Pagª 4 - EDIÇAO NºXLI , I NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Dois Poemas

Por  Denise Severgnini

Sentindo a morte de perto

Há um beijo que não dei, mas já é tarde
O destinatário partiu faz muito tempo...
Há aquela flor que não reguei... Sem alarde,
Dou-lhe a líquida fonte de vida... Contratempo
Há em mim, aquela dor que não cultivei...
Há no firmamento, A Força Maior,
Que agnóstica, inconsiderada, quase eu repudiei...
Visita-me espectro das sombras... De amor,
Busco roupagem... A disfarçar as mazelas que experimento
De passagem marcada à estação terminal... Repenso!
Escrevo ,eu trabalho, leio estudo,... Pra quê?...Nem minto!
Há ainda lavrado em meu peito aquele verso denso...
Não exaurido, nem sentenciado... Que sem querer eu sinto!
Tenho tempo... Dou-me o tempo... Apesar do desalento
Andejo de mãos dadas com o Criador... Sobrevivendo!
Meu jazigo aguarda-me, mas não agora!Entendendo,
Que há a expectativa do mal, mas a finalização do bem
Vou indo... Escrevendo... Chorando... Com ELE... Até o além!


A Poetisa Fenecida

Expirado o momento d’inspiração
Carnífice martírio de letras soltas
Mal diagramadas numa expiação
Em plúmbeo veludo, já envoltas
Traçam ritos da vate tão exaurida
Harpejam fúnebres árias... Riem
Do seu não ser expresso em vida
Letras malfadadas sobrevivem...

Poetisa serpenteia na soturnidade
Diáfanas vestes encobrem a agonia
Sem sua lira, não há prosperidade
Nem como poder falar de idolatria
Epopéias do desencanto desfraldam
Bandeiras que sacolejam escuridão
Perecidas almas a ela circunavegam
Impingindo um tanto de aliviação...

Não há conforto na palavra oblíqua
Um ego sorumbático nada produz
Nem mesmo um cura a ele se adéqua
Pois ela não se ajoelha ante uma cruz
Sucumbiram quimeras, versos alados
Desalento unânime na incerta essência
Tranquiliza na lápide, ossos cansados
Como epitáfio: Poetisa por excelência!

 

 

 

Histórias da Vida Real

 

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

 

 

Briga de Galos

Houve um tempo em que havia os galistas, criadores de galos de briga. Eram pessoas que ganhavam dinheiro para sobreviver, com a criação de raças especiais para disputas entre estas aves. Os galos mais procurados eram os ingleses e os índios.

Nas grandes rinhas tinha capoeiras, que eram casas para colocar os galos que aguardavam sua hora de desafio. O nome «capoeiras» eram dados a estas casas para não desmoralizar os galos, chamando-as de galinheiro!!!

As lutas eram marcadas, os galos pesados, suas esporas protegidas por couro ou substituídas por esporas de aço, dependendo do tipo de briga.

Os donos dos galos apostavam dinheiro e às vezes os que ganhavam também ficavam com o galo perdedor. Por fora havia o rateio e as apostas em dinheiro vivo.

O local onde os galos se degladiavam era um círculo de mais ou menos um metro e meio de altura e tres metros de diâmetro. As paredes eram revestidas de serragem moída, guarnecidas com lona ou sacos de aniagem.

Os galos eram treinados em casa, as penas das coxas eram extraídas, em parte do peito e do pescoço as penas eram aparadas. Massageados com banha de porco e lavados depois das lutas com água e cachaça ou com água e álcool.

Eram tratados com milho puro, a água era trocada quatro vezes por dia e alguns tratadores lhes davam algumas doses de pimenta picada para que a ave ficasse brava.

Em Imbituba também tinha alguns galistas e rinhas, recordo ainda dos lugares e dos proprietários, in memorian: Nelson Soares, Hermínio Rosa, João Barreiros e outros.

Alguns galistas eram famosos e conhecidos na região. Quando seus galos perdiam a luta eram recolhidos e passavam a quinzena descansando.

Quando esquecidos, se houvesse alguém que se lembrasse, o dono logo dizia:
Aquele galo foi para a panela há muito tempo.
A maquiagem era feita, as penas oxigenadas, mudavam todo o visual, que ninguém desconfiava.

Alguns famosos galos de briga de Imbituba depois de perderem alguma luta, voltavam dois ou três meses mais tarde, como se fossem de fora. Assim era renovado o plantel.

Só teve um caso que foi descoberto. Depois da briga, um dos galos maquiados foi revelado pelo dono, pois a alegria foi tanta, que depois de tomar algumas birítas, Seu Tião abriu o bico, dizendo:
-Precisei eu oxigenar este galo para ganhar a briga. E ele ficou acreditado, agora eu vi que tem muito neguinho tanso por aqui.

Foi um bate-boca grande, empurra daqui, empurra de lá. Daquele dia em diante os galos passaram a ser mais observados para que não houvessem mais fraudes.

Para que fraude maior do que esta que faziam com os pobres galos?. Fazê-los lutarem até não agüentarem tamanha judiação? Fico pensando quem eram os irracionais...