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EDIÇAO NºLX
, II NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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Sindicatos...
Crónica
por Maria das Candeias Leal
Sindicato: – Associação de indivíduos de uma classe ou grupo profissional para
defesa dos seus interesses profissionais ou económicos – assim me diz o
dicionário.
Ora, nunca liguei muito a estes interesses, jamais havia trabalhado para uma
firma com sindicato. Em vida do Manuel Sanches, homem de esquerda, chegámos a
conversar sobre esta defesa de interesses e, ao ouvir o que ele contava, julgava
ser uma coisa boa para os trabalhadores. Hoje, penso que, pelo contrário, em
certos casos, os sindicatos servem para ajudar os malandros e não os
trabalhadores.
Em tempos trabalhei num hotel onde um grupo de mulheres havia conseguido instalar um sindicato. Fui por ele informada que, no início, trabalharia apenas algumas horas, dois ou três dias por semana. Depois sim, trabalharia tempo inteiro mas, enquanto não perfizesse esse tempo, teria de descontar para o sindicato, sem usufruir de direitos alguns.
Claro que não gostei, porém, julguei que após três meses me dariam algumas compensações ou regalias, mas nunca recebi nada a não ser problemas que me afectaram a mente. Só me chamavam quando tinham precisão, por vezes às dez horas da noite, para trabalhar no dia seguinte. Nem sempre ia, achava que eles estavam errados. Afinal de que serviu o que pensei? De nada! Continuaram fazendo como queriam e, se eu quisesse ganhar alguns dólares, nem sempre podia dizer que não. Isto não acontecia apenas comigo, éramos algumas nestas condições.
Com direitos havia cinco empregadas. Sem direitos a nada, a não ser trabalhar como escravas e descontar para o sindicato, julgo que éramos muitas mais; pois não as conhecia todas, cada dia via uma cara nova.
As que sabiam viver naquele ambiente iam passando o tempo, porque o que lhes interessava eram os dólares que conseguiam ganhar. O trabalho mais difícil era dado às que não tinham direitos, enquanto que as outras que trabalhavam a tempo inteiro, com melhor salário e todos os direitos, andavam por lá a fazer tempo.
Sendo eu como sou, quando o faziam comigo não aceitava, abandonava o trabalho,
mas isso não quer dizer que ficasse bem. Ficava revoltada, farta de tentar
entender certas pessoas. Perguntava-me vezes sem fim se elas não viam ou não
queriam ver. Onde estava a consciência ou a moral destas pessoas que fazem com
que uma principiante marque o seu cartão à hora que deveria sair do emprego e
trabalhe mais três horas de graça para acabar a tarefa que lhe foi destinada?
Diziam os patrões nada poderem fazer. As empregadas seguiam as ordens do
sindicato e não a dos empregadores e, mesmo com razões para as mandar embora,
não o podiam fazer. Seria verdade o que eles diziam, ou seria isso um jogo entre
os patrões e os sindicalistas com o fim de esfolar ainda mais o pobre
trabalhador? Sei que para os sindicatos é favorável haver pessoas a trabalhar
ocasionalmente; elas pagam as cotas como as outras e nada recebem.
Assim sendo, são os trabalhadores a ajudar este tipo de sindicatos e não os sindicatos a eles. Falei com outras pessoas que diziam estar nas mesmas condições. Estando elas na administração do hotel, diziam ser difícil controlar o local de trabalho: os trabalhadores a tempo inteiro não queriam fazer o trabalho e, obrigar os «ocasionais» a fazê-lo, não era fácil nem justo. Ora, para pessoas com a minha idade que, já não precisam muito para viver o resto do tempo que lhes falta até à reforma, ainda escapam.
Algumas podem fazer como eu: abandonar o trabalho. Porém, para pessoas novas, com filhos para sustentar, já se torna mais difícil; elas têm que aguentar a falta de entendimento entre certos senhores/as, sentindo-se obrigadas a ganhar algum para sustentar os filhos.
Julgo que os sindicatos foram criados com boa intenção. Só que, algumas pessoas abusam das boas intenções. Infelizmente assim vejo hoje os sindicatos, porque ainda não conheci melhor. Em nome da beneficência e da defesa dos interesses do povo, vão esfolando, cada vez mais, o pobre do trabalhador.
