Pagª 7 - EDIÇAO NºXLI , I NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         


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Poemas de Patrícia Neme

FUGA

O que existe em você, que me agita, incomoda...
E desperta em meu ser emoções escondidas?
Em meu corpo, minh'alma não mais se acomoda...
E eu vagueio num mar de ilusões proibidas.

Já não sei mais de mim, a cabeça anda em roda...
Tive as minhas defesas, sem dó, invadidas...
E você nem cogita que tanto incomoda,
nem supõe, em meu peito, as candentes batidas.

E eu me escondo, eu me guardo, não sei o que faço
- quanto anseio sentir o seu beijo, um abraço -,
O meu tempo passou... Nada mais a sonhar.

Nada mais... Como pode tal fado, ferino,
me falar de você e marcar-me o destino
de fugir, e fugir, e fugir... Sem parar?


Soneto da Saudade

O céu desperta triste, em tom cinzento,
qual lhe fora penoso um novo dia;
aos poucos, verte, em gotas, seu lamento...
Um pranto ensimesmado, de agonia.

Um rouco trovejar, pesado, lento,
parece suplicar por alforria,
num rogo já exangue, sem alento...
A chuva... O cinza... A dor... A nostalgia...

O céu despertou triste... O céu sou eu,
perdida num sonhar que feneceu,
sou prisioneira à espera de mercê.

Sonhando conquistar a liberdade
desta prisão, que existe na saudade...
Saudade, tanta, tanta... De você!


O que é o amor

Talvez brisa sutil, cujo toque acalanta
o botão a florir, em promessa de vida...
Ou será minuano, que, hostil, aquebranta
a palmeira que, em prece, se eleva, incontida?

Arrebenta, revira, destroça, desplanta...
Há de ser vendaval, em loucura homicida?
Ou, bem mais, tempestade, que o peito agiganta
e desperta o queimor da paixão reprimida?

Ah, o amor! Explicá-lo é tarefa impossível...
As lembranças sussurram baixinho: é factível...
Tomo lápis, papel, e me entrego ao labor.

Um silêncio... Saudade... Uma lua tão cheia...
E o poeta que, errante, em minh´alma vagueia,
um soneto plangente começa a compor!

 

 

 

Poesia de Mário Matta e Silva

Criação de mim

Que te falta gérmen
Do meu génio;
Canteiro florido
Em meus neurónios?
Que te falta imagem
Que vens de há milénios
Incauta e destemida
Com ou sem heterónimos
Respirando meus sentimentos
Tormentos e lamentos
Duma alma aguerrida?
Que te falta na composição
Breve do meu pulsar
E no conforto de me dar
As letras, palavras versejadas
Ideias nervosas, riscadas
Recompostas, reformuladas
Como se numa oração
Febre constante da criação
Que me ilumina
Nessa nostálgica luz que cristalina
Me exalta os ânimos do Ser?
Que te falta relógio sem ponteiros
Sem horas, tempo, caminho
Produto de mim em torvelinho
Da minha própria existência
Por vezes qual demência
De um só viver?
Por certo não te falta luz
Perfume, harmonia e cor
Nem o mais alto poder do amor
Que rege meus passos
Feitos de impertinência.
Nunca te omito
Nem permito
A tua ausência
Em histórias, sonhos e mitos.
Poesia com princípio e fim
Cântico meu, criação de mim!

MARIO MATTA E SILVA