Pagª 37 - EDIÇAO NºXLI
, I NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
O homem em Kant
Por
Daniel Teixeira
Estudar Kant sem estudar a filosofia da natureza da época de Kant é não partir
de um dos princípios essenciais para a compreensão da sua filosofia.
Mesmo sem entrar em pormenores técnico astronómicos é importante notar que
Nicolau Copérnico «tirou» ( em relação à astronomia Ptolomeica ) a Terra do seu
até aí «lugar natural» e projectou-a no céu. O ponto 5 do Commentariolus (1512),
muito anterior à sua obra mestra «De revolutionibus orbium caelestium» de 1543
diz textualmente o seguinte: «Nenhum movimento aparente do firmamento se deve a
um movimento do próprio firmamento mas ao movimento da terra. A terra e os
elementos que a circundam executam um rotação completa em torno dos seus pólos
fixos num dia, enquanto o firmamento e os céus permanecem imóveis».
Se trocarmos os termos poderemos compreender uma das partes essenciais da
filosofia de Kant: «Nenhum movimento aparente da natureza se deve a um movimento
dessa própria natureza mas sim a um movimento do indivíduo que a observa. A
natureza e os elementos que a envolvem (neste caso «natureza» deve ser entendida
como terra e «elementos» como os próprios astros, ou seja, o ser que observa, o
homem, está ele mesmo incluído num outro movimento exterior ao seu próprio
movimento) executam uma rotação completa em torno dos seus pólos fixos, enquanto
o firmamento e os céus permanecem imóveis.»
Assim, e por outras palavras a natureza do observador e da observação é
duplamente condicionada: de um lado pela sua própria «qualidade» ou «faculdade»
de observar e de outro lado pela sua posição dentro de um sistema igualmente
móvel ( e que, logo, fornece perspectivas diferentes ou posições perspectivantes
diferentes ao observador humano). Quanto ao que se mantém fixo é o «fundo» das
coisas, ou seja, aquilo que está por detrás delas e que ao mesmo tempo as contém
em si. (Neste caso o firmamento).
A perspectiva de Kant sobre o homem e sobre a filosofia está nitidamente
condicionada por estes factores que referimos. O indivíduo e a terra, o planeta
onde ele vive, são ambos objecto de um processo que os transcende, sendo o homem
transcendido por si mesmo ou por aquilo que está nele ( pelo seu próprio ser que
não conhece) e transcendido igualmente por uma outra transcendência que está
nele de uma forma mediada, ou seja, está nela (na transcendência mediada) porque
a própria Terra (natureza) é ela mesma transcendida e transmite essa
transcendência necessariamente ao homem.
Tudo o que se refere à transcendência é necessário e absoluto: o homem, contudo,
dada a sua faculdade de pensar (o que a restante natureza de si separada não
faz) tem pontos de partida (que são simultaneamente pontos de chegada) aos quais
se agarra como certezas que tem que considerar absolutas na sua relação, ou
seja, são absolutas para si mesmo embora o não sejam absolutas na sua posição
enquanto ser natural, ou enquanto ser incluído na natureza, que por sua vez
está, esta natureza, incluída num outro processo que sobre ambos exerce
influência.
O absoluto de si mesmo, daquilo que está contido em si mesmo, obtém-no o homem
de uma forma imediata (pelas sensações, pela experiência, pelo empirismo) e a
sua necessidade de certezas leva-o, inclusivamente, a considerar como absolutas
para si algumas das certezas que remotamente advêm do seu empirismo (as coisas à
priori, as intuições, aquilo que ele considera estar nele antes da experiência
mas que sabe - ou deveria saber - que resultam de uma experiência por si feita
ou por outrem que lhas transmitiu).
E poderíamos acrescentar, que quando outro não transmite algo, nem nós temos
possibilidade de o apreender por experiência, que se procede por analogia,
procurando dentro de nós ou de outros aquilo que nos responda, mesmo que não se
trate do mesmo, porque o homem não pode viver sem uma explicação, mesmo que essa
explicação seja aquela que nos diz que «não podemos saber» (mas temos sempre uma
opinião de como deve ser).
O relativo de si mesmo é a sua posição vista no contexto mais vasto da sua
relação com a natureza. Ela, a natureza, de certa forma, é dotada de vida como
ele mesmo (ou pelo menos transforma-se) e tudo aquilo que ele se apercebe como
sendo do domínio da natureza apenas pode ter um grau de certeza relativa, no que
se refere à sua relação com ela, como objecto. Aí, a sua certeza relativa em
relação ao objecto natureza detém-se nos fenómenos que ela, natureza, lhe dá a
perceber (nos seus fenómenos).
É então que a necessidade de certezas o leva a absolutizar alguns dos conceitos
que percebe na natureza, interiorizando-os, trazendo-os para si, para dentro de
si e fazendo-os seguir o procedimento normal dentro das diversas escalas do seu
conhecimento (que vão do empirismo - á posteriori à intuição - à priori). Em
certo sentido, pensa o homem de Kant, a relatividade dos fenómenos da natureza é
relativo a ela mesma, ou seja, à sua própria condição de natureza.
O homem (estando incluído nessa natureza como ser natural que é) e tendo em si «duas» relatividades precisa de obter certezas (ainda que essas certezas não sejam, fundamentalmente, senão certezas subjectivas e provisórias).
Assim, e em face da natureza só lhe resta a solução de ele mesmo interiorizar os fenómenos que ela lhe proporciona, subjectivá-los, torná-los seus, vistos na sua óptica.
Assim, o homem em si, sendo ser transcendente (na medida em que a sua natureza o transcende) torna igualmente transcendente o fenoménico da natureza (que lhe é duplamente transcendente) e as suas leis. Ele por sua parte, procura destacar-se da natureza (aliás, ambição que já vem de longe) não gosta de se sentir como objecto dentro da natureza, quer ser sujeito, ou seja, quer governar-se a si mesmo ( e, mesmo, gostaria de governar a natureza).
Como detém em exclusivo a racionalidade (a razão – ou pelo menos pensa que a tem exclusivamente) pode facilmente separar-se, neste aspecto, da natureza, dos restantes animais, por exemplo.
É dentro destas duas relatividades do homem que o homem quer reduzir a sua
relatividade, ou seja, a relatividade do seu ser o que é tarefa demasiado
ambiciosa uma vez que não tem acesso ao seu ser (isto implica, desde logo, e
muito antes de Kant o dizer no final da sua filosofia, que o homem é um ser
criado, objecto do criacionismo, aliás como a própria natureza no seu todo).
Assim, e como não pode reduzir o seu ser dependente (variamente de factores que
o transcendem) procura reduzir o seu desconhecimento em relação a si mesmo,
certo que um dia, ao conhecer algo que não pode agora sequer admitir poder
conhecer, poderá finalmente controlar esse seu saber de si (do seu ser) de forma
a que seja (nesse dia indeterminado) como ele realmente quer ser.
Ora, isso implica desde logo uma ideia daquilo que ele vai querer ser. O que ele
quer ser hoje, e não é, sabe-o ele ainda que de forma imperfeita. Por isso busca
algo, uma ideia, pelo menos uma ideia, daquilo que ele deseja hoje para ser
amanhã (ou num dia indeterminado, no devir).
Assim, o indivíduo que procura ser (como ele gostaria de ser, partindo da
perspectiva que tem hoje desse dever ser) constrói todo um sistema que o leve a
esse fim, sistema esse que, forçosamente reflecte no seu querer ser no futuro
aquilo que ele hoje entende como o dever ser amanhã.
Assim, amanhã (no devir) o homem será não só aquilo que ele quiser ser, nesse
devir, como também aquilo que ele quer ser hoje projectado no devir. Logo, por
um lado, não pode forçosamente ser como entende que é - um ser variamente
relativo - e também não pode querer ser aquilo que hoje não admite como possível
no devir.
Essa sua projecção do futuro estará sempre condicionada por dois factores de
ordem diversa: o seu entendimento de hoje do ser como dever ser e o seu
entendimento do ser como dever ser no devir.
Esta dupla preocupação leva-o a unificar (ou a tentar unificar, ou totalizar) o
presente enquanto querer ser com o futuro enquanto querer ser. Assim, o homem de
amanhã, mescla da ideia mesclada que construiu, será, forçosamente um homem que
sabe mais sobre o homem e sobre a natureza onde está incluído.
Quer dominar-se a si mesmo e dominar a natureza onde vive, condições recíprocas,
aliás. É normal, que, ao fim de tanta lucubração, se aperceba que algo lhe
falta.
Para conhecer a natureza, melhor, e para se conhecer a si mesmo, melhor,
necessário se torna conhecer as suas origens, o seu princípio primeiro.
Pode não querer, ou não ousar sequer pensar que pode dominar esse seu princípio
primeiro, mas pode facilmente pensar que, uma relação menos desproporcionada
seja condição vantajosa para o domínio de si mesmo enquanto ser.
Para o efeito aceita um raciocínio simples: se eu não ferir esse meu princípio
primeiro (no qual eu estou reflectido ou do qual eu sou reflexo) estou
certamente no bom caminho. Ora, esse bom caminho tem de ser algo que me conduza
em direcção a esse objectivo com a condição de não ferir esse meu princípio
primeiro.
Logo, o meu percurso há-de ser um percurso que preserve esse meu princípio
primeiro (logo, a minha vida, na qual esse meu princípio primeiro se reflecte,
seguramente, de forma directa ou de forma indirecta) e tem de ser um caminho que
me conduza ao conhecimento desse meu princípio primeiro.
A identificação de um Deus (ou de Deus) aparece como imediata como sendo o
princípio primeiro e o percurso é seguramente aquele que me leva a Ele. É
difícil (por mais que a ciência tente) ao homem reconhecer, ou admitir que possa
eventualmente, ter começado num «bocado de matéria» indistinta, em algo não
dotado de inteligência, e simultaneamente de uma inteligência superior (em certo
sentido criadora).
A obra da natureza é enorme (temos todos de reconhecer) e dificilmente se
identifica a sua origem a meras relações empíricas ou causais (A produz B e B
com A dá C e assim sucessivamente). É até desprestigiante para o orgulho do
homem, ser ciente da sua racionalidade e da sua exclusiva racionalidade pensar
assim. Terá forçosamente de ser o princípio primeiro um ser dotado de uma
inteligência superior e não poder ser um qualquer bocado de matéria indistinta.
Ora, a história do homem demonstra claramente que aos superiores se deve
obediência. Os próprios filósofos tratam de explicitar a necessidade dessa
obediência apontando os momentos maus da desobediência, e eles são bastantes
durante o decurso da história humana e praticamente tudo o que resultou mal está
entranhado no nosso conhecimento como sendo resultado de desobediências (aliás,
tudo tem resultado mal porque se tivesse resultado algo bem nem sequer todo este
problema se punha, estávamos satisfeitos e logo não precisávamos do futuro para
nada, senão para perpetuar a espécie ou a nossa própria vida).
Portanto o homem para ser amanhã aquilo que pensa hoje que pode ser amanhã deve
ser obediente em relação a esse ser supremo e é nessa base que Kant, como tantos
filósofos, de todas as correntes, têm desenhado nos seus livros o mundo e o
viver humano. Distinguem-se, alguns, por questões de pormenor, mas o fundo é - e
se calhar não pode deixar de ser - sempre o mesmo.
É o nosso firmamento mental no qual nós nos movemos e onde ele está fixo. Se
damos um salto ou uma pirueta, apenas a damos para nós mesmos e para quem nos
observa: o firmamento do nosso pensar, esse, mantém-se inalterável, ou pelo
menos é assim que nós nos apercebemos dele.
É assim o homem de Kant e o homem de muitos filósofos...