Pagª 29 - EDIÇAO NºXLI
, I NUMERO DE OUTUBRO DE 2009 - COMENTARIOS
Direcção Interina: Daniel Teixeira. Chefe de Redacção: Arlete Piedade.
Relações Publicas: Alexandra Figueiredo. Educação e Cultura: Arlete Deretti
Fernandes. Consultor Africa: João P. Correia Furtado.
Contos da Horta Comunitária 713 Norte, com 103 espécies de ervas medicinais e ornamentais e 19 espécies de animais silvestres livres, na área pública em frente ao Bloco B residencial da 713 Norte - Brasília.
Por
Sandra Fayad
Serviço para recolher doações
Sábado à tarde eu descansava em meu quarto, que fica no mezanino do Sobradinho, entretida com um programa infantil na TV, quando recebi o telefonema.
Do outro lado da linha voz de mulher:
- Talvez a senhora não se lembre de mim... Já estive aí na Horta Comunitária
conversando a respeito do trabalho de vocês. Meu nome é Paloma.
- Desculpe, querida! Não estou me lembrando. É que vem muita gente aqui todos os
dias...
- Não tem importância. Estou ligando para dizer que acho maravilhoso tudo o que
vocês fazem aí. Essa coisa de cuidar de plantas... é lindo! Parabéns!
- Obrigada. Seja sempre bem-vinda!
- Mas estou também querendo saber se vocês têm um serviço de transporte para buscar doações em domicílio. Explico: é que tenho uns vasinhos usados e um pacotinho de terra sobrando que quero doar para a Horta, mas quero que venham buscar porque estou sem carro.
- Lamento Paloma. Não temos esse serviço. O tempo aqui é muito curto e somos apenas duas senhoras já capengando para todas as atividades. Além disso, já explicamos que as doações devem ser entregues na Horta. Assim as pessoas participam diretamente do seu desenvolvimento, vivenciam todo o processo e nos dão uma forcinha.
- Sei – respondeu decepcionada. Mas é que eu queria também saber se doando esses
materiais vocês me fazem três jardineiras de temperos, em troca.
- Lamento outra vez. Não fazemos esse tipo de atendimento. Como já informamos no
Mural, não é essa a nossa proposta. Doação é uma coisa, serviço de jardinagem é
outra.
- Então qual é essa proposta de vocês? Não estou entendendo...
- Bem, repetindo: aqui a proposta é receber as pessoas que queiram participar da
Horta envolvendo-se nas atividades rotineiras, aprendendo a cultivar... Todos
são bem vindos, desde que estejam dispostas a interagir com a natureza,
multiplicar esta idéia. Não é como uma casa comercial. Entende?
- Entendo. Mas eu já faço muito para ajudar vocês. Olha, não deixo meus netos jogarem lixo nas ruas, não estrago ou arranco árvores, não desperdiço água...
- Ótimo! Mas desculpe se o que vou dizer não lhe agrada: você não está fazendo isso para nos ajudar, mas para tentar livrar-se e a sua família de doenças e até da extinção antecipada. Por que não tenta plantar suas próprias mudas? Eu posso lhe ajudar, se quiser. É só vir até aqui e faremos juntas suas jardineiras de temperos. O que acha?
- Muito legal, mas não tenho tempo. Obrigada.
«Ih, ela não gostou» - pensei
E se eu lhe dissesse:
A vida é muito mais
Mais do que se vê
Mais que toda a Terra
Que a Galáxia e o Universo.
Agora vê se não erra
Pega o rastelo, rastela!
Senão a gente se ferra.
Sandra Fayad
Similar à dança sensual de uma odalisca,
Folhas bailam como um véu mulçumano.
Silenciosas, movimentam-se maduras,
E vão pousar discretas sobre o real trono,
Pintado de marrom com verdes ranhuras.
Descem empurradas pelo vento leve.
Solitárias ou em pequenos grupos,
Vão criando caramelos colchões de neve,
Leito móvel que estala sob os pés descalços
Da poesia, que a tudo assiste e descreve.
Tons pastéis são molduras do cenário
Pincelado por ipês roxos, abacates, amoras,
Que surgem como quem sai do armário
Á noite, surpreendendo as auroras,
Cada dia, com seu novo vestuário.
Instala-se e cumpre à risca o seu papel.
Irreversível, segue o ritmo da ventania.
Depois marcha para o deserto, a tropel.
Vai enxugar a voz do cantor ao meio-dia
E ralar a mão do escultor, com seu cinzel.
Dará por fim boas vindas ao forasteiro,
Reverenciando-lhe a chegada com chapéu
E retira-se, entregando o comando inteiro,
A quem dominará a cena como menestrel.
http://www.sandrafayad.prosaeverso.net/
Continuação - CARNAVAL - Manuel Fragata de Morais - (Ver Inicio)
Riram, fizeram amor, tomaram banho e foram para a cozinha. Comeram, foram para o quarto, fizeram amor e dormiram até à meia-noite.
Após os longos e monótonos anos dos carnavais da vitória, a tendência da
pequena burguesia urbana foi recuperar os tempos perdidos na imolação
cultural socialista. Deste modo, lançou-se avidamente nas festas privadas de
arromba, com a mesma ligeireza de roupas e preconceitos. O que era bom para
o Brasil também o era para Angola, ou há telenovela para todos ou a moral
que se dane. Todavia, no desfile principal do Carnaval, na Marginal, essa
pequena burguesia não ousava copiar o país irmão.
A Marginal continuava a ser para o pé descalço.
Helder e Margarida saíram de casa por volta da primeira hora da madrugada,
recuperados e prontos para a segunda noitada.
Procuraram por uns amigos e compartilharam a mesa. Viram chegar Milocas,
mascarada de motocicleta, e o Fausto, mascarado de grávida, conhecido nos
círculos da fofoca pelo Pila de Elefante, sendo desnecessárias mais
explicações.
«Olhem, pensei que viria mascarado de bomba de gasolina.», disse Margarida,
indicando com os olhos, «até condiria com ela.»
«Bomba de gasolina?»
«Se é verdade o que dizem, bastava-lhe por a mangueira ao ombro e voilá!...»
«Oh não, Margarida! Ainda é muito cedo para esse tipo de laracha...», disse
Helder, entre os risos dos outros.
O recinto ia-se enchendo e conforme as amizades, assim eram juntadas as
mesas.
Numa delas, encontravam-se o Choco, a Mandioca, que mantinham um caso
secreto só para eles, a Cebola, o Jindungo, pronto reunidos pelo par Sal e
Oleo de Palma, num arrojado arranjo mascarado.
Por fim chegou sozinha a que geralmente era a vida da festa, Água, mascarada
pura e cristalina.
Por volta das quatro da manhã, a famosa Banda Viramilha não tinha acordes a
medir. Os foliões esfalfaram-se primeiramente com as kizombas e afins,
depois com os zuks para desengonçar, e após uns trocados que envolveram
passo dobles, merengues, tchá-tchá-tchás, voltaram aos agitados ritmos
africanos, rendendo-se, agora, serenos, aos melódicos anos sessenta.
A bebida fluía generosa, e os olhares cúmplices dos casos clandestinos e os
dos em busca de novas hostilidades, mordiscavam o espaço de ponta a ponta.
Pelas diversas mesas, numerosas senhoras encalhadas, zurziam suas viperinas
línguas em recompensados ajustes de contas.
A Lucinda, disfarçada apropriadamente de galinha, só lhe faltava cacarejar.
Quando deu pelo Tonecas em compenetrado ziguezague, a vir em sua direcção,
levantou-se lesta e afogueada, salvara a honra. Este, quem nem a vira, e que
tirara o azimute ao bar, para lá continuou imperturbado.
Na mesa maior, do Choco e da Mandioca algo se passava, as vozes estavam
alteradas, e apreendia-se que não só pela bebida.
«Se tornas a fazer isso, rebento-te as fussas!...», desafiava Choco,
descontrolado.
«Mas o que fiz?», retorquiu Jindungo, picante.
«Vi muito bem, estás aí por debaixo da mesa a empernar com a Mandioca, só
que desta vez enganastes-te e a perna foi a minha.»
«Como ousas sugerir uma coisa dessas?», sentiu-se Mandioca ofendida, não era
uma qualquer.
«Tem razão, tem razão, não há gente incivilizada nesta mesa!», disse Cebola,
para acirrar.
«Calma, haja calma, estamos aqui para brincar e dançar.», tentou apaziguar
Sal.
«E quem falou contigo, cara de amargura?», logo ripostou Choco.
«Não admito que fales assim com a minha mulher!», gritou Oleo de Palma.
«Tens a certeza que ela é tua mulher?», contra atacou Mandioca, sentindo que
valera a pena vir.
Meia hora depois, como a discussão continuava, cada vez mais acalorada, a
Banda Viramilha parou de tocar por se sentir desrespeitada.
As atenções convergiram então para a mesa dos desavindos, agora que, com
público, passaram a vias de facto.
Choco foi fisicamente atacado por Jindungo e Sal, que sem mais lhe retiraram
a dikanza e o saco de tinta.
Os associados da Associação Chá de Abacate e os penetras, bateram palmas,
afinal o floor show começara. Era com espectáculos desta magnitude que se
arrecadavam as cotas e se ganhava renome nacional.
Agua, que há muito fervia, deu-lhe uma cozedura como manda a lei, enquanto
Mandioca, cortada de dor aos pedaços, a ele se aconchegou que, viril e
assumido, a abraçou em seus tentáculos. Cebola ainda tentou interceder mas
igualmente sucumbiu, em rodelas de lágrimas.
O público não sabia o que fazer. Uns, solicitavam à Banda Viramilha que
entoasse o hino nacional, talvez assim se conseguisse compostura, pois a
refrega parecia querer generalizar-se, mas logo se gerou maior confusão
porque a maioria advogava que o hino não era suficientemente representativo.
Por fim, tão engalfinhados se encontravam, que os mirones só viam porções de
Mandioca sobrepostas às de Choco e de Cebola. Oleo de Palma, borrifado por
Jindungo e por Sal, cobria-os por cima, numa zanga que parecia, agora,
cozinhar a fogo brando. Já sem forças para lutar mais, Agua atirou-se a eles
como se para dar molho à briga e tudo apaziguar.
E assim acabou aquela segunda noite de Carnaval, com a Banda Viramilha a
tocar o hino nacional e os associados da Associação Chá de Abacate a
gritarem felizes como nunca:
«Mas que grande kibeba!»..
Nota: Kibeba é um prato feito de choco. mandioca, óleo de palma,etc.
Jindungu (plural de ndungu) é que no Brasil se chama de pimenta, em
Moçambique de piri-piri, no México chili,etc.
In «Jindunguices» Prémio Literário Sagrada Esperança 1999
http://literaturafragatademorais.blogspot.com/