Pagª 22 - EDIÇAO NºXLI
, I NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Poemas de Arlete Piedade

Oh mar!
Oh mar azul que serves de união
entre duas margens tão distantes
àqueles que saturados da paixão
vivem com promessas de amantes...
acima, o firmamento e as estrelas
e os espíritos dos que, saudosos
nas noites longas, como caravelas
navegam o céu, buscando amorosos
oh insondáveis mistérios humanos
que no vale de lágrimas, vagueiam
unidos na incerteza desse porvir
por sobre o mar, ao longo de anos
buscam esse contacto, que anseiam
num tempo do futuro, ainda por vir!
Arlete Piedade
Outono
Agora que o final do verão se aproxima
Toda uma época da minha vida está a findar
A passos largos, a velhice está a cavalgar
E descai para baixo, o que estava em cima
Podem dizer que a alma continua igual
E o espírito é que conta, sempre inabalável
Mas a juventude perdida, é inalcançável
E o corpo quer reagir, mas não consegue tal
É como no Outono, em que se faz a colheita
Caem as folhas amarelecidas pelo tempo
E no campo só ficam troncos desnudados
E nas mulheres, o que ainda se aproveita
Se nos seus corações, vive o sentimento
Mas já não reagem os corpos cansados?
Arlete Piedade
Coluna Poética de Sá de Freitas

AQUELE HOMEM
Aquele homem ali, roupa rasgada,
Barbudo, de chapéu, ao nada olhando,
A estender a mão suja e cansada
À caridade dos que vão passando,
Já foi uma pessoa destacada
Na alta sociedade, mas julgando
Que os pobres nunca mereciam nada,
A prática do bem foi ignorando.
Vivia à sós sem ter nenhum parente
E fortunas gastava inutilmente,
Mas tudo, um dia, desapareceu.
Passou o tempo e agora abandonado,
Por ironia fica ali sentado,
Rente à porta do prédio que foi seu.
NAO ME DIGAS: «TE AMO»
Não me digas: «Te amo loucamente!»
Porque a palavra é apenas ressonância,
Que se perde, com o tempo, na distância,
E cai no esquecimento facilmente.
Prefiro um abraço sem nem um ruído;
Um beijo sem sussurros de promessa;
O teu olhar que quase sempre expressa,
O desejo que trazes escondido.
Não fales que me adora e que me almejas,
Entregas-te em meus braços simplesmente,
E me demonstres o quanto me desejas.
Se me disseres qualquer coisa agravas
O nosso idílio... E tenhas sempre em mente,
Que um suspirar diz mais que mil palavras.
O PODER DA CARIDADE
Se procura suprir, ao ver sem nada,
A mesa do idoso ou da criança;
Se traz consolo à alma já prostrada,
Sem fé e desnudada de esperança.
Se vai, tal como pode, na jornada,
A dar auxílio a todos sem cobrança;
Mesmo que certa ingratidão o invada,
Pela estrada do bem sem mágoa avança.
Se mantiver sua boca sempre muda,
Para não propagar sua bondade,
Humilhando a quem teve a sua ajuda...
Ah! Meu amigo ou minha amiga, a cruz
Que faz sangrar seus ombros sem piedade,
Vai ficar leve ao lado de Jesus.
SOFREMOS MUITO?
A cruz que arrastas pela vida afora,
Tal qual a minha, às vezes pesa tanto,
Que nos provoca o mais copioso pranto
E a esperança nossa se evapora.
Mas se olharmos com atenção lá fora,
Veremos com piedade e com espanto,
Que há cruz maior que a nossa, em cada canto;
Que há gente que soluça, grita e implora.
Se os pés ferimos, há os que não os tem;
Se a nossa vista é fraca, há os que não veem;
Enquanto andamos, há os que escalam serras...
Lembremos-nos: Há enfermos condenados;
Há nas ruas farrapos esfomeados;
Há milhares de vítimas das guerras.
O Orkut e outros fenômenos culturais da Internet, um universo à espera de
análise dos cientistas sociais...
Por: Se Gyn
Assisti, dias atrás, a uma entrevista do criador da Wikipédia, falando sobre a sua cria e, as implicações de seu desenvolvimento e crescimento (inclusive quanto ao Brasil). A certa altura, ele disse algo sobre o qual eu não tinha pensado objetivamente, ainda, por preconceito contra a própria Internet, talvez: «As pessoas estão escrevendo hoje, como nunca foi feito antes...»
Veja só que sacada: ao contrário de uma visão preconceituosa e elitista, ele
evidencia, com razão (depois de pensar um pouco, comprei a tese dele), que para
se comunicar com uma comunidade inteira de amigos virtuais, o indivíduo tem,
que, fatalmente escrever. São poucas linhas a cada evento, mas, ao final,
resulta em algo expressivo, pelo menos em termos de atividade. Como diz o velho
ditado: «melhor que nada»...
Há um longo tempo, acompanho, espantado, a penetração da Internet na vida social
dos brasileiros da região urbana em que moro e, verificando o efeito da
interação da população com o meio virtual, a partir dos dois principais agentes
disseminadores dessa cultura, que, entendo, são, as redes de computadores das
empresas e, as chamadas lan houses. Ninguém me tira da cabeça que foram eles que
impulsionaram a venda de computadores para a classe média e classes populares e,
depois, os transformaram em frequentadores assíduos da Internet e, de todas as
ferramentas de comunicação e comodidades do mundo virtual.
De fato, nesse processo, à parte a consideração de que o computador deixou de
ser ferramenta de incremento do trabalho para se transformar em meio de
comunicação (tese de Joelmir Betting, se não me engano), eu creio que o
brasileiro mudou, no sentido de que se afirmou mais como pessoa e cidadão (sem
intermediários), através de mecanismos do meio virtual, onde encontrou fácil
acesso a serviços de empresas privadas e, principalmente, de órgãos públicos -
pois, é um fato inegável de que, a web ajudou ao brasileiro comum a livrar-se do
inferno da burocracia enrolada, obtendo remotamente documentos que teria
dificuldades de obter, pessoalmente.
Essa janela de acesso fácil aos serviços públicos (juntamente com a adoção dos
shopping de serviços - projeto gestado no governo de FHC e, testado em primeiro
lugar no Estado da Bahia, se não me engano), ajudou, inclusive, a mudar o
conceito da sociedade sobre a oferta e qualidade dos serviços públicos - por
motivos profissionais, sei bem do que estou falando nesse ponto.
Na Internet, os alunos das escolas públicas e/ou de bairros mais afastados,
acharam uma fonte acessível e inesgotável de pesquisa. Os jovens, no começo, uma
fonte absolutamente inesgotável e planetária de diversão, a um custo
relativamente baixo.
Mas, evidentemente, é no ramo da interação social é, que a Internet tem o seu
grande e revolucionário atrativo e, hoje, não tenho dúvidas, a sua força motriz
(ainda que «motriz» seja um termo totalmente obsoleto, quando se trata de mundo
virtual).
E aí, que ela convalida e reitera continuamente a tese de que o homem é um ser
social, pois a frequência ao MSN e, ao Orkut significam não menos que um
contínuo processo de socialização humana. No início um interesse diletante e,
uma curiosidade, um desejo de experimentar. Depois, uma experiência envolvente
e, francamente viciante (sei do que estou falando nesse sentido, também).
Na Internet é possível as mais diversas experiências e níveis de interação. A
despeito do que pode parecer, dessa interação resulta um série de fenômenos
diferentes - como é o exemplo da globalização das relações sentimentais (dias
atrás, estava numa festa em que, estava presente um alemão, que viera para o
Brasil conhecer e noivar-se com uma goianinha - ela não fala alemão e, ele não
fala português, mas se viram com o inglês colegial e, os gestos de dois
adolescentes apaixonados...), mas costuma se estender a muitos outros níveis,
como é o caso, das oportunidades de emprego, de colaboração em atividades
acadêmicas e, até a construção de textos virtuais (é o caso desse aqui, que
nasceu de uma discussão a respeito do assunto, com uma colega aqui do Netlog).
A construção de textos em colaboração, por motivos puramente lúdicos é curiosa,
na medida em que, ao contrário dos textos institucionais (para os quais existem
as ferramentas de colaboração virtual do Word, Excell e outros aplicativos do
gênero...), pois, ao contrário deles, estas não tem objetivos inciais,
barreiras, objeto ou limites precisos, e resulta justamente nos desdobramentos
inesperados, na multiplicação de pontos de vista e expressão...
Fico espantado com a familiaridade das pessoas mais simples com o uso de
tecnologia de ponta nas lan houses, para se comunicar com parentes da região
onde emigraram, por exemplo ou, se comunicar com um a nova geração de parentes
que imigraram daqui para o exterior, para desenvolver parte do trabalho no meio
virtual e, por aí, vai...
Há muita coisa pra ser reverida e explicada na Net. Por exemplo, a explosão do
uso do Orkut entre as chamadas classes populares, no Brasil (onde está o seu
maior número de usuários).
Por aqui, ele tem um valor muito diferente que tem nos EUA, onde nasceu, ou
qualquer outro país mais rico: não é algo a mais na Internet - é «o» programa de
interação virtual, por excelência e, tem uma função social algo relevante (sua
marca tem valor afetivo para os brasileiros e, desconfio, pode até ser medido,
exatamente como o da coca-cola) . Por isso, se transformou num fenômeno cultural
definitivo e já entranhado, entre nós.
Fico sempre observando isso: quando se encontram numa oportunidade íntima o
bastante, perguntam: «voce tem MSN?" Quando se conhecem um pouquinho mais, não
tardam em perguntar: «voce tem Orkut?» Para os pré-adolescentes, em geral, ter
perfil no Orkut é algo essencial, que os irmana e, nivela...
Tenho comigo que, se pode fazer todo tipo de trabalho acadêmico, a partir do
conteúdo inserido no Orkut. Dá, por exemplo, para fazer um trabalho
antropológico e etnográfico, a partir da iconografia.
Pode-se fazer um excelente levantamento sociológico, analisando os perfis ou, analisando as cadeias de relacionamento (e, isso, ele dá de bandeja!). Também é possível realizar um trabalho de verificação da efetividade do sistema educacional, a partir da análise dos conteúdos escritos (até por região...).
Na área do Direito posso fazer um monte de coisas diferentes, inclusive na área
de criminologia, tipologia do crime (execução remota de crimes mediante
utilização da rede e terceiros). E por aí, vai...
Se eu fosse um acadêmico de Comunicação Social, entretanto, antes de entrar no
estudo dos fenômenos do espaço virtual, ia me bater por uma tese importante que
passa despercebida: a importância do micro - empresário e da lan house, na
revolução digital que ocorreu no Brasil.
Veja só, enquanto o governo pensava em distribuir e-mail, as pessoas já estavam
frequentando as lans, para, instintivamente, aderir à revolução que significa o
ingresso e interação no mundo digital. Isso foi uma quebra de paradigma e de uma
tese muito frouxa, que alguém batizou de «apartheid digital» e, dançou, porque
não esperava o golpe representado pelo micro-empresário brasileiro, que não tem
nada de tese, nem entende a fundo de informática, mas entende do que chamam
mercado, onde a novidade é sempre esperada, bem-vinda...
Uma grande idéia é a academia da área de ciências sociais se despir com urgência
do preconceito acadêmico e, descobrir, a tempo, as possibilidades de estudo
quanto ao incrível efeito cultural da inserção paulatina da população brasileira
no mundo virtual - que magnifico e gigantesco espelho!, pois ali está um retrato
do Brasil em perspectivas (até mesmo, as futuras).
Acho isso, aliás, bem melhor do que produzir teses do tipo: «o conceito de
sertão, na obra de Guimarães Rosa», que virou uma preguiçosa e lamentável mania
acadêmica, no Brasil.
«A gente não quer só comida/ a gente quer comida, diversão e arte / a gente não quer só comida / a gente quer saída pra qualquer parte (A. Antunes, M. Fromer e S. Brito)».
«O povo gosta de luxo. Quem gosta de miséria, é intelectual ( Joãozinho Trinta)».