Pagª 27 - EDIÇAO NºXLI
, I NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Apresentação de India Libriana, a poeta menina no Jornal Raizonline
Por
João Furtado
Há cerca de dois anos, quando o telefone tocou e apanhei. Do outro lado esta a
telefonista da Delegação de São Vicente da minha empresa, os T.A.C.V. e me
anunciava que a D. Maria Teresa queria falar comigo.
Pensei que era uma colega minha, muito amiga, que trabalhava nos serviços de Reservas de Espaço, o mesmo sector que também eu trabalhava, mas na Praia. Autorizei que me passassem a chamada, ciente na dificuldade que sempre tive para comunicar com a minha amiga Maria Teresa, ela, além de ter um sotaque muito acentuado da Ilha de São Nicolau, falava muito depressa, sempre tive que me esforçar para entender o que a Maria Teresa dizia.
Uma vez
convidei-lhe, ela tinha vinda a Praia fazer uma formação, a vir passar algumas
horas connosco. Ela foi simpática e aceitou. Tivemos uma boa tarde juntos e
quando ela regressou para o hotel, a minha filha mais velha, a Belma voltou para
mim e perguntou-me:
- Pai porque que aquela senhora falava Inglês contigo?
Foi razão de uma boa gargalhada, e a prova de que a Belma não entendeu nada que a Maria Teresa disse. Para ela a minha colega havia falado Inglês. Bem podia ser Chinês.
Quando do
outro lado da linha ouvi o «Aloh» soube logo que era outra Maria Teresa, a voz
da outra era inconfundível. E menos dúvidas tive eu ainda, quando ela se fez
apresentar:
-Sou a Teja, Furtado (quase todos os meus colegas chamam-me apenas pelo meu nome
de família - FURTADO). Gostaria de saber como fizeste para publicares poemas no
«Nôs ku Nôs»…
«Nôs ku Nôs» é um jornal interno dos T.A.C.V. Havia publicado nos últimos dois ou três números um poema em cada um, alias a colega que trabalhava (ainda trabalha) na altura na confecção do referido Jornal, a Yolanda, me pediu autorização para publicar uns poemas que lhe mostrei. Não havia como recusar, aceitei.
-… tenho alguns poemas na «gaveta», até já me prometeram uma publicação… estou a espera. Enquanto isto, queria ver se publicava alguns no «Nôs ku Nôs».
-Bem, foi a
Yolanda que me disse se eu queria publicar, fala com ela. Já agora que achas dos
que leste?
-São bons Poeta!
-Desculpa, mas não sou poeta, brinco com letras. Posso ver alguns dos teus?
-Tens MSN ?
Trocamos MSN e ela desligou o telefone, pouco depois de a chamar a brincar Poeta Menina. Efectivamente pouco depois ela me enviaria alguns poemas no MSN que achei muitíssimo bons, muito melhor que os meus. Sem duvidas nenhumas.
Para lhe agradecer fiz um poema «online» para ela com o titulo «Poeta Menina», ela gostou, por muito tempo usou este nome no MSN. Usou precisamente até ontem, sexta feira 04 de Setembro, quando me enviou quatro poemas para eu mandar para Raizonline a fim de serem publicados.
A Teja ou Maria Teresa Assunção ou Poeta Menina como passei a lhe chamar ou «India Libriana» , o pseudónimo dela, é minha colega de trabalho há quinze anos. Ela trabalha há quinze anos na empresa onde estou a trabalhar há 25 anos. E nos tempos livres escreve poemas ou faz Teatro. Uma mulher de cultura.
Com muito orgulho que tenho o prazer de a apresentar no Raizonline. Estou certo que é mais uma voz Cabo-Verdiana, em particular da Ilha de São Vicente, neste mundo da Lusófonia que lutamos para criar.
A ti, Poeta Menina, te desejo as melhores felicidades neste ramo artístico, espero poder ver nas bancas, o mais rápido possível, obras tuas.
Poesia de India Libriana

LAMENTOS
Parto sim, do jovem aconchego desse olhar
que não retocará a sua fantasia primeira
e só há bilhete para Lugar Nenhum a cobrar
nesta Estação ubi cheguei tarde à bilheteira...
Parto sim – de tudo – e parto suas promessas
abandono o tango e volto ao crepúsculo da solidão
e fragmento noites e vicio madrugadas travessas,
no pranto do fadista há lamentos sentidos em vão...
Em meu retorno ao calabouço do frio espectro
há portas hipócritas abertas a festejar
abanando convites para entrar e chorar na ruela
Há lágrimas de reencontro e desencontro
e há queixumes de paredes a atormentar
com boas vindas cantadas a solo e a capela
AO TEMPO QUE FOSTE
Es (és) de um tempo que foi e que já não dói
em que eram tuas minhas ruas
por onde passava e passeava
copioso teu olhar, uma dor de amar;
Eras caloroso espaço, regaço
de maciez sedosa, tez preciosa
cheirando a flores, dando calores
aos sentidos e ruídos contidos;
Es (és) da Imagem que foste, Cópia inópia
poesia sem sentimento, o pejo do beijo
que habitou o meu intenso silêncio
de todas as horas em que te amava nas demoras;
Es (és) saudade ausente, toque sem choque
do exaurido perfume sem ciúme,
da Ideia do inteligível no sensível
do tempo que foste, passado sem enfado;
Eras do tempo que eras e foram eras
de muitas promessas, louças essas já partidas
hoje nem saudades amenas, fóssil apenas
de tão remoto na minha memória sem glória.
(01Agosto2007)
HABEAS CORPUS
Vim para soltar da garganta o verbo
o grito que te sufoca e te prende no papel
pois é este teu medo de alforria que te dá tropel
Mas cautela! Nada de estar em assoberbo...
Vim desatar o nó do laço que te aperta forte,
fazer desaparecer dele medos e dores,
fluir das suas entranhas flores e amores
e fazer-te largar para os mares do norte...
Que a tua voz se erga bem alto
A altitude dos que esperam te ouvir
E dos que te desconheçam deste asfalto!
Esquece tudo o que antes te foi torpe,
que na nova via seja de maiêutica teu esculpir.
Estás solto dos teus grilhões. Que tenhas corpo!!!
India Libriana -
(14Outubro2007)