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EDIÇAO NºLX , II NUMERO  DE MARÇO DE 2010 - COMENTARIOS GERAIS

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Coluna Poética de Liliana Josué

 

 

 

 

A Lágrima

Vagueei naquela rua batida
De gentes cansadas, transfiguradas.
Vi homens nojentos, mulheres da vida
Com expressões ausentes, desenganadas.
Recantos por onde Deus nunca andou
Descurando impiedoso estes seus mundos!
E mais: nem uma lágrima deitou
P’ra chorar seus eventos tão imundos.

Através duma porta entreaberta
Espreitava um menino sujo, assustado
Olhando quem passava, num alerta
De quem está sempre só, esfomeado.
Senti-me fútil ave enternecida
E uma caustica lágrima rolou
Sulcando minha crença enegrecida.
A impotência em mim se enraizou.

Aventurei-me mais p’la rua escura.
Num canto malcheiroso estava um cão
Roendo escanzelado côdea dura
De olhar ferido, sem consolação.
Senti tamanha dor e destempero
Que soltei um grito indignado e mudo.
O cão, penetrando meu desespero
Lambeu as lágrimas do corpo ossudo.

Prossegui meu caminho divagando
De corpo e alma mortalmente feridos
Sequei uma lágrima deslizando...
Toda eu de sentidos aturdidos
Constatei que a Mãe Terra é uma enorme
Lágrima azul, em suspensão no ar
E que a imensa dor Humana, disforme
E mão de Deus, cruel, a castigar!


Crença de Ateu

Es crença perdida num mundo de ateus
ou
um ateu perdido num mundo de crenças
tudo vai da perspectiva
dos teus sentidos
e dos meus.
Não te ajoelhes em preces
ou
muito menos dês sentenças
pois teus quereres incontidos
que te rebentam no sangue
são dilúvios de paixões ateias
que incendeias
nessa tua carne exangue
ou
apenas frágeis teias
que teces no teu caminho
numa atenção de ateu
que tanta coisa perdeu
num mundo de muitas crenças
mas sem carinho.
Então
Abraça o que ainda é teu
num afecto imensurável
molha teu rosto no meu
neste choro inconsolável
seca as lágrimas do mundo
em nosso mar tão profundo.

 

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