Pagª 19 - EDIÇAO NºXLI
, I NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
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Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poemas de Ilona Bastos

Incompletude
Sabes de um dia de céu azul,
atapetado de amarelas flores
brilhantes sobre a relva,
e, no mar, ondas revoltas de espuma
a desvendar brancura?
.
E as cores do sonho, que as não vi?
Da mais pura felicidade e da vida?
Incompletude... nesse dia de céu azul
flores e mar.
Eu estava lá. Nesse dia.
Faltavas tu...
.
.
Ilona Bastos
Cascais, 1984
silêncio
libertam-se os pensamentos
livres e leves
farrapos de nuvem
no silêncio
da noite
gosto do silêncio
sempre gostei
permite-me escutar o tic tac
a pausa entre o tic e o tac
entender que o tac tem som de toc
por isso gosto do silêncio
onde se estampa o cloc
da porta que é
muito suavemente
fechada
no silêncio se afaga o rumorejar
da roupa que me veste
e ouço atentamente
o som da malha
da fazenda surpreendente
gosto muito do silêncio
que desvenda
o gorgolejar da água
entre a garrafa
e o copo onde se espraia
belo silêncio
me revela os passos
mansíssimos
sobre a carpete do corredor
a caminho do quarto
onde anseio
pelo ranger ligeiro da cama
pelo murmurar inigualável
dos lençóis onde me esperas
e me aninho a sorrir
Oração
Neste dia vou dizer mil palavras.
Palavras de júbilo ou de tristeza,
Palavras de ira ou de comoção,
Substantivos aos centos,
Pronomes sem conta,
Adjectivos à discrição,
Preposições simples e compostas.
Neste dia sair-me-ão da boca
Expressões que nem conheço como minhas.
Vou ser sisuda no discurso,
Ou irónica no comentário.
Vou gritar chamamentos,
Laconicamente concordar,
Ou irromper em desabafos.
Que dessas mil palavras
Sejam duas dezenas das que valem,
Das que sabemos ser puras,
Das que garantem ser sãs,
Das que pronunciamos com candura,
Das que se erguem ao alto,
Numa oração ao Senhor!
Da terrinha : por Se Gyn
Da terrinha, III - «A guariroba é minha!»
Essa, aconteceu na cidade de Palmeiras - GO, é esquisita e, muito
engraçada:
Um sujeito entrou na cidade dirigindo uma camioneta saveiro em alta
velocidade e, a cara denunciava seu estado de embriaguez e confusão
mental.
Ficou zanzando sem destino pelo centro da cidade, e, não demorou em
montar o carro sobre uma guariroba, na ilha da avenida principal. O
coqueiro quebrou no meio e, foi ao chão.
O sujeito não saiu do carro, aturdido e embriagado. Quando despertou e
verificou a situação em que se encontrava, avistou um velhinho, de facão
na mão, contando o tronco da guariroba derrubada. E ele já foi
perguntando, em tom alto e pastoso: «Ei, o que é que o senhor está
fazendo aí?»
O velhinho respondeu simploriamente: «Ué - tô aproveitando e, cortando a
gueroba pra comer o palmito! Ela vai morrer, mesmo...»
O sujeito retrucou rapidamente, em tom ameaçador e, batendo no peito:
«Não senhor! Essa gueroba é minha - Essa aí, quem derrubou fui eu!»...
Da Terrinha, V - Seu Dercides, passarinheiro...
Seu Dercides, velho pescador, conhece a palmo as marges do rio Turvo e,
do ribeirão dos Moleques. Mas, com a idade avançando e a saúde exigindo
cuidados, já não pode mais montar a bicicleta e, partir para longos dias
de pescaria, passatempo que tanto lhe agradava.
Mas, não sossegou de todo na sua sede de contanto com a natureza. Dias
atrás, numa visita a um amigo, disse que não podia se demorar muito,
pois tinha de cuidar dos seus passarinhos.
Meio surpreso, o amigo perguntou se ele tinha virado passarinheiro,
correndo perigo depois de velho.
Nada: seu Dercides Camargo mora atualmente sozinho, numa casinha modesta
- porém bem conservada e, que tem um grande quintal à volta.
E é nesse quintal que ele deposita, todo dia, pela manhã e pela tarde, o
trato para os pássaros, que voejam e frequentam a área.
E ele passa o dia todo sendo visitado por pardais, rolinhas, gurrichas,
pombas do bando, canários do reino, sanhaços e pássaros pretos (esses
mais ariscos e, reservados), que são as alegres companhias de seus dias
solitários, depois da aposentadoria das fainas rurais.
Memórias de um menino, ou Adeus Mr. Johnny
Por
Acas (Antônio Carlos Affonso dos Santos)
As vezes me identifico as minhas próprias palavras escritas: Certa vez fiz e
enviei uma bitrova ao compositor, radialista e declamador Muibo Cury:
«Fôia do Inhame»
Eu pudia vivê bem
Se eu fosse um home só
Se eu vivesse nos sertão
Onde canta o xororó
Lá as coisa são bunita
Num é perciso recrame:
-Insiste coisa mái bunita
Que orváio na fôia do inhame?
- «as gotas d´orváio nas fôia do inhame» representam para mim o supra-sumo
da beleza; obra fechada com que a Natureza nos brinda todas as manhãs,
especialmente as de outono.
- As gotas de orvalho pousadas nas folhas do inhame, parecem pedras
preciosas, ou semi; que detém a luz do sol incidente e a devolve com brilho
e fulgor ampliados. Mais parecem pedras de águas marinhas líquidas, ou até
mesmo brilhantes em estado gel. Por vezes tentei pegá-las com minhas mãos
calejadas de menino caipira, mas elas, furtivas e apavoradas, fugiam por
entre meus dedos de menino poeta e retornavam «briosas», nas folhas do
inhame.
- o brilho das escamas de um dourado; peixe de rio de água doce que, quando
ferrado no anzol, luta bravamente, corcoveando-se e saltando para muito
acima do nível da água e, ato contínuo, mergulha até o fundo do leito do
rio.
- Se for então num fim do dia, ao lusco-fusco do sol poente, enche-se de
magia: magia dourada. Quando eu era menino, pensava que os lambaris «tambiú»
dos córregos que banhavam a fazenda de café, quando crescessem,
transformar-se-iam em dourados. Achava fabulosa esta metamorfose, mesmo
sendo uma utopia criada por mim.
- nos tempos de eu menino, achava que, quando velhos, os ratos se
transformavam em morcegos. No dia em que me mostraram o feto que haviam tirado da barriga de um
morcego fêmea, com as asinhas e tudo, fiquei pasmo.
- durante os primeiros treze anos de minha vida, ganhei presentes de natal,
presentes estes que o Papai Noel deixava sobre o meu sapato, engraxado e
lustrado de véspera e deixado sob o presépio que a dona Guidinha, minha mãe,
montava todos os anos até então.
- quando menino, ao tempo que vivia ainda na fazenda de café, costumava alongar o olhar até a linha do horizonte para compor uma tese própria: eu acreditava que o céu estava apoiado no espigão que cercava o Vale do Rio do Pântano, onde se localizava a fazenda de café na qual vivia. Acreditava ainda que, na primeira vez que eu subisse aqueles espigões, eu tocaria o céu com minhas pequeninas mãos de menino caipira. Pois bem: a primeira vez que, conscientemente, subi o espigão junto com a família, causou-me espanto o fato de que, por mais que nos elevássemos, o céu parecia também elevar-se.
Como corolário da tese de eu menino, concluí que haveria de ter espigões ainda mais altos que aqueles do Vale do Rio do Pântano e, decerto, o céu estaria apoiado neles. Confesso que pela vida afora, tentei colocar minhas mãos de jovem, de adulto e de velho caipira, no céu. Devo confessar ainda ao leitor: jamais consegui.
Hoje já estou descendo a encosta do último espigão da vida. Percebo agora,
caros leitores, que o tempo escoa por entre os dedos de minhas mãos de
sexagenário. Percebo que, quanto mais passos dou rumo à terra dos justos;
mais se alonga a distância entre eu e o céu. Minha hipótese de menino
caipira estava errada. Só agora percebo isso.
Em toda minha vida, só tive dois cães: quando menino, o Viajante; quando
adulto, o Johny Reevers.
- O primeiro, ficou na fazenda São José, quando vim morar, sozinho, em São
Paulo. Do alto dos meus treze anos de idade, quantas noites chorei de
saudades dos pais, dos irmãos e do Viajante. Ele era um «purus vira-latas»,
de pelos curtos e negros como o azeviche. Ele adorava correr pelos trilhos
(caminhos secundários), fora das rotas de estradas de servidão e dos
carreadores da fazenda de café, onde nós vivíamos.
Ele era quase que necessariamente um cão de companhia; não era um cão de guarda, na verdadeira acepção da palavra, mas era aquele que mais barulho fazia na presença de algo que pudesse intimidá-lo; não era um cão de caça, mas tinha uma qualidade incomum de «caçar frangos», quando saíamos a caçar frango para a refeição do dia; frangos estes criados livres e que beiravam o estado selvagem.
Sem o Viajante, teríamos comido muito menos frangos lá na fazenda; isso implica em dizer que o frango caipira que abatíamos para consumo era a maior fonte de proteínas de que dispúnhamos por aquelas bandas. Uma vez que nós já houvéssemos escolhido qual era o frango daquele dia e o indicávamos ao Viajante, incitando-o, ele se dedicava a correr atrás daquele frango, mesmo que voasse, que pousasse em árvore ou se escondesse, o viajante não desistia nunca, até que a ave se cansasse de correr; o viajante o alcançava e punha as duas patas dianteiras sobre a ave e só as retirava após chegarmos ao local, solicitando que ele largasse o frango.
As vezes, ele me acompanhava até o córrego (Rio do Pântano) e ficava aguardando todo o tempo que brincávamos, sentado calmamente no barranco do rio; algumas vezes nós levávamos toras de bananeira, para brincar de jangada no rio: nós lançávamos as toras no rio num ponto a montante do local desejado; como as toras de bananeira bóiam, nós nos debruçávamos sobre elas, que nos levavam devido à corrente, até um ponto à jusante.
Por vezes isso representava 50 metros, às vezes, mais; ato contínuo, colocávamos as toras nas costas e seguíamos correndo por fora d ´água, entre os barrancos, com o fito de que a parte mais gostosa do brinquedo, a cavalgada nas toras, se repetisse. O Viajante latia feliz, correndo atrás, com aquele jeito feliz que só os cães de menino caipira sabem latir.
No dia em que saí de casa, não encontrei o viajante, para despedir-me dele. Ocorreu que o bom velhinho nunca mais me encontrou. Por algum tempo acreditei que o motivo que impedia que ele pudesse me encontrar, era devido ao exagerado número de crianças da grande cidade. «Chose de lês enfant». Nunca mais o vi. Oito meses depois que cheguei em São Paulo, minha família chegou de mudança. Perguntei pelo Viajante: ele havia morrido um mês depois que saí da fazenda. Durante muito tempo me senti culpado pela morte dele, provavelmente por saudade.
Minha mãe certa vez me confidenciou de que o Viajante havia contraído uma
doença esquisita, após a minha partida e não queria comer; de jeito nenhum.
Meu coração caipira, feito de vidro, quebrou-se ali. Nunca mais haveria de
ter um cão.
Mas, aos vinte e quatro anos de idade, eu órfão de pai e com os irmãos mais
velhos todos casados, morava com minha família, que a esta altura se
compunha de minha mãe, duas irmãs e o irmão caçula. Com o casamento de uma
delas (se mudou para o estado do Pará), a outra irmã fazia faculdade à noite
e reclamava da distância de Taboão da Serra até a avenida Paulista, num
trajeto de hora e meia de ônibus. Ela decidiu alugar um apartamento em
Pinheiros (só quinze minutos de ônibus); minha mãe e irmão caçula aderiram à
idéia. Fiquei só.
Um amigo de trabalho tinha uma cadela linda. Certa feita, a cadela ficou prenha e meu amigo me prometeu, sem que eu pedisse, um filhote para mim. Certo dia ele me falou que a cadela havia dado cria de oito filhotes, sendo dois machos e um era pra mim. Exigiu que eu fosse à casa dele escolher. Quando vi os filhotes, lembrei-me do Viajante e me deu um aperto no coração: será que vou sofrer tudo de novo?
Acostumado ao tempo da fazenda, peguei um e outro pela pele do torso, atrás da cabeça dos filhotes: aquele que permanecesse quieto era o melhor! O primeiro, branquinho, gemeu, reclamou, chorou e latiu fraquinho; o segundo malhado de amarelo e branco, sequer deu um pio, decerto seria um cão de fibra.
Naquele momento estava tocando no rádio da casa do e meu amigo uma música do Johnny Rivers, «Dou you want to dance?». Eu o coloquei junto ao meu peito, o filhote fechou os olhos e dormiu: - apaixonei-me por ele.
O Johnny foi meu companheiro por seis anos, enquanto solteiro e mais dois anos após casado. Pois não é que depois que me casei ele ficou muito mais companheiro da minha mulher do que de mim! Por exemplo: eu quando queria dar um banho nele, ele resmungava muito, se debatia tentava sair de dentro do recipiente (a maioria das vezes era um velho tanque de cimento).
Com a minha esposa, ele ficava calmamente até que ela o enxaguasse safado do Johnny. Ele nem sequer se lembrava de quando só vivíamos eu e ele. Na falta de interlocutor, por morar sozinho, falava com ele o tempo todo: fazia comentários das notícias do jornal, da TV, do rádio, falava de futebol e de cinema. Talvez o fato dele ter nome inglês o deixava fleugmático: entendi finalmente porque o Johnny se aborrecia comigo. O Johnny, meus amigos, nunca falou Português. Que pena!
O Johnny numa certa semana santa desapareceu. Nunca mais voltou. Passei muitos sábados procurando seu cadáver na Rodovia Régis Bittencourt, no depósito de cães da Prefeitura de São Paulo (carrocinha). Nunca o encontramos!
Assim são os entes queridos que nos querem bem: quando estão na pior situação, desaparecem, para não nos deixar preocupados. Mas, minha lembrança lembra dele; trinta anos depois de seu desaparecimento.
Adeus Mr. Johnny! I really loved you!