Pagª 49 - EDIÇAO NºXLI , I NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Manuela Pittet - Poema

Cântico Pulsar...

Portando adoração
no silêncio dos meus versos
aumentando a vibração
na chave de todos os acessos...

Amante de uni - versos
nas ondas da sublimação
pintando todos os reversos
em fundo de alma e coração

Deixo-me ir... Voando
de mãos dadas no teu olhar
como se amar fosse olhando
sem olhos, neste olhar...

Sorrindo e beijando
o que nenhuma boca traduz
a Fonte... Abençoando
na sua totalidade... A Luz...

E nesta sensação fantástica
onde me visto de transparência
Sou em explosão orgástica
algumas páginas da Essência...

Invento-me poema e pulsar
instante de página e de caderno
no registo de tanto amar
sou cântico em verso eterno

Bendito e escrito
Amo-te no meu amor
de sempre e para sempre dito
Amo-me no teu amor!!...

Manuela Pittet

 

Ecos

Poema de Arlete Piedade

O eco dos teus passos ainda ecoa
No saibro dos caminhos lá no jardim
Onde o teu coração se apoderou de mim
E minha alma ficou para sempre á toa...

A tua voz ressoa ainda no relvado
O teu riso, ficou marcado na minh’ alma
Esta saudade me tortura e não se acalma
A ânsia de te rever, oh meu doce amado!

Recordo a tua cabeça alva, reclinada
Procurando em meu peito, doce aconchego
Implorando de minhas mãos, a carícia...

Acreditei ser para sempre tua amada
Nos teus olhos, era tanto esse chamego
Mas afinal deste para outra, tal delícia...

Arlete Piedade

 

Parada da independência (ou: Independência parada)

Por Haroldo P. Barboza

Apesar de por cinco séculos
Sermos um povo dominado
Um dia iremos descobrir
Que não somos apenas gado.

De que adianta enaltecer
Que nosso chão possui riquezas
Se na maioria das casas
Não há comida sobre as mesas?

De que adianta dizer ao filho
Que nosso regime é de liberdade
Se por onde podemos caminhar
Prolifera a falta de igualdade?

Berço esplêndido apenas existe
Na canção do hino nacional
A grande parcela da população
Dorme sobre folhas de jornal.

No início de cada setembro
Ecoam desfiles da independência
Mas o sistema de comando
Aprisiona até a consciência.

Pensemos no escuro futuro
Que deixaremos às crianças
Um saco cheio de problemas
E vazios de ricas esperanças.

Vamos ensinar aos herdeiros
A idolatrar o hino e a bandeira
Para que em um tempo breve
Tenham amor à nação brasileira.

Independência só em moeda
É mero exercício de utopia
Liberdade de crescer feliz
Representa a real soberania.

No dia das paradas cívicas
Levemos o povo às janelas
Soldados baterão continência
Nós bateremos nas panelas!


Haroldo P. Barboza

O longo Inverno

Conto por Arlete Piedade

 

Era inverno e chovia há muitos dias. Já tinha passado o Natal e outro ano se tinha iniciado e não parava de chover. O mês de Janeiro estava quase no fim e desde o princípio de Dezembro que chovia sem parar.

Francelina era a mais velha das quatro irmãs que viviam naquela casa quase isolada no pequeno aglomerado de casas, longe da aldeia, no meio dos campos.

A norte era rodeado de pinhais e a sul, uma vasta campina atravessada de um ribeiro de água fresca e cristalina, estendia-se a perder de vista em direcção ás aldeias vizinhas.

Na margem do ribeiro, um velho moinho de água, moía incansável o trigo e o arroz, necessário á vida da aldeia e nos campos alagadiços, criava-se arroz, milho, e cultivavam-se hortas e vinhas.

Todas as famílias, tinham o seu pedaço de terra na campina, mas os pais das quatro irmãs, tinham também outras propriedades na aldeia vizinha de onde o seu pai era natural. Mas eram terrenos cultivados com oliveiras herdadas de varias gerações.

Todos os anos no outono as irmãs iam apanhar as azeitonas para levar para o lagar e extrair o azeite dourado que era depois guardado nas talhas em barro durante o inverno longo.

Durante o verão, Francelina e as suas irmãs, Amélia, Laura e Gertrudes, iam trabalhar nos campos de cultivo intensivo perto da cidade, a mais de 30 kms de distância.

Estava-se em 1950, os tempos ainda eram de recuperação da grande guerra, e as irmãs deslocavam-se a pé acompanhadas do seu burro, que carregava as ferramentas de trabalho e os mantimentos necessários para a sua subsistência, bem como alguma roupa.

A sua mãe sempre doente, ficava em casa na companhia do marido que era pedreiro. Mas naqueles tempos, as casas eram construídas de adobes, que eram grandes blocos feitos
de terra prensada e seca dentro de moldes de madeira, e que eram retirados e colocados nos lugares, para fazer as paredes, transportados ás costas, pelos pedreiros e seus ajudantes.

Então a somar á doença da mãe, juntava-se o cansaço do pai, prematuramente envelhecido e sempre com dores nas costas.

Quando as filhas chegavam dos campos estavam á espera da sua magra jorna, para pagar as contas do médico e dos remédios, bem como da mercearia da aldeia, que lhes dava crédito porque sabia que as filhas iam trabalhar e ganhar algum dinheiro.

Mas durante o inverno, não havia trabalho. Os campos estavam alagados com as cheias do rio Tejo, e não se podia cultivar. Entre Outubro e Março, eram os tempos das vacas magras. Valia-lhe os «fiados» e o azeite armazenado nas bojudas talhas de barro.

Quando a fome apertava e o dono da mercearia e da farmácia começavam a pedir se podiam pagar, o pai só tinha uma solução. Dizia á filha mais velha:
- Francelina, vai lá encher uns garrafões de azeite, que eu vou vendê-los á feira amanhã! – E diz ás tuas irmãs, para darem mais uma ração ao burro, para ver se ele pode com os garrafões que eu preciso de o levar!

Era o que as irmãs queriam ouvir. Estavam cansadas de estar fechadas em casa e de ver a chuva cair lá fora. Agora era ver quais delas, conseguiam convencer o pai a acompanhá-lo á feira.

Tinham ouvido dizer que os serradores da aldeia vizinha também já tinham voltado das florestas da Beira Baixa e sabiam que um deles andava interessado na irmã mais velha. Pelo menos ela tinha que ir á feira com o pai. Quem sabe o encontrava e o namoro não ia em frente. Pelo menos era menos uma boca para alimentar.

No dia seguinte iniciaram a jornada ainda era de noite. O burro estava bem alimentado e os garrafões de azeite foram colocados nos ceirões e amarrados com cordas.

Depois de comerem umas sopas de pão de milho duro, molhadas em café, pai e filha colocaram-se a caminho do mercado que era na vila distante 10 kms. Demoravam cerca de três horas e tinham que estar lá bem cedo para apanhar um bom lugar e poderem vender o azeite por um preço melhor.

Apenas Francelina como a mais velha, pode acompanhar o pai que ia á frente pelo estreito caminho á beira do regato, levando o burro pela arreata . Atrás seguia a filha, que com 22 anos e habituada ás longas caminhadas, não tinha problemas em fazer a caminhada até á vila.

Ia contente, a pensar no seu pretendente. Ele era da aldeia vizinha e tinha uma propriedade ao lado de uma do seu pai. Nesse Outono quando estavam a apanhar a azeitona, ele andava também a fazer o mesmo trabalho e tinham conversado um pouco.

Ele tinha-lhe dito que era serrador e que ia estar fora até ao Carnaval, porque ia serrar para longe, para a Beira Baixa, e que lá fazia muito frio e caía neve. Ela tinha gostado da conversa dele e tinha-lhe dito também que no verão ia trabalhar para os campos da lezíria do Tejo, para ajudar o pai a pagar as contas.

Durante as semanas em que tinham apanhado azeitona nas propriedades vizinhas, os dois jovens tinham ficado mais amigos e todos os dias se falavam.

Quando a adiafa chegou, que era a festa do final da apanha da azeitona, tinha havido um baile e tinham dançado juntos todas as danças.

Depois cada um seguiu o seu caminho, com a promessa de se verem no mercado pelo Carnaval. Francelina ia ligeira e mal sentia os pés tocarem no chão. Esperava pelo pedido de namoro e em resolver a sua vida.