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EDIÇAO NºLX
, II NUMERO DE MARÇO DE 2010 -
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Histórias da Vida Real
Crónica
por Martim Afonso Fernandes
TRAVESSIA NUPCIAL
Há anos passados, segundo as informações foi entre 1927 e 1931, houve um
acontecimento bizarro, que felizmente não chegou a ser uma tragédia, mas deu um
grande susto, principalmente nos protagonistas.
Temos ao sul de Santa Catarina algumas cidades banhadas pelas Lagoas de Imaruí e
Mirim, belíssimo complexo lagunar que deságua no Atlântico. Aí vivem os botos,
famosos amigos dos pescadores, que na época da pesca de tainhas as encostam para
dentro da enseada, o que facilita serem pescadas pelas tarrafas. As redes são
circulares, jogadas com os braços.
Era comum naquele tempo, quando havia casamento, os noivos irem passar a lua de
mel em outras cidades, o meio de transporte era a canoa. Ainda não haviam
estradas para para aquela freguesia. Houve um casamento, a festa foi de «comes e
bebes» e baile, o famoso arrasta - pé, até no dia seguinte.
As 9.00 horas foi comunicado que os noivos partiriam para a viagem. Também era
comum que os noivos viajassem com o traje nupcial, para dar sorte. O conjunto
musical e os convidados os acompanharam até o trapiche, dalí os noivos
despediram-se e embarcaram para seguir até a outra cidade que seria o destino da
viagem
Ao som de músicas, cantos e foguetes, seguia a embarcação que era conduzida por
profissionais competentes e conhecedores de previsão de tempo. A travessia
durava de uma hora e cinqüenta minutos a duas horas e meia, dependendo do vento.
A viagem transcorria tranqüila, o mar estava calmo, o vento era brando o
suficiente para o bom deslanchar da canoa. Mais ou menos na metade da travessia,
a noiva, feliz da vida, ficou em pé no acento transversal da embarcação, fazendo
uma pose romântica para o agora esposo.
Foi quando ela rodou e perdeu o apoio do pé, mergulhando de vestido de noiva na
lagoa, que mais parecia um imenso espelho. Um dos tripulantes, muito ágil,
jogou-se e pegou-a. Ela flutuava com seu vestido longo, de armação rodada.
Perdeu o sapato, mas em compensação, não corria mais risco de vida. Estava salva
e dentro da canoa novamente, toda encharcada, da cabeça aos pés.
No destino de chegada, havia muitos amigos esperando com música e fotógrafo
«lambe - lambe». Não conseguiram conter o riso, pela situação em que a noiva se
apresentava. Como a maldade está presente na cabeça do ser humano, especialmente
na dos homens, um gaiato em voz alta gritou:
- A noiva não é mais uma mulher enxuta!!!
Quando o casal passou, recebeu uma salva de palmas. Em seguida, embarcaram em
uma charrete e dirigiram-se ao hotel, sob o pipoco de foguetes dos amigos. Foram
felizes por muitos anos e quando chegaram a completar Bodas de Ouro, alguns dos
presentes no casamento estavam ali. Muitos automóveis chegaram. Estradas foram
abertas. Um amigo, no meio da festa falou:
- Os noivos vão viajar, só que depois de 50 anos de casamento não tem mais
mergulho na lagoa!!!!
Risos e palmas se misturaram aos abraços dos filhos, dos netos e dos amigos.