si-bi-li-da-de
Integre-se, entregue-se:
A natureza lhe retribuirá
com boa vontade.
Continuação - XICA DA SILVA - Manuel Fragata de Morais - (Ver Inicio)
Xica da Silva largou uma gargalhada e cobriu a boca com o guardanapo, para
não mostrar os dentes cariados.
«Não é muamba, senhor deputado. E caril, o caril de camarão que o senhor
pediu.»
Desataram a rir e o assunto foi motivo de pilhéria por muito tempo, o senhor deputado achando que a liamba era mesmo da boa, afinal comera caril a pensar que saboreara uma deliciosa muamba. Louvado fosse o quintalão da Xica da Silva.
«Posso-lhe ensinar como se faz, mas não dá para comer lá em casa.», propôs Xica da Silva.
«Pois diga, que venha lá a tal receita!», pediu o coronel, dono de restaurante afamado. Talvez organizasse ele próprio umas patuscadas para uns dois amigos e umas tantas fulanas seleccionadas.
«Num tacho põem-se duas colheres de sopa de azeite, duas de chá de caril, uma colher de sopa de sementes torradas de liamba, meia chávena de folhas de liamba e meia chávena de chá de coco ralado ou leite de coco. Leva-se ao fogo, sempre mexendo com uma colher de pau e junta-se as gambas ou o camarão, deixando a cozinhar a fogo brando. Uns minutos antes do fim, colocam-se umas duas rodelas de ananás em cima e pronto. Foi isso o que o senhor comeu.», finalizou a Xica da Silva.
O libanês, satisfeito com o cabrito que manjara, agarrou na sobremesa, uma das beldades, e desapareceu com ela pelo primeiro quarto à sua frente, entre a chalaça dos outros.
«Olha que isso logo a seguir ao jantar dá congestão!...», anunciou um dos deputados, não conhecedor do estômago de camelo do libanês, curtido com o leite azedo e queijos de ovelha dos rebanhos da família, nas montanhas e cedros da sua bela terra.
Mal o libanês desaparecera, ouviu-se um bater surdo e seco na porta, como se
alguém a pretendesse deitar abaixo.
«Polícia, abre!»
Foi um ver se te avias.
Fugiram pela porta dos fundos, e dirigiram-se para os seus carros, duas ruas
mais abaixo. O único a ser apanhado foi o coitado do fenício, calças na mão
e sem saber o que acontecera, tão emaranhado estava nos afazeres da carne e
da liamba com a quatorzinha.
Xica da Silva, algemada, dava instruções em voz alta e de última da hora, a uma ou várias das meninas certamente escondidas, porque ninguém as via.
«Amanhã volto. Fechem tudo e não abram para ninguém. Estes gajos não sabem com quem se estão a meter!...«, disse, ciente de que quem fala verdade não merece castigo.
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O júri premiou Fragata de Morais pela «originalidade, linguagem correcta, leveza de estilo, brevidade, forte sentido de humor, linguagem coloquial e crítica social que reflecte a vida quotidiana de Luanda».