Pagª 32 - EDIÇAO NºXLI , I NUMERO  DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade. Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.         

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Histórias da Vida Real

Crónicas por Martim Afonso Fernandes

Baleia Franca

Segundo conta a História, em 1814 Antônio Martins Lage aportou em Imbituba, instalando uma das primeiras armações baleeiras. Eram estes os nomes dados para o sistema de caça às baleias, para industrialização do óleo e de outros produtos e para a iluminação.

Com as barbatanas eram feitos pentes, estiletes para espartilhos, cintas para deixarem as mulheres acinturadas, botões, réguas e outros utensílios.

Estas baleias são oriundas do pólo sul, vindas para as costas brasileiras onde as águas são mais quentes, para acasalar e parir suas crias.

A cada ano repete-se esta cena natural. Conhecida como baleia franca a espécie recebeu esse nome por ser a mais fácil de matar, dada sua docilidade e hábitos costeiros na época de reprodução.

Durante muitos anos as baleias francas foram sendo caçadas, quase chegando à extinção. Graças às campanhas ambientais e a proteção de leis, foi proibida a caça às baleias.

Lembro-me bem, quando criança e também na minha juventude, presenciei algumas baleias abatidas nas praias que banhavam Imbituba e Garopaba.

Recordo-me dos arpoeiros, homens de coragem, que quando iam arpoar os enormes cetáceos, muitos chegavam a encostar a baleeira junto à baleia, para com as mãos fazerem penetrar o arpão próximo à cabeça, acendendo o estopim e afastando-se para que a carga de dinamite explodisse e com isto o enorme mamífero fosse sacrificado.

Aí o animal era levado para a praia, era puxado com um guincho até fora da água. Alí faziam o desmonte, iam derretendo os blocos de gordura para fabricar o óleo que era exportado para indústria de fora do Estado.

Muitos anos se passaram até que chegaram as leis para a defesa das espécies. Foi aí que os cardumes aumentaram. O trajeto percorrido pelas mesmas ainda é o anterior.

Há alguns anos, em Imbituba foi formada uma ONG para estudo, observação e controle.

Nas épocas de visitas e passeios destas espécies, turistas de várias cidades e estados se deslocam para Imbituba, onde é maior a concentração de baleias entre meados de agosto a meados de outubro.

Tive uma grande satisfação, no dia 09-09-99, quando morava na frente da Praia da Vila, em Imbituba, da sacada do terceiro andar, entre as Ilhas Santana de Dentro e Santana de Fora, observei o movimento de seis baleias com três filhotes. Pareceu-me um ritual de Festa de nascimento.

Devido à quantidade, neste dia, onde nunca se havia visto tamanha reunião de baleias, entre as duas ilhas, começaram a vir pessoas, adultos e crianças para apreciar o espetáculo.

Pelo dia lindo que fazia, parecia uma homenagem da Natureza para com aqueles seres que estiveram tão próximos da extinção.

Observei e senti-me inspirado, passando para o papel em 15 minutos uma poesia, que até hoje não consegui alguém para colocar-lhe a música, pois não nasci com este privilégio de musiscista.

Talvez até um fado. Se algum leitor do RaizOnline quiser homenagear esta bela espécie de cetáceo, dando uma melodia em qualquer ritmo que se amolde a esta poesia, tem total e ampla autoridade para fazê-lo. Se, por acaso vier a dar alguma conversão financeira, será revertida totalmente para alguma associação de deficientes visuais.

BALEIA FRANCA NA PRAIA DA VILA

Oh baleia, baleia franca,
Na praia da Vila.
O turista faz fila pra te admirar.

Franca és baleia, que após seres vista,
Fazes as pessoas sentarem na areia,
Franca és baleia!

Da areia da praia, olhando para o mar,
O turista admira
A baleia a bailar.

Voando e plainando, gaivotas e calixtos,
Do ar mergulhando para a água bicar.
O peixe a pular, o peixe a pular.
E a baleia? ... Continua a bailar.

Crianças constroem castelos na areia,
As ondas crescendo, aparece a baleia.
Baleia Franca, como tu me encantas,
No teu bailado pareces sereia!

O turista faz fila e mudo se planta.
Baleia franca, baleia feliz, feliz és baleia,
Porque te vejo pertinho da areia.

Baleia que encantas, serás sempre vista,
Baleia Franca, Baleia Franca,
Como tu me encantas!

 

 


ENTENDENDO MACUNAIMA

Por Antônio Carlos Affonso dos Santos (Acas)

 

 

N. A : esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com personagens ou fatos novos ou antigos, trata-se de mera coincidência.

Canto Primeiro( e único):

Macunaíma, «herói de nossa gente» nasceu à margem de um rio seco, em pleno agreste. Descendia de uma tribo Niilista.. Desde a primeira infância revelava-se como um sujeito tido por preguiçoso.

Ainda menino, buscou a companhia dos meninos maus que se reuniam semanalmente entre os canaviais, para cobrar propina dos outros garotos. Certo dia, um dos seus líderes deu-lhe a cauda de um calango para comer. Objetivo: provar sua coragem e lealdade perante os pitizinhos, nome com que sua turma era chamada.

O calango havia sido caçado pelo próprio Macunaíma; a mando do chefe, sem saber o porquê. Já os pitizinhos tinham para comer somente as tripas de uma anta, caçada pelo amigo pessoal de Macunaíma, sem que este o soubesse, numa armadilha esperta. (Havia muitas antas naqueles e outros canaviais. Macunaíma saberia disso depois de algum tempo).

De tanto aprontar, foi abandonado pela mãe tapuia no meio do mato. Deixaram-no numa canoinha feita de casca de ipê, porém logo que conheceu o Abecedário, novos rios formaram-se, então ele teve que abandonar a canoa e morar por trinta e poucos anos na casa dos pitizinhos, agora com uma das maiores redes para se deitar.

Nessa rede cabia todos eles. Tremelicando, com suas perninhas em arco, Macunaíma botou o pé na estrada, até que topou com o Curupira Ceudir e perguntou-lhe como faria para voltar pra casa. Maliciosamente, o Curupira ensina-lhe um caminho errado que Macunaíma, por preguiça, não seguiu, escapando de um monstro.

No entanto, o Curupira fez feitiço e cortou-lhe um dedo em sonhos. Escapando do monstro, nosso (anti) herói topou com uma voz que cantava uma toada lenta: era um preá, que depois de ouvi-lo contar como enganara o Curupira, jogou-lhe em cima calda fermentada de mandioca.

Isto fez Macunaíma crescer, atingindo o tamanho dum homem taludo; no entanto jamais ficou livre do álcool que o preá lhe jogou. Numa das muitas vezes que Macunaíma fez transas («brincadeiras de bobices») com uma tapuia germânica, transformou-se num príncipe lindo perante os índios. Então, nosso (anti) herói, é iniciado num processo constante de metamorfoses: de índio negro, vira branco, depois vira inseto, vira peixe e transforma-se até mesmo num pato e num cordeiro. Tudo para não ter que trabalhar.

Consegue uma oca de graça para ficar por quatro anos; porém ele a abandona constantemente e os pitizinhos aproveitam-se de sua ausência para apossarem-se dos bens da tribo. Em toda a selva os tambores anunciam que Macunaíma sabe dos roubos, porém ele permanece com os olhos e ouvidos fechados. Só mantém sua afiada língua falante. Ninguém percebe, porém sua língua transforma-se em língua de tamanduá.

Agora, pode meter a língua nos mais terríveis formigueiros, empanturrar-se de içás e mesmo assim dizer que daquela formiga ele não come.

Sua língua rude, áspera, de verniz barato, arranjava tantas desculpas quanto fossem necessárias para manter-se fora de suspeitas. Há quem diga que 84 anos depois, Macunaíma vive, mais do que nunca. Ele é e está vivo.