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EDIÇAO NºLX
, II NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
COMENTARIOS GERAIS
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Choque de Realidade no Cinema
Por
Débora Carvalho
Ontem saí do cinema deprimida. Dormi preocupada. Acordei em pânico. Na verdade, não queria acordar. Estava triste demais, e com medo; apavorada porque em alguns meses serei responsável pela vida de uma garotinha que está pra nascer - de mim.
E ela vai
viver num mundo cheio de coisas maravilhosas, mas também do oposto disso.
Até então, estava vislumbrando apenas um mundo maravilhoso para minha
pequena. Alimentação balanceada e naturalista, como condicionar o sono na
hora certa, qual o estilo de roupa para cada fase (para que ela seja
estilosa e fofa), que palavras do meu vocabulário preciso tirar, como viver
com no máximo duas horas de televisão por dia, e como adequar minha
inspiração para escrever enquanto ela estiver dormindo.
Então, ontem à noite, fomos comer algo não - saldável e assistir um filme.
As opções eram poucas. Escolhemos pelo nome e horário da seção. Algo light:
«Um olhar do Paraíso».
- Deve ser algum daqueles romances melosos – disse pra galera.
Foi uma inferência equivocada. Eu nem tinha assistido o trailler. No cartaz
só tinha o título e a imagem era linda. Mas algumas pessoas foram embora no
meio da seção. Acho que não suportaram o choque de realidade.

Minha
neura, agora, é: como livrar minha filha de pessoas más. Como ensinar uma
criança a desconfiar de pessoas conhecidas? Como ensinar que não pode
confiar em ninguém, mesmo que seja vizinho, ou até mesmo parente? Como
explicar que existem pedófilos, estupradores e assassinos?
A história de Susie Salmon, interpretada por Saoirse Ronan, é de extrema
importância. O tema incomoda. Choca. Aterroriza. Mas, infelizmente, é algo
real, que acontece todos os dias bem debaixo do nosso nariz. E preciso falar
sobre o assunto para que não continue um tabu da nossa cultura familiar.
Quebrar o silêncio pode salvar a vida de muitas crianças. Elas precisam ser
ensinadas a dizer não.
E algo extremamente difícil, porque nós, os pais, preferimos – e é
compreensível – manter a inocência, a ingenuidade da criança intacta, longe
de ser contaminada pela maldade do mundo. E eu me pergunto: diante dessa
triste realidade, a pureza pode matar e o conhecimento do mal pode salvar?
Eu não sei. Estou neurótica e aflita tentando descobrir. Mas depois de
conhecer a história de Susie Salmon, não consigo conceber a ideia de que vou
colocar alguém no mesmo mundo em que vive outro alguém que possa fazer
qualquer tipo de mal à minha pequena. Não consigo pensar numa estratégia de
proteção, nem numa pedagogia adequada para ensiná-la a se proteger.
O filme é um tanto surreal, com uma história real. O tal «olhar» do paraíso,
é o da garota após a sua morte, antes de «fazer a passagem para o Céu».
Espiritualidade à parte, o choque de realidade é grande. Até porque o
espectador deseja profundamente que o assassino seja pego e sofra ao menos
um pouquinho por todas as garotinhas que violentou e assassinou. A crise na
família, a sede de vingança, a saudade dos pais e dos irmãos, e finalmente
seguir em frente. Essa é uma experiência que não quero passar – jamais – e
desejo que nenhuma família tenha que sobreviver a isso. Bom seria que o
próprio assunto não existisse. Mas ele existe. E de alguma forma, precisamos
descobrir como avisar nossos pequenos, porque pode ser que um «não» salve
suas vidas.
Não
acho que seria legal contar o filme, mas posso adiantar que vale à pena
conferir mais de uma vez o drama «The Lovely Bones» – Um Olhar do Paraíso,
dirigido por Peter Jackson, baseado no best-seller de Alice Selbold com
atuação fantástica da protagonista. A fotografia é muito bonita, com efeitos
especiais pra ninguém botar defeito. A trilha sonora também é perfeita, na
medida exata para cada cena. O roteiro é inteligente, fácil de entender,
envolvente sem sensacionalismo. Mesmo com um tema tão chocante, as cenas são
bastante ponderadas – sem violência – o que permite que os mais jovens
também assistam. Inclusive, pode ser interessante mostrar o filme a juvenis
e adolescentes que não suportam a preocupação dos pais e acham que nunca
nada de mal vai acontecer com eles – como eu também achei.
Para conferir o trailler legendado, segue o endereço do site oficial:
http://www.lovelybones.com/intl/br/#home
(Abre noutra janela em full screen)
Lovely Bones