Pagª 42 - EDIÇAO NºXLI , I NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Corrente de Poemas

Trio de poemas iniciado pela colaboradora Manuela Pittet, e aberto a quem desejar participar, em qualquer estilo de poema, sobre o tema da união dos poetas, que se inspiram entre si, independentemente do espaço físico e temporal .

A Roda dos Poetas

Na roda dos poetas
nascem mãos saudosas
que mais do que vozes, são metas
soltas, em melodias frutuosas...

E no meio de tanto ser, diferente
a corda vocal do silêncio puro
que diz apenas o que não mente
demolindo cada dia um novo muro...

Éramos na roda, os irmãos
de todos os encantos, petizes
entrelaçados na palavra, como mãos
desfazendo mágoas nos versos felizes...

Ouvia ao longe o sussurrar
de harpas e cores misteriosas
e toda eu começava a vibrar
ao som das cordas milagrosas...

Vinha um, vinham dois, vinham três
entusiasmados, voando ao apelo
vinham muitos de uma só vez
se alinhar na formação do Elo

E sem ser apenas alegoria
o cântico aos universos se erguia
e a separação não existia
nesse estado de graça, de alegria!

P'ró poeta tudo é verso
todo recanto, adoração
até mesmo o reverso
faz parte da criação!

Nesta saudade em que me foco
no ritual de tanta emoção
é como um fado onde me toco
mas que desconheço a canção...

Uno então os versos no meu peito
numa dança eterna, à minha moda
pela doçura com que é feito
este recordar, imortalizando assim a roda...

Manuela Pittet
in: «Rostos de Amor»


Almas de poeta

Vestes de auras esta nossa irmandade,
esta missão de profetas, poetisas e poetas,
este deambular pelas palavras, quais setas
viajam de alma em alma pela eternidade!

Oh auroras idas que ficasteis por escrever,
vinde à pluma de cada poeta celebrar,
a perpetuação da Vida, do Amor e brindar
com os elos unidos este feliz alvorecer.

As rondas do Sol sentido em cada pulso
trajai não o silêncio dos vossos olhares
mas a virtude do sussurrado grito desses mares
que vos engolfam nesse vosso essencial impulso.

Vinde, seres sonhadores de altos universos,
buscai nos vossos baús de letras e cantos
o memorial dos vossos corações e encantos
e brilhantes deixai planar vossos versos...

Detenho-me na força de ver o Mundo versado
pelas cores dos seus sonhos, dos seus alentos,
das suas visões, e acalentado pelos ventos,
a todos me junto, a ti me alio, à Poesia congregado...

Edmundo Silva
In: «Alma»


Elos espirituais

Unidos os poetas sempre estão,
os que na alma sentem o apelo,
através do céu estendem a mão,
reconhecem o irmão, sem vê-lo!

Não precisam usar os olhos carnais,
bastam os do espírito para os mirar...
cada dia, crescemos e somos mais,
no amor unidos, sempre a poetar!

Somos incorpóreos e intemporais,
legamos ao universo clara poesia,
o som das palavras faz-nos imortais...

elos unidos, não se separam jamais,
pura ressoa nas esferas, a melodia,
canção dos poetas em acordes finais!

Arlete Piedade

 

 

 




Coluna

Francis Raposo Ferreira




 

O verdadeiro Amor

David era um homem feliz, nunca fora tão feliz como o era desde há três anos, precisamente o tempo que levava a viver naquela aldeia. Ali ninguém o conhecia, ninguém sabia do seu passado, conseguira construir uma vida nova, um mundo novo, onde o passado não entrava.

Um dia, quando passeava pela única rua da aldeia, de mão dada com a sua namorada, foi surpreendido por um grito:
- David César!

Sentiu um arrepio na espinha, reconheceu aquela voz como sendo a voz de um velho conhecido, colega de infância, colega do liceu e da faculdade, e compreendeu, imediatamente, que o seu novo mundo, aquele mundo onde era tão feliz, sem o passado a pesar-lhe sobre os ombros, tinha acabado de ser invadido.

Sabia muito bem que, em breve, muitos outros antigos colegas, conhecidos e amigos, o iriam procurar, iriam querer saber porque tinha partido sem dizer nada.

A namorada questionou-o:
- Conheces, amor?
- Sim conheço, é um antigo colega meu.
Ela nunca lhe perguntara nada do seu passado, só sabia o que ele lhe ia contando por espontânea vontade. Dirigiram-se ao encontro de quem o interpelara, o outro saiu do carro, abraçaram-se, olharam-se demoradamente e o outro perguntou:
- David, o que fazes aqui? Porque desapareceste?

- O que faço aqui é ser feliz. Desapareci por isso mesmo, para conseguir ser feliz.
- Mas vives aqui, nesta aldeia perdida no meio da serra?
- Sim, vivo aqui.
- E o que fazes na vida?
- Trabalho na loja do pai da Maria. Aproveito para te apresentar a minha namorada.

O outro nem queria acreditar, não imaginava David atrás de um balcão. Mirou a rapariga, reconheceu que era bastante bonita, mas demasiado simplória.
- David, posso perguntar-te uma coisa em particular?
- Não. Eu não tenho segredos para a Maria, por isso se quiseres perguntar alguma coisa, terás de o fazer na sua presença.

- Ok. Ela conhece o teu passado? Sabe quem tu és?
Maria ousou intervir pela primeira vez:
- Eu conheço o passado que o David entende que eu devo conhecer. Sei muito bem quem o David é, quanto ao que ele foi, não me interessa.
- Obrigado amor.

O outro não desarmou:
- Muito bem. Só gostava que me explicasses uma coisa. Porque é que tu fugiste assim, porque é que abandonaste tudo e todos?

- Bem, eu sempre soube que este dia ia chegar. Aqui, nesta terra, onde ninguém me conhecia, eu sou admirado por aquilo que sou, convidam-me para as festas porque gostam da minha presença e não por causa do meu dinheiro. É verdade meu amor, o passado, de que eu tanto quis fugir, é um passado onde a maioria das pessoas só viam o meu dinheiro, a maior parte delas não conhece nem metade das minhas qualidades e competências, foi aqui junto a ti, junto a esta gente simples que eu consegui mostrar que sou quem sou, e não apenas o herdeiro de uma grande fortuna. Quantas candidatas a noivas se interessavam mais pelo meu dinheiro do que pela minha cultura?

Foi contigo, e com esta gente, que descobri o verdadeiro significado da palavra amor.


Amizade

O choro de uma criança,
No acto do seu nascimento,
E(é) um grito de esperança,
Um grande acontecimento.

Pode parecer ilusão,
Choro significar alegria,
Mas tudo que é do coração
Nos ilumina nosso dia.

Assim, mesmo sem chorar,
Venho aqui para te desejar
Uma óptima tarde.

E(é) do fundo do coração,
Sem ponta de ilusão,
Que te ofereço minha amizade.

http://voopelasletras.blogspot.com/

Francis Raposo Ferreira