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Histórias da minha terra – Sintra Romântica

 

Por Arlete Piedade

 

Continuando a série de histórias da minha terra, em que tenho falado de alguns dos locais mais belos de Portugal, com as suas gentes, monumentos e factos históricos, muitos deles já do domínio da lenda, escolhi hoje escrever Sintra.

Sintra é uma vila localizada a oeste de Lisboa, próxima ao Oceano Atlântico, numa serra única em Portugal, pois distingue-se por ter um microclima próprio, caracterizado por temperaturas mais baixas e húmidas, que muitas vezes resultam em neblinas que envolvem a serra, a vila e zonas limítrofes num manto irreal de sonho. Este clima desde sempre atraiu a Sintra pessoas que procuravam um refúgio de frescura, para fugirem á capital com temperaturas mais altas e secas.

Sintra foi povoada desde tempos muito antigos, como o atestam diversos achados e vestígios, mas foi a partir do sec. XVIII e XIX que se tornou famosa. Com efeito os reis de Portugal, e em especial as damas da corte procuravam Sintra como local de férias e retiros, e foram construindo palácios românticos no meio da serra e mandando plantar árvores e plantas exóticas, construindo parques e jardins, aproveitando o clima sempre húmido.

Paisagem Cultural de Sintra – Património Natural da Humanidade

Também na mesma época, nobres ingleses, bem como artistas e escritores, descobriram Sintra, como local romântico por excelência, com a sua paisagem misteriosa entrecortada por brumas, os seus palácios encobertos pelos parques luxuriosos, os seus vestígios do passado, com o mar bravio e as praias douradas a lamberem-lhe os pés.

Assim no Verão de 1787 William Beckford, chega a Sintra como hóspede do 5° marquês de Marialva, estribeiro - mor do reino, residente na sua propriedade de Seteais.

Também a princesa D. Carlota Joaquina, mulher do regente D. João, compra, no princípio do século XIX, a Quinta e o Palácio do Ramalhão.
Entre 1791 e 1793 Gerard Devisme manda construir na sua grandiosa Quinta de Monserrate o palacete neo-gótico cujo desenho — supõe-se que de arquitecto inglês — não foi ainda atribuído com segurança.

 

Video sobre o Palácio da Pena - Sintra

Beckford, que permanecera em Sintra, arrenda a propriedade de Devisme em 1794. O exotismo desta paisagem envolta em nevoeiro uma boa parte do ano que atrai um outro inglês, Francis Cook — o segundo arrendatário de Monserrate depois de Beckford, que financia a construção do pavilhão de gosto oriental que hoje conhecemos -, entre uma série de magnatas estrangeiros que por aqui se vão fixando em palácios, palacetes e chalés que fazem construir ou reconstroem à medida das potencialidades deste invulgar meio natural.

Mas a maravilha mais apreciada de todas as obras e construções românticas em Sintra nesse século XIX, é inquestionavelmente o Palácio da Pena. Com efeito esta foi uma obra marcante do romantismo português, por iniciativa do rei-consorte D. Fernando II, marido da rainha D. Maria II (1834-1853), de nacionalidade alemã da casa de Saxe-Cobourg-Gotha.

O Palácio, construído sobre as ruínas do velho mosteiro Jerónimo do século XVI — mas conservando-lhe partes fundamentais (a igreja, o claustro, algumas dependências) — é de uma arquitectura ecléctica única com o uso de elementos ao estilo gótico, egípcio, mourisco e renascença, que não teve continuidade na arte portuguesa.

Projecto conjunto do barão de Eschwege e do próprio D. Fernando II, veio substituir o Palácio da Vila enquanto estância de veraneio da Corte, alternando, no final do século, com outro núcleo regional do veraneio régio: Cascais. Depois de Sintra, nos meses de Setembro e Outubro é em Cascais que a corte de D. Luís I (1861-1889) e de D. Carlos I (1889-1908) termina o veraneio.

No princípio do século XX, foi Sintra um reconhecido lugar de veraneio e residência de aristocratas e de milionários. De entre estes, Carvalho Monteiro detentor de uma considerável fortuna que lhe valeu a alcunha de «Monteiro dos Milhões», fez construir perto da Vila, na quinta que comprara à baronesa da Regaleira, um luxuoso palacete também designado Palácio do Monteiro dos Milhões, alcunha do proprietário António Augusto Carvalho Monteiro. Rodeado de luxuriantes jardins, lagos, grutas e construções enigmáticas, que ocultam significados alquímicos.

Entre a segunda metade do século XIX e os primeiros decénios do século XX, Sintra tornou-se um lugar privilegiado para artistas: músicos como Viana da Mota; músicos -pintores como Alfredo Keil; pintores como João Cristino da Silva, autor de uma das mais célebres telas do romantismo português: Cinco Artistas em Sintra; escritores como Eça de Queiróz ou Ramalho Ortigão, todos eles aqui residiram, trabalharam ou procuraram inspiração.

Mas não só artistas portugueses se têm maravilhado em Sintra. Em 1757, o romancista Henry Fielding, ao sentir-se doente, retirou-se para uma mansão em Sintra, que considerou o lugar mais belo da terra para escrever um novo romance.

O poeta Robert Southey também viveu em Sintra com a mulher e com os filhos e desafiou os outros românticos ingleses a fazerem o mesmo. Samuel Taylor Coleridge imitou-o e descreveu Sintra como um jardim do Eden à beira de um mar prateado, e o poeta William Wordsworth também visitou a região.

Em 1809 Lord Byron escreveu ao seu amigo Francis Hodgson (1781–1852) dizendo que a vila de Sintra é talvez a mais bonita do mundo. No poema Childe Harold Pilgrimage Byron referiu-se a «Cintra's glorious Eden».

A 21 de Agosto de 1859 chegou a Portugal o poeta Alfred Tennyson com a intenção de conhecer Sintra. Muitos anos mais tarde foi a vez do escritor Isaac Bashevis Singer, galardoado com o premio Nobel da Literatura, andar a passear por Sintra, conforme relatou no seu conto Sabbath in Portugal.

Pode parecer difícil definir claramente e delimitar uma paisagem que inclui sítios diversos ligados por um carácter geral comum. De resto, uma paisagem nunca é estática; ao contrário, ela está sempre sujeita às mudanças o que a torna difícil de preservar. É sobretudo o caso das paisagens culturais, testemunhos do cunho humano, sempre dinâmico, mas permitindo também que os elementos naturais sigam os seus ritmos biológicos próprios.

A candidatura de uma paisagem cultural para inclusão no Património Mundial exige uma mistura excepcional de sítios naturais e culturais num quadro exemplar. A Serra de Sintra corresponde-lhe de uma forma convincente. Vista de longe (ou a partir de uma fotografia aérea) ela dá a impressão de uma paisagem muito mais natural que se distingue bem dos arredores: uma pequena cadeia montanhosa granítica coberta de florestas, elevando-se da região rural (também ela entrecortada por montes e vales) entre Lisboa e o litoral. Vista de mais perto e percorrendo-a, a Serra revela marcas culturais de uma riqueza surpreendente, cobrindo vários séculos da história de Portugal.

Assim evoluiu na Serra de Sintra uma paisagem cultural de um valor eminente e singular. Do ponto de vista mais natural, associa componentes das floras mediterrânicas e setentrionais a centenas de árvores e flores exóticas num quadro de jardins, parques e florestas verdadeiramente único.

Video sobre Sintra com canção

A PAISAGEM CULTURAL DE SINTRA, foi reconhecida pela UNESCO, como Património Mundial da Humanidade no dia 6 de Dezembro de 1995, durante a 19ª Sessão do Comité do Património Mundial da UNESCO realizada em Berlim.

Na actualidade a vila de Sintra continua a ser um local de eleição para artistas e milionários terem as suas casas de veraneio ou fixarem residência, mas para mim é também e essencialmente, o local mais romântico de Portugal, ideal para os namorados passearem pelos seus parques e jardins, bem como para os amantes escolherem como o local ideal para uma fuga á rotina. Com efeito é também nos arredores de Sintra que se localizam os motéis mais luxuosos do País, mais uma consequência do romantismo associado a estes locais mágicos e únicos.

Então venham daí...vamos visitar Sintra? Para uma escapadela romântica, ou uma viagem cultural, ou para se refrescarmos no Verão, ou ainda passear e ir saborear os pasteis e travesseiros acabados de fazer, e ainda quentinhos.

Eu ia lá há uns anos quando residi perto durante alguns anos. Tenho saudades de voltar. Quem sabe...um dia...

Arlete Piedade

 

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